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21 de março de 2015

A poesia clássica

Ilustração de Pinwheel Bunny 

Esvazio uma colheita de estrelas na eira

do infinito, onde as velhas deusas do oriente

as limpam do seu fogo. No fim do trabalho,

ficam a secar, à espera que o moleiro

venha, com o seu saco de vento,

e as leve para o moinho. As mós do sonho

reduzem-nas a este farelo de luz que os poetas

põem no alguidar das palavras, para

que as musas preparem a massa

da inspiração. E enquanto espero que

o forno aqueça, olho para o céu

vazio de estrelas, onde um cometa,

com o rasto único da madrugada,

escreve o princípio do poema.


Nuno Júdice, in A matéria do poema, D. Quixote, 2008, 1ª ed., p. 123

19 de março de 2015

Só me satisfaz o infinito (2)

Ilustração de Aaron  Ayumi Piland


Só me satisfaz o infinito.

É um número muito grande, não é?

É, mas consegue-se domesticá-lo e fazer com que caiba numa só noite. Uma noite bem passada nunca mais acaba.


Afonso Cruz, in Assim mas sem ser assim - Considerações de um misantropo, Caminho, 2013, p. 22

17 de março de 2015

Só me satisfaz o infinito (1)


Subi as escadas com a pessoa do 3A, bailarino. Costuma andar com roupas brancas ou de outra cor qualquer e com cabelos compridos, mas mais curtos do que as suas certezas. Comunicou-me que gosta muito da natureza, de andar descalço (eu comuniquei-lhe que já sabia), e de dormir ao relento, debaixo das estrelas.

Ilustração de Aaron Ayumi Piland 

É o meu cobertor favorito. Um hotel de cinco estrelas é pouco para mim, preciso de um com muitas mais estrelas.
Cinco não chegam?
Só me satisfaz o infinito.


Afonso Cruz, in Assim mas sem ser assim - Considerações de um misantropo, Caminho, 2013, p. 22