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10 de novembro de 2012

A delicadeza do mundo (1)

Ilustração de Akitaka Ito



A delicadeza do mundo chega-nos
através de frases interrompidas
de sementes que nos dispersam
de paralelas pintadas
com uma faca ou uma corda
a mudar com o vento
mesmo aqui, mesmo neste instante
as paredes do mundo não são muralhas
de altura inusitada
mas escadas suaves como fumo


Pudéssemos acordar uma manhã
e descobrir na poça castanha
entre gravetos, folhas apodrecidas
e ramos
que fazemos parte da sua solidão

Tolentino Mendonça, in Estação central

28 de outubro de 2012

Os justos

Ilustração de Alberto Godoy
 
Começam o dia louvando o imperfeito:
O tempo que se inclina para o lado partido
as escassas laranjas que se tornam 
amarelas no meio da palha 
as talhas sem vinho 
 
Olham por dentro a brancura da manhã
e em tudo quanto auxilia um homem no seu ofício
louvam o vulnerável e o inacabado
 
Estão sentados à soleira dos espaços 
trabalhados devagar pelo silêncio 
 
Quando Deus voltar 
não terá de arrombar todas as portas
 
para José Mattoso
 
Tolentino Mendonça, in Estação Central

24 de outubro de 2012

A janela iluminada

Ilustração de Mariusz Stawarski

 
Não chames ao mundo morada, não lhe dês um nome
pois falhas a tua Primavera
as sugestões atmosféricas tornam as paisagens equívocas
e nunca chegamos a perceber
como avança uma história
ou uma tempestade

Diante da janela iluminada
acredita apenas na duração
do amor


Tolentino Mendonça, in Estação Central

14 de outubro de 2012

A ciência do amor

Ilustração de Mihai Criste


O amor é um acordo que nos escapa
premissas traficadas sem certeza noite fora 
em casas devolutas, em temporais, em corpos que não o nosso
aluviões para tentar de forma contínua
num sofrimento corrosivo que ninguém consegue
não chamar também de alegria

Pensamos que quando chegasse as nossas vidas acelerariam
mas nem sempre é assim:
há emoções que nos aceleram
outras que nos abrandam

Um mês ou um século mais tarde
movem-se ainda,
tão subtilmente que não se notam


Tolentino Mendonça, in Estação central

12 de outubro de 2012

Escatologia


E, por fim, Deus regressa
carregado de intimidade e de imprevisto
já olhado de cima pelos séculos
Ilustração de Kristi Valiant
humilde medida de um oral silêncio
que pensámos destinado a perder

Eis que Deus sobe a escada íngreme
mil vezes por nós repetida
e se detém à espera sem nenhuma impaciência
com a brandura de um cordeiro doente

Qual de nós dois é a sombra do outro?
Mesmo se piedade alguma conservar os mapas
desceremos quase a seguir
desmedidos e vazios
como o tronco de uma árvore


Tolentino Mendonça, in Estação central

9 de outubro de 2012

Credo

atribuído a Yossel Rakover


 Creio no sol, mesmo quando não o vejo

 Creio no amor, mesmo quando não o abraço
 
  Creio em Deus, mesmo quando Deus se cala


Tolentino Mendonça, in Estação central

Ilustração de Stefano Vitale

8 de outubro de 2012

O perfume precioso

(Lc 7, 36-50)


Havia um vaso de perfume
em barro branco
e a mulher que se colocou de gatas
radiante por poder exibir a farta cabeleira
Mas ao quebrá-lo daquele modo aos pés do hóspede
misturou o nardo imprevistamente
com o cheiro de uma mulher que chora

Ilustração de ShiShi Nguyen

O anfitrião especado observava, sem pronunciar um som
o mestre, porém, olhou-a com os seus olhos de cão meigo
a vagabundagem e a pobreza
eram direitos de quem entrou e saiu das trevas
para fazer da infelicidade um uso

Recordarei sempre aquele momento
perfeito fio de prumo
que indica o centro da terra

Tolentino Mendonça, in Estação central







22 de setembro de 2012

It's Time to Be Clear

Ilustração de Jasmin Aldin
Os que falam de mim dizem que sou pobre
Existo à maneira de uma árvore
Tenho diante e atrás de mim a noite eterna
Vacilo, duvido, resvalo
E sei: a maior parte das vezes o amor nasce do erro
transcreve-se a azul ou a negro
sobre passagens, casas inacabadas, alturas remotas

Observá-lo apenas serve

para tornar contundente a sua forma nunca exactamente igual
a sua incrível velocidade destacada no meio do nada
enquanto a noite se desmorona
sempre mais bela 


José Tolentino Mendonça, in Estação central