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3 de abril de 2015

O destino

Ilustração de Laimonas Smergelis

O destino eram
Os homens escuros
Que assim lhe disseram:

- Tu esculpirás Seu rosto
   de morte e de agonia.


                          Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Cristo Cigano

8 de março de 2015

O rosto


Impossível não reparar naquele rosto. O tão característico rosto redondo, olhos e bochechas enormes. Uma deficiente - ou um deficiente? Marius teve dificuldade em distinguir. À primeira vista parecia uma menina, sem dúvida - quantos anos, quinze, dezasseis? -, mas depois, olhado / olhada com mais atenção, dir-se-ia um rapaz, mas não. Uma rapariga.
Nas mãos tinha uma pequena cartolina. Marius esqueceu-se da sua pressa e aproximou-se. Ela sorriu e passou-lhe a cartolina para as mãos. Estava dactilografada.




Ilustração de Mymoodo




"FORNECER OS SEUS DADOS PESSOAIS

1- Dizer o primeiro nome
2- Dizer se é rapaz ou rapariga
3- Dizer o nome completo
4- Dizer o nome dos pais e irmãos
5- Dizer a morada
6- Dizer em que escola anda
7- Dizer a idade
8- Dizer o dia e o mês de aniversário
9- Dizer a cor dos olhos e do cabelo"                         

Marius sorriu.
Perguntou.
- Qual é o teu primeiro nome?
- Hanna.

Gonçalo M. Tavares, in Uma menina perdida no seu século à procura do pai, Porto Editora, 2014, 1ª ed., p. 9 

28 de julho de 2013

O amor

Ilustração de Katsuo

Não há para mim outro amor nem tardes limpas
A minha própria vida a desertei
Só existe o teu rosto geometria
Clara que sem descanso esculpirei.

E noite onde sem fim me afundarei.

                             

                                        Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Cristo Cigano

20 de fevereiro de 2013

As pessoas sensíveis

Ilustração de Ira Tsantekidou






As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas

O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo    
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra

"Ganharás o pão com o suor do teu rosto"
Assim nos foi imposto
E não:
"Com o suor dos outros ganharás o pão." 
Ó vendilhões do templo 
Ó construtores 
De grandes estátuas balofas e pesadas 
Ó cheios de devoção e de proveito 

Perdoai-lhes Senhor 
Porque eles sabem o que fazem 

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Livro Sexto