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21 de dezembro de 2014

À procura do burro

Ilustração de Dainius Šukys 
Toda a gente se assustou ao ver Mullah Nasrudin a percorrer apressadamente as ruas da aldeia, montado no seu burro.

"Onde vais, Mullah?", perguntaram-lhe.

"Estou à procura do meu burro", respondia Nasrudin, quando passava.






Certa ocasião, algumas pessoas vieram ter com Rinzai, o Mestre de Zen, à procura do seu próprio corpo. Ele fez com que desatassem a rir os seus mais estúpidos discípulos.


Ilustração de Grzegorz Ptak

Vinha alguns, preocupados, à procura de Deus! 


Anthony de Mello, s.j., in El Canto del pájaro (trad. e adapt.)

3 de julho de 2014

É o teu rosto ainda que eu procuro

Ilustração de Irene Jones

É o teu rosto ainda que eu procuro


Através do terror e da distância


Para a reconstrução de um mundo puro.

Sophia de Mello Breyner Andresen, "Mar Novo", in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 308


28 de abril de 2014

insinceridade

Ilustração de Carlotta Castelnovi
quis-nos aos dois enlaçados 
meu amor ao lusco-fusco
mas sem saber o que busco:
há poentes desolados
e o vento às vezes é brusco

nem o cheiro a maresia
a rebate nas marés
na costa de lés a lés
mais tempo nos duraria
do que a espuma a nossos pés

a vida no sol-poente
fica assim num triste enleio
entre melindre e receio
de que a sombra se acrescente
e nós perdidos no meio

sem perdão e sem disfarce,                                                                
sem deixar uma pegada
por sobre a areia molhada,
a ver o dia apagar-se
e a noite feita de nada

por isso afinal não quero
ir contigo ao lusco-fusco,
meu amor, nem é sincero
fingir eu que assim te espero,
sem saber bem o que busco.

Vasco Graça Moura, in Antologia dos Sessenta Anos

31 de agosto de 2013

Um sentir entre o sentir

Dá-me a tua mão:
 
Ilustração de Ester Roí
 
        Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é linha sub-reptícia. Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois factos existe um facto, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir - nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo e aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio.

                                 Clarice Lispector, in A paixão segundo G.H., Relógio d'Água, 2000, p.79

6 de agosto de 2013

Escultura

Ilustração de Vanessa Cooper


O homem é como a pedra
dum escultor.
Quem diria que, desbastada,
se encontraria lá dentro
uma obra-prima?
Dentro do homem,
quem diria que poderíamos
encontrar Deus?

Fragmento Anónimo, século I depois da Hégira



Afonso Cruz, in Enciclopédia da Estória Universal - Recolha de Alexandria, Alfaguara, 2012, 1ª ed., p. 43

31 de julho de 2013

O lado de fora



Ilustração de Catrin Welz-Stein
Eu não procuro nada em ti, 
nem a mim próprio, é algo em ti
que procura algo em ti
no labirinto dos meus pensamentos.

Eu estou entre ti e ti,
a minha vida, os meus sentidos
(principalmente os meus sentidos)
toldam de sombras o teu rosto.

O meu rosto não reflecte a tua imagem,
o meu silêncio não te deixa falar,
o meu corpo não deixa que se juntem
as partes dispersas de ti em mim.

Eu sou talvez
aquele que procuras,
e as minhas dúvidas a tua voz
chamando do fundo do meu coração.


Manuel António Pina, in Poesia, Saudade da Prosa - uma antologia pessoal, 
Assírio & Alvim, 2012, 2ª ed., p. 44

26 de julho de 2013

A solidão

Ilustração de Katsuo


A noite abre os seus ângulos de lua
E em todas as paredes te procuro
A noite ergue as suas esquinas azuis
E em todas as esquinas te procuro

A noite abre as suas praças solitárias
E em todas as solidões eu te procuro

Ao longo do rio a noite acende as suas luzes
Roxas verdes e azuis

Eu te procuro.


                                    Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Cristo Cigano

11 de fevereiro de 2013

À entrada do bosque


Eu sou apenas um estranho à beira de um bosque.

José Tolentino Mendonça, in O Estado do Bosque, Cena III

Ilustração de Stefano Arici