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27 de março de 2016

Páscoa Feliz

 
il. Evgenia Gapchinska
Que os nossos olhos, feitos para olhar as estrelas, não morram a olhar para os nossos sapatos.

Tolentino Mendonça, in O tesouro escondido

25 de março de 2016

Pai, Pai, por que me abandonaste?

Ilustração de Gurbuz Dogan Eksioglu

Mas a imagem do homem continuava sozinha: a cabeça levantada que olhava o céu com uma expressão de infinita solidão, de abandono e de pergunta.
 
E do fundo da memória, trazidas pela imagem, muito devagar, uma por uma, inconfundíveis, apareceram as palavras:

– Pai, Pai, por que me abandonaste?
 
il. Vanja Todoric
 
Então compreendi por que é que o homem que eu deixara para trás não era um estranho. A sua imagem era exactamente igual à outra imagem que se formara no meu espírito quando eu li:

– Pai, Pai, por que me abandonaste?

Era aquela a posição da cabeça, era aquele o olhar, era aquele o sofrimento, era aquele o abandono, aquela a solidão.
Para além da dureza e das traições dos homens, para além da agonia da carne, começa a prova do último suplício: o silêncio de Deus.

Ilustração de Gurbuz Dogan Eksioglu

E os céus parecem desertos e vazios sobre as cidades escuras.


Sophia de Mello Breyner,"O Homem" in Contos Exemplares

5 de abril de 2015

Coelhos da Páscoa

Ilustração de Robert Wagt
No circo, ficamos a saber que os coelhos nascem de chapéus.

E não de ovos.

Afonso Cruz, in O livro do ano

Final

Ilustração de Laimonas Smergelis


Assim termina a lenda
Daquele escultor:
Nem pedra nem planta
Nem jardim nem flor
Foram seu modelo


                                                            Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Cristo Cigano

19 de abril de 2014

Jardim perdido

Ilustração de Laimonas Smergelis

Jardim em flor, jardim da impossessão, 
Transbordante de imagens mas informe, 

Em ti se dissolveu o mundo enorme, 
Carregado de amor e solidão. 

A verdura das árvores ardia, 
O vermelho das rosas transbordava, 
Alucinado cada ser subia 
Num tumulto em que tudo germinava. 

A luz trazia em si a agitação 
De paraísos, deuses e de infernos, 
E os instantes em ti eram eternos 
De possibilidade e suspensão.


Mas cada gesto em ti se quebrou, denso 
Dum gesto mais profundo em si contido, 
Pois trazias em ti sempre suspenso 
Outro jardim possível e perdido.



Sophia de Mello Breyner Andresen,  "Poesia II" in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 45

31 de março de 2013

Reconheci tua presença

Ilustração de Laimonas Smergelis


Pela flor pelo vento pelo fogo
Pela estrela da noite tão límpida e serena
Pelo nácar do tempo pelo cipreste agudo
Pelo amor sem ironia - por tudo
Que atentamente esperamos
Reconheci tua presença incerta
Tua presença fantástica e liberta


Sophia de Mello Breyner Andresen, "Felicidade", in Livro Sexto 

28 de março de 2013

Amar-se a si mesmo

Ilustração de Laimonas Smergelis

Não é porque Deus nos ama que nós devemos amá-Lo. É porque Deus nos ama que nos devemos amar. Como é possível amar-se a si mesmo sem este motivo?


O amor a si mesmo é impossível ao homem a não ser através deste subterfúgio.


Simone Weil, in A gravidade e a graça

Implicação humana

Ilustração de Laimonas Smergelis 

Aquele que nos criou sem nós não nos salvará sem nós.


Santo Agostinho

24 de março de 2013

Ovos de coelho

Ilustração de Oxana Zaika

Não, disse o meu irmão. Quem põe ovos de chocolate são os coelhos da Páscoa, não são as galinhas de chocolate.



Evidentemente.




Afonso Cruz, "7 de Abril", in O livro do ano 

8 de abril de 2012

Parafuso no vento

Primeiro o menino viu uma estrela
pousada nas pétalas da noite
E foi contar para a turma.
A turma falou que o menino zoroava.

Logo o menino contou que viu o dia
parado em cima de uma lata
Igual que um pássaro pousado sobre uma pedra.
Ele disse: Dava a impressão que a lata amparava o dia.
A turma caçoou.
Mas o menino começou a apertar parafuso no vento.

A turma falou: Mas como você pode apertar
parafuso no vento
Se o vento nem tem organismo.
Mas o menino afirmou que o vento tinha organismo
E continuou a apertar parafuso no vento.

                                                                          
Manoel de Barros, "O vidente" (poeta brasileiro)


Ilustrações de Laimonas Smergelis
Por vezes não entendemos as metáforas.

É preciso  olhos novos, novos sons, para descobrir como a esperança mora por detrás de um gesto: o de um menino que continua a acreditar que é possível “apertar parafuso no vento”. Com persistência. Com esperança. Com gesto renovado. Eis a Páscoa.