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21 de setembro de 2012

A Noite e o locus horrendus





Ilustrações de Libellune
A frenética e dorida expressão do desencanto, da traição e da morte (da mulher amada), oriunda da vivência do sentimento amoroso, conduz frequentemente Bocage a procurar refúgio na paisagem nocturna e mórbida. Os cenários lúgubres constituem o temporário abrigo para a frustração amorosa, expressando assim, com o auxílio de uma retórica exacerbada, a profunda sensação de melancolia. Nesta poética nocturna, merece particular destaque a presença do locus horrendus, tópico com que o poeta pretende enfatizar as colorações negras do seu desespero íntimo. Com efeito, uma das grandes características de Bocage é a sua predilecção pelos cenários nocturnos: o sujeito poético deleita-se na solidão e na imensidão dos mares tempestuosos, no escuro das florestas, no refúgio dos túmulos ou na soturnidade das trevas da noite.

 MARTINS, Cândido in Para uma leitura da poesia de Bocage, Lisboa, Ed. Presença, 1999, pp. 69-70 

20 de setembro de 2012

Cenários noturnos, tristeza profunda

Ilustração de Sam Araya


O céu, de opacas sombras abafado,
Tornando mais medonha a noite feia;
Mugindo sobre as rochas, que salteia,
O mar, em crespos montes levantado;

Desfeito em furacões o vento irado;
Pelos ares zunindo a solta areia;
O pássaro nocturno, que vozeia
No agoireiro cipreste além pousado.

Formam quadro terrível, mas aceito,
Mas grato aos olhos meus, grato à fereza
Do ciúme e saudade, a que ando afeito.

Quer no horror igualar-me a Natureza;
Porém cansa-se em vão, que no meu peito
Há mais escuridade, há mais tristeza. 



Bocage

Insónia


Ilustração de Catrin Welz-Stein

Já sobre o coche de ébano estrelado
Deu meio giro a noite escura e feia;
Que profundo silêncio me rodeia

Neste deserto bosque, à luz vedado!

Jaz entre as folhas Zéfiro abafado,
O Tejo adormeceu na lisa areia;
Nem o mavioso rouxinol gorjeia,

Nem pia o mocho, às trevas costumado.

Só eu velo, só eu, pedindo à sorte
Que o fio, com que está minha alma presa

À vil matéria lânguida, me corte.

Consola-me este horror, esta tristeza,
Porque a meus olhos se afigura a morte
No silêncio total da natureza.

Bocage

Ah, se eu não te visse!

Gustav Klimt, O Beijo (pormenor)
Olha, Marília, as flautas dos pastores
Que bem que soam, como estão cadentes!
Olha o Tejo a sorrir-se! Olha, não sentes
Os Zéfiros brincar por entre flores?

Vê como ali beijando-se os Amores
Incitam nossos ósculos ardentes!
Ei-las de planta em planta as inocentes,
As vagas borboletas de mil cores.

Naquele arbusto o rouxinol suspira,
Ora nas folgas a abelhinha pára,
Ora nos ares sussurrando gira:

Que alegre campo! Que a manhã tão clara!
Mas ah! Tudo o que vês, se não te vira
Mais tristeza que a morte me causara.

                                   Bocage

19 de setembro de 2012

Meu ser evaporei na lida insana

Akzhana Abdalieva
David Galchutt


Meu ser evaporei na lida insana
Do tropel de paixões, que me arrastava;
Ah! cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
Em mim quase imortal a essência humana.

De que inúmeros sóis a mente ufana
Existência falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe a Natureza escrava
Ao mal, que a vida em sua orgia dana.


David Galchutt
 
Prazeres, sócios meus, e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos.

Deus, oh Deus!... Quando a morte à luz me roube,
Ganhe um momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver não soube.



Bocage

18 de setembro de 2012

O universo bocagiano e o locus horrendus

 
Ó retrato da Morte! Ó Noite amiga,
Por cuja escuridão suspiro há tanto!
Calada testemunha de meu pranto,
De meus desgostos secretária antiga!

Pois manda Amor que a ti somente os diga
Dá-lhes pio agasalho no teu manto;
Ouve-os, como costumas, ouve, enquanto
Dorme a cruel que a delirar me obriga.

E vós, ó cortesãos da escuridade,
Fantasmas vagos, mochos piadores,
Inimigos, como eu, da claridade!

  



 Em bandos acudi aos meus clamores;
Quero a vossa medonha sociedade,
                                                Quero fartar o meu coração de horrores.
  

Bocage