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12 de abril de 2020

Conto de fadas

Ilustração de Tititi 

Era uma vez um conto de fadas. Estávamos
na terra do sonho; o castelo tinha torres
que chegavam à lua; e a noite quente do verão
entrava pelas janelas e tapava-nos
num aconchego de mãe. Neste sonho, não havia
ogres nem lobos maus; e um barco
branco esperava por nós, no porto da cidade,
para nos levar para o oriente onde o sol
nunca se põe. Nenhum de nós queria acordar
para não se esquecer deste sonho; e mesmo que
acordássemos, não iríamos abrir os olhos,
para não ver o que nos esperava, ao sair
do casulo dos sonhos. Mas, se acordássemos,
e abríssemos os olhos, e víssemos que tínhamos
saído da noite para entrar no dia, que já não é
um conto de fadas, podíamos dizer uns 
aos outros: "Este é o sonho de onde temos
de acordar, para voltar ao conto de fadas
onde a noite nunca se põe."

Nuno Júdice, in A matéria do poema

4 de novembro de 2012

Quando é que o Monstro se transforma em Príncipe?

Ilustração de Claude Theberge


Quando o portento se tornou supérfluo, quando a metamorfose já se realizou insensivelmente em Belinda: lavando-a de toda a saudade adolescente, de toda a ferrugem da fantasia, dela não deixando senão a atenta alma nua ("já não me parece um Monstro e mesmo que o fosse desposá-lo-ia na mesma porque é perfeitamente bom e eu só poderei amá-lo a ele").

Cristina Campo, in Os imperdoáveis