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20 de abril de 2015

Contra-natura

Ilustração de Liuyi & Shandan


Sempre que os filhos precedem na morte aqueles que os trouxeram ao mundo, a Natureza exige  longo tempo para repor as suas leis.

                                                      Mário Cláudio, in O Fotógrafo e a Rapariga, D. Quixote, 2014, p. 12

19 de abril de 2015

Dom Barómetro e a gulodice

No armazém havia além de mim, do patrão Vasques, e do senhor Soares, que trabalhava como nosso tradutor, o senhor Moreira, o guarda-livros, o senhor Borges, o caixa, os três rapazes, caixeiros de praça, e o moço de recados. Os três rapazes eram o José, o Sérgio e o Vieira, a quem chamávamos o Alfama por morar a Santo Estêvão, e o moço que tinha a graça de António como eu. De quando em quando apareciam os caixeiros-viajantes, o senhor Tomé e o senhor Ernesto, e tínhamos também o gato, o Aladino, constando que fora o senhor Soares quem lhe pusera o nome. 

(...)
Ilustração de Angelo Barile


Embora teoricamente ocupasse o lugar de chefe do tradutor, o senhor Moreira nunca puxava dos galões com ele, nem aliás com ninguém, e apenas censurava a indiferença que o senhor Soares sentia por tudo quanto fosse comida. “Aquilo é uma tristeza”, desabafava o guarda-livros, “o único petisco que lhe passa pelas goelas é uma canja de galinha, e de longe a longe uma postazinha de pescada cozida.” O tradutor parecia não acusar tais brincadeiras, e só muito raramente se divertia a caçoar com o senhor Moreira, alcunhando-o de Dom Barómetro. 


Ilustração de Jennifer Garant

De facto não existia quem como ele se preocupasse com as condições atmosféricas, não porque isso lhe desse qualquer abalo no tocante aos dias da semana, mas porque temia que o almoço dominical, festejo em que depositava as suas alegrias de glutão, se lhe tornasse impossível, devido ao mau tempo.

                                           Mário Cláudio, in Boa noite, senhor Soares, D. Quixote, 2008, 2ª ed., pp.13-15

18 de abril de 2015

Piquenique

Não sei como lanço a vista por cima do pessoal que ali acampava, a merendar, ou a bater a sesta, e que nada tinha a ver com o que quer que fosse que respeitasse ao senhor Soares, e dou com o sujeito, ou com o que se assemelhou ser ele porque as lentes dos óculos redondos chispavam na luz, em mangas de camisa, e encostado a uma manta que entalara entre entre as costas e o tronco de uma oliveira. Diante do senhor Soares alapava-se um cavalheiro, um tipo que eu não conhecia identificar porque a sombra lhe cobria o rosto, e entre ambos distinguiam-se duas garrafas e um embrulho aberto com o que julguei serem figos.

(...)
Ilustração de Alexander Sokht
Ilustração de Philip Giordano 




O que o acompanhava (...) fora um dia, recordei-me então, ao escritório à procura do amigo, e confiara-me um cartão-de-visita (...) que tinha impresso, "Ricardo Reis", e por baixo "Médico", e ainda, escrito à mão, e a tinta preta, "passou por aqui". 





Mário Cláudio, in Boa noite, senhor Soares, D. Quixote, 2008, 2ª ed., pp. 30-31


14 de abril de 2015

Lisboa, aceder a um amanhã

Ilustração de 度薇年 

Lembro-me então daquela Lisboa de cinquenta e dois anos atrás, vista da Graça, ou de São Pedro de Alcântara. Fixo-me nas artérias da Baixa, traçadas a régua e esquadro, e na multidão que se precipita para o Terreiro do Paço, e que se escoa devagar nos barcos que partem para Cacilhas. Está ainda azul o céu, mas paira sobre a cidade um alarme de acabamento, isto como se se houvesse esgotado a esperança que anima as criaturas, e o direito que lhes cabe a aceder a um amanhã.

                           
                 Mário Cláudio, in Boa noite, senhor Soares, D. Quixote, 2008, 2ª ed., pp.47-48

9 de abril de 2015

O guarda-livros sem rrr

O senhor Moreira, um homem muito engraçado que vivia ao pé da Avenida, não conseguia pronunciar os erres, e fazia-nos rir à socapa com aquelas frases que nós, os rapazes, nos não cansávamos de repetir, e de que nunca mais me esqueci. “O peço do meto do pano cu” fora uma dessas suas saídas que usávamos, se nos apetecia um bocado de pagode.

Ilustração de Clelia Nguyen

O guarda-livros andava por regra muito mal vestido, fora sempre um enorme comilão, gastava o ordenado com a esposa, a dona Lalá, a encher a barriga, e não me lembro de segunda-feira em que ele não chegasse com saudades dos petiscos da véspera, “Comi cá ontem umas eiroses em Alcochete que nem vos digo, nem vos conto”, ou “Bebi cá ontem uma pinga em Colares que ainda lhe trago o sabor na língua".


Ilustração de Marius van Dokkum

Via-se bem que o senhor Soares gostava do senhor Moreira, achando-lhe graça talvez, ou percebendo no seu íntimo que se tratava de um tipo de bons sentimentos, o que de resto se revelava naquela cara bolachuda, coberta de suor no Verão, mas um pouco roxa no Inverno.

Mário Cláudio, in Boa noite, senhor Soares, D. Quixote, 2008, 2ª ed., p.14

7 de abril de 2015

Madrugar

Ilustração de Sam Hyuen Kim
Levanto-me muito cedo, recordando-me da observação de uma das queridas Brontë, julgo que Charlotte, e que minha Mãe tantas vezes citava, nos termos da qual quem perde a manhã perde afinal o dia inteiro.

                                                  Mário Cláudio, in O Fotógrafo e a Rapariga, D. Quixote, 2014, p. 15

26 de março de 2015

Gabinete de curiosidades

Ilustração de Alenka Sottler

Em certas ocasiões, tais e tantos como por aí andam imagens e objectos que me povoam a fantasia, a existência aparece-me como um gabinete de curiosidades.

                                                              Mário Cláudio, in O Fotógrafo e a Rapariga, D. Quixote, 2014,p. 19

24 de março de 2015

No reino desta menina...

Ilustração de Carolee Clark

No reino desta menina [Alice, no país das maravilhas], dominado por relógios de variada descrição, o surto de um coelhinho branco, e do mecanismo de bolso que o mesmo ostentava, não deveria suscitar a menor das surpresas. Mas tratava-se na circunstância de um contador do tempo do sonho, função que requeria um apurado engenho, e de aspecto especial. O relógio do Coelho marcava horas esdrúxulas...

                                        
                                                        Mário Cláudio, in O Fotógrafo e a Rapariga, D. Quixote, 2014, p. 31

20 de março de 2015

Alice


Às seis em ponto, e obedecendo ao comando da rapariga que na véspera acertara o ponteiro para esse momento exacto, o despertador de algarismos romanos disparou numa estridência capaz de acordar toda a casa. (...)

Ilustração de Nina Chen 

Alice sentou-se na cadeira alta que ocupava em pequenina, mas de que recusava prescindir apesar de ter aumentado de tamanho, assentou os cotovelos no tampo de mármore, desafiando assim o código a que devia submeter-se na sala de jantar, e lançou-se a comer o que lhe haviam colocado à frente.

Mário Cláudio, in O Fotógrafo e a Rapariga, D. Quixote, 2014, pp. 23, 24