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6 de janeiro de 2016

Dia de Reis


Ilustração de Jan Pashley
Gaspar respondeu:

- Não posso adorar o poder dos ídolos. O meu deus é outro e creio no seu advento, que a Terra e o Céu me anunciam.

Sophia de Mello Breyner Andresen, "Os três reis do Oriente" in Contos Exemplares, 
 Figueirinhas, 2006, 36ªed., p. 146

4 de janeiro de 2016

O que lá não está


 
Ilustração de Ian Dale
O poema não se refere àquilo que é, mas sim àquilo que não é. Pois a natureza é uma caixa cheia de coisas da qual o poeta extrai uma coisa que lá não está. 
(...) 
- Num poema não devemos buscar sentido, pois o poema é ele próprio o seu próprio sentido. Assim o sentido de uma rosa é apenas essa própria rosa.



Sophia de Mello Breyner Andresen, "Os três reis do Oriente" in Contos Exemplares, 
Figueirinhas, 2006, 36ªed., p. 155

5 de janeiro de 2015

Palavra ou estrela?

ilustração de Eugen Sopko


Primeiro pareceu a Gaspar que a estrela era uma palavra, uma palavra de repente dita na muda atenção do céu. 


Mas depois o seu olhar habituou-se ao novo brilho e ele viu que era uma estrela, uma nova estrela, semelhante às outras, mas um pouco mais próxima e mais clara e que, muito devagar, deslizava para o Ocidente. 




Sophia de Mello Breyner Andresen, "Os três reis do Oriente", in Contos Exemplares, Figueirinhas, 2006, 36ª ed., pp. 147-148

4 de janeiro de 2015

Reis Magos

Ajoelhado no terraço Gaspar olhava o céu da noite. Olhava a alta e vasta abóbada nocturna, escura e luminosa, que simultaneamente mostrava e escondia.

Ilustração de Maarit Ailio

E disse: 


— Senhor, como estás longe e oculto e presente! Oiço apenas o ressoar do teu silêncio que avança para mim e a minha vida apenas toca a franja límpida da tua ausência. Fito em meu redor a solenidade das coisas como quem tenta decifrar uma escrita difícil. Mas és tu que me lês e me conheces. Faz que nada do meu ser se esconda. Chama à tua claridade a totalidade do meu ser para que o meu pensamento se torne transparente e possa escutar a palavra que desde sempre me dizes.



                        Sophia de Mello Breyner Andresen, "Os três reis do Oriente", in Contos Exemplares, Figueirinhas, 2006, 36ª ed., pp. 147-148

5 de janeiro de 2013

Baltasar

Ilustração de Georges Underwood
O rei Baltasar amava a frescura dos jardins e sorria ao ver na água clara dos tanques o reflexo da sua cor de ébano. (...)

A estrela ergueu-se muito devagar sobre o Céu, a Oriente. O seu movimento era quase imperceptível. Parecia estar muito perto da terra. Deslizava em silêncio, sem que nem uma folha se agitasse. Vinha desde sempre. Mostrava a alegria, a alegria nua, sem falha, o vestido sem costura da alegria, a substância imortal da alegria.

E Baltasar reconheceu-a logo, porque ela não podia ser de outra maneira.


Sophia de Mello Breyner Andresen, "Os três reis do Oriente, in Contos Exemplares

Melchior

Ilustração de Ines Huni
 Nessa noite (...), Melchior subiu ao terraço e viu que havia no céu, a Oriente, uma nova estrela.
A cidade dormia, escura e silenciosa, enrolada em ruelas e confusas escadas. Na grande avenida dos templos já ninguém caminhava. (...)

E sobre o mundo do sono, sobre a sombra intrincada dos sonhos onde os homens se perdiam tacteando, como num labirinto espesso, húmido e movediço, a estrela acendia, jovem, trémula e deslumbrada, a sua alegria.

E Melchior deixou o seu palácio nessa noite.

Sophia de Mello Breyner Andresen, "Os três reis do Oriente, in Contos Exemplares

Gaspar e a justiça

Ilustração de Rosario Elizalde

...Gaspar escutava o crescer do tempo. A solidão criava em seu redor um transparente espaço de limpidez onde os instantes avançavam um por um e o universo inteiro parecia atento. O silêncio era como a mesma palavra inumeravelmente repetida.

E debruçado sobre o tempo Gaspar pensava: "Que pode crescer dentro do tempo senão a justiça?"

Sophia de Mello Breyner Andresen, "Os três reis do Oriente", in Contos Exemplares