Número total de visualizações de páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta cruz. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta cruz. Mostrar todas as mensagens

3 de abril de 2015

Aparição

Ilustração de Laimonas Smergelis

Devagar devagar um homem morre
Escura no jardim a noite se abre
A noite com miríades de estrelas
Cintilantes límpidas sem mácula

Veloz veloz o sangue foge
Já não ouve cantar o moribundo
Sua interior exaltação antiga
Uma ferida no seu flanco o mata

Somente em sua frente vê paredes
Paredes onde o branco se retrata
Seus olhos devagar ficam de vidro
Uma ferida no seu flanco o mata

Já não tem esplendor nem tem beleza
Já não é semelhante ao sol e à lua
Seu corpo já não lembra uma coluna
É feito de suor o seu vestido
A sua face é dor e morte crua

E devagar devagar o rosto surge
O rosto onde outro rosto se retrata
O rosto desde sempre pressentido
Por aquele que ao viver o mata

Seus traços seu perfil mostra
A morte como um escultor
Os traços e o perfil
Da semelhança interior.


Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Cristo Cigano


5 de agosto de 2013

Berlinde

Ilustração de Kaatje Vermeire
No futuro
iremos passar durante
um minuto todos os dias,
interromper o que estivermos
a fazer, de repente, a meio
de uma palavra, de uma passada,                                    
de uma garfada. E, perfeitamente
imóveis, veremos que o mundo
é uma cruz para quem o carrega
e um berlinde para quem o empurra.
Depois é só escolher.

(Petar Stamboliski, Poesia)

Afonso Cruz, in Enciclopédia da Estória Universal - Recolha de Alexandria, Alfaguara, 2012, 1ª ed., p. 24