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25 de abril de 2014

Eu falo da primeira liberdade

Ilustração de Oliver Flores


Eu falo da primeira liberdade

Do primeiro dia que era mar e luz

Dança, brisa, ramagens e segredos

E um primeiro amor morto tão cedo

Que em tudo que era vivo se encarnava.



Sophia de Mello Breyner Andresen, "No Tempo Dividido", in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 281

23 de abril de 2014

Das coisas que competem aos poetas

Ilustração de Helen Dardik


Nas terras onde os sinos andam pelas ruas

há horas surdas sós e sem cuidados

há mar condicionado ao possível verão

e vendem-se manhãs e mães por três ideias

Nas terras onde a música é o fogo de artifício

a camioneta curva a carga sob os plátanos

e à sombra dos lacrimejantes carros

o gato dorme a trepadeira sobe

o soba grita nunca ninguém sabe

a erva cresce e as crianças morrem

O mar aceita chão a mão do sol

Que plural deplorável o da magna agência mogno

E nas tílias há riscos dos vestidos de retintas raparigas

e o dente resistente número quarenta cheira a Pepsodent



Ruy Belo, in Todos os poemas, Assírio&Alvim, 2000, p. 155

A poesia revela o poeta

Ilustração de Laimonas Smergelis

Para mim, a poesia não é instrumental. Eu não levo um programa de ideias para expressar na poesia. A poesia é que me revela. O poema é que me mostra o que eu ando a dizer. E daí talvez uma intensidade. Porque o poema não se faz de ideias, não se faz só de palavras, faz-se de uma experiência e, nessa experiência, está o que somos.


Tolentino Mendonça, in "Estante", Fnac, nº 1, primavera 2014, p. 23

22 de abril de 2014

A poesia é uma atenção ao real

Ilustração de Anne Cresci

As musas visitam-nos e, quando elas nos visitam, têm um caráter de imponderabilidade, de coisa que não se pode adiar. Aí, a escrita e a poesia acontecem de uma forma mais intensa. Nos outros momentos, ou seja, na maior parte do tempo, a poesia é uma atenção ao real, é um pequeno caderno que trago no bolso, onde vou anotando imagens, palavras, frases, todos os dias, a todas as horas.


                                                      Tolentino Mendonça, in "Estante", Fnac, nº 1, primavera 2014, p. 22

21 de abril de 2014

A vida e a escrita

Ilustração de Laimonas Smergelis




A vida não nos chama de uma maneira só, chama-nos com vozes diferentes que são no fundo a única voz. A escrita é uma espécie de ponte, funciona como uma espécie de resíduo, um lugar, por onde tudo passa e algumas coisas ficam.


Tolentino Mendonça, in "Estante", Fnac, nº 1, primavera 2014, p. 20

20 de abril de 2014

Páscoa Feliz

Ilustração de Ercan Baysal 

Que os nossos olhos, feitos para olhar as estrelas, não morram a olhar para os nossos sapatos.

Tolentino Mendonça, in O tesouro escondido

Pudesse eu não ter laços nem limites



Ilustração de Laimonas Smergelis



Pudesse eu não ter laços nem limites

Ó vida de mil faces transbordantes

Pra poder responder aos teus convites

Suspensos na surpresa dos instantes.


Sophia de Mello Breyner Andresen,  "Poesia II" in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p.33




19 de abril de 2014

Jardim perdido

Ilustração de Laimonas Smergelis

Jardim em flor, jardim da impossessão, 
Transbordante de imagens mas informe, 

Em ti se dissolveu o mundo enorme, 
Carregado de amor e solidão. 

A verdura das árvores ardia, 
O vermelho das rosas transbordava, 
Alucinado cada ser subia 
Num tumulto em que tudo germinava. 

A luz trazia em si a agitação 
De paraísos, deuses e de infernos, 
E os instantes em ti eram eternos 
De possibilidade e suspensão.


Mas cada gesto em ti se quebrou, denso 
Dum gesto mais profundo em si contido, 
Pois trazias em ti sempre suspenso 
Outro jardim possível e perdido.



Sophia de Mello Breyner Andresen,  "Poesia II" in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 45

Vazio



Ilustração de Laimonas Smergelis

Só a forma e o vazio são universais; tudo o resto é pó e cinzas.



Rui Chafes "O perfume das buganvílias 22" , in Entre o céu e a terra, Documenta, 2012

18 de abril de 2014

Trevas

Ilustração de Laimonas Smergelis


O que foi antigamente manhã limpa
Sereno amor das coisas e da vida
É hoje busca desesperada busca
De um corpo cuja face me é oculta.


Sophia de Mello Breyner Andresen,  "Cristo Cigano" in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 374

Pôr do sol na Boa Nova

Ilustração de Laimonas Smergelis




Mar alma na tarde morta
que cortas dedos na luz
abro-me todo: sou porta
que só contigo transpus



Ruy Belo, in Todos os poemas, Assírio&Alvim, 2000, p. 70

Fé e poesia

Ilustração de Laimonas Smergelis


A fé alimenta-se muito daquela pobreza extrema, esse modo pobre que é a poesia. No fundo, o estar sempre a começar. Cada poema é um início. Como o estar sempre perante o branco, perante o silêncio, perante o não saber. E recomeçar. A fé alimenta-se muito disso, porque a fé não é o acumulado do ontem, mas é viver no aberto da esperança e do corpo, do nascer e do morrer, do amor e da fragilidade. E no fundo a escrita treina-me para a sucessão de começos que a vida é nas suas várias dimensões.


Tolentino Mendonça, in "Estante", Fnac, nº 1, primavera 2014, p. 23

15 de abril de 2014

Árvore, árvore...

Ilustração de Joan Louis

Árvore, árvore. Um dia serei árvore.
Com a maternal cumplicidade do verão.
Que pombos torcazes
anunciam.

Um dia abandonarei as mãos
ao barro ainda quente do silêncio,
subirei pelo céu,
às árvores são consentidas coisas assim.

Habitarei então o olhar nu,
fatigado do corpo, esse deserto
repetido nas águas,
enquanto a bruma é sobre as folhas

que pousa as mãos molhadas.
E o lume.


Eugénio de Andrade, in Com o sol em cada sílaba, Asa, 2002, 3ª ed., p. 21

13 de abril de 2014

Que trabalho

Ilustração de Luís Silva


Que trabalho exasperado, o da língua,
essa em que dizes com mão insegura
desvios, desacertos, desalinhos.

Eugénio de Andrade, in Pequeno formato

12 de abril de 2014

A visita do príncipe

Nunca sei o que me trazem as palavras, elas gostam tanto de me surpreender. 

Ilustração de Eszter Schall 
Hoje ao levantar da névoa trouxeram-me a casa sobre o rio, o terraço escassamente iluminado por um lampião que balançava ao vento, o pequeno sapo que todas as noites, rente ao muro, se ia aproximando , depositário de tudo o que nesse tempo em mim se confundia com a ternura. Pequeno príncipe da vadiagem, por ali se quedava sem outro fito que não fosse o de receber alguma carícia, so depois regressando por entre a humidade das pedras aos pântanos da sombra, a noite inteira nos olhos desmedidos. 

Eugénio de Andrade, in Com o sol em cada sílaba, Asa, 2002, 3ª ed., p. 17

10 de abril de 2014

Amor é fogo que arde sem se ver

Ilustração de Alvaro Arteaga

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

                               
                                                     Camões

6 de abril de 2014

Como o rumor


Ilustração de Marie Cardouat 

Como o rumor do mar dentro de um búzio
O divino sussurra no universo
Algo emerge: primordial objecto


Sophia de Mello Breyner Andresen, O nome das coisas in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 609

5 de abril de 2014

Musa

Aqui me sentei quieta
Com as mãos sobre os joelhos
Quieta muda secreta
Passiva como os espelhos




Ilustração de Maria Jose Olavarria Madariaga













Musa ensina-me o canto
Imanente e latente
Eu quero ouvir devagar
O teu súbito falar
Que me foge de repente.


Sophia de Mello Breyner Andresen, Dual in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 571

3 de abril de 2014

Da mais alta janela da minha casa


Gustav Klimt
Da mais alta janela da minha casa 
Com um lenço branco digo adeus
Aos meus versos que partem para a humanidade. 


E não estou alegre nem triste.
Esse é o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos
Porque não posso fazer o contrário
Como a flor não pode esconder a cor,
Nem o rio esconder que corre,
Nem a árvore esconder que dá fruto. 

Ei-los que vão já longe como que na diligência
E eu sem querer sinto pena
Como uma dor no corpo. 

Quem sabe quem os terá?
Quem sabe a que mãos irão? 

Ilustração de Christian Asuh

Flor, colheu-me o meu destino para os olhos. 
Árvore, arrancaram-me os frutos para as bocas.
Rio, o destino da minha água era não ficar em mim.
Submeto-me e sinto-me quase alegre,
Quase alegre como quem se cansa de estar triste. 

Ide, ide de mim!
Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua. 

Passo e fico, como o Universo.


Alberto Caeiro, in Fernando Pessoa dito por Sinde Filipe, Dinalivro, 2010, 3ª ed., pp. 86-87

1 de abril de 2014

Vinicius de Moraes

Soneto da fidelidade

Ilustração de Carlotta Castelnovi


De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Qem sabe a solidão, fim de quem ama

Que eu possa dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.




Vinicius de Moraes

27 de março de 2014

Branco sobre branco

Ilustração de Debi Hubbs

O Branco sobre o branco.
As ovelhas na neve
Não se distinguem.
Tal como as nossas palavras mais exactas
Sobre o papel.

Giánnis Ritsos

26 de março de 2014

Primaverar


Misturado com aquilo que escolhemos, chega-nos o que não escolhemos e que temos, na mesma, de viver, transformando-o em oportunidade e desafio para a confiança. A primavera não tem uma linha demarcada: transborda sempre e temos de preparar-nos para isso. Ela não fica a alegrar apenas os canteiros muito bem ordenados. A sua floração inédita dá-nos o endereço da torrente, para lá da vida que pensamos domesticada pelos nossos cálculos.




Pobres de nós: achamos que conseguimos dominar completamente o mundo com os nossos cinco sentidos! Precisaríamos na verdade, de cinco mil para perceber um pequeno quinhão do que somos. 

Fotos de autor desconhecido

Há quanto tempo não caminhamos assobiando, ou não seguimos com um fio de erva nos lábios, sem mais, sem pressas nem pretensões, acreditando simplesmente no valor de ser e que, por isso, nos dão a possibilidade de estar, de vaguear, de medir o momento apenas com o peso e a leveza da própria marcha?


José Tolentino Mendonça, in Revista Expresso, 22.3.2014

Meio da vida


Ilustração de Becky Kelly


Porque as manhãs são rápidas e o seu sol quebrado
Porque o meio-dia
Em seu despido fulgor rodeia a terra

A casa compõe uma por uma as suas sombras
A casa prepara a tarde
Frutos e canções se multiplicam
Nua e aguda
A doçura da vida



Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto, in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p.408

24 de março de 2014

Quando eu nasci



 
Ilustração de Nancy-Ribard
Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.
Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.                   

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...

Pra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe...

Sebastião da Gama in Serra-Mãe, 1945

21 de março de 2014

A primavera a zumbir

Ilustração de Lee Misook


A primavera a zumbir

com os seus olhos azuis de papoila:

novas e belas vestes de Deus 


Tolentino Mendonça, in A papoila e o monge, Assírio&Alvim, 2013, p. 94

19 de março de 2014

Inverno

 
Ilustração de Victoria Ball


Este Inverno é longo gélido
E confuso
Na varanda só o vento passa
E o vento olha-nos de esguelha quando passa

Nenhum poema aflora
Entre as linhas finas e aéreas
Da página em branco

                              Inverno de 1999

Sophia de Mello Breyner Andresen, Poemas dispersos, in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 878

Tudo é efémero

Ilustração de Ulrike Baier


Tudo é efémero:

ontem escutava a tua voz

hoje só o vento



Tolentino Mendonça, in A papoila e o monge, 

Assírio&Alvim, 2013, p. 142

18 de março de 2014

Arte poética

Ilustração de Kazu Nitta

Num romance, uma chávena é apenas
uma chávena — que pode derramar
café sobre um poema, se o poeta,
bem entendido, for a personagem.

Num poema, mesmo manchado
de café, a chávena é certamente a
concha de uma mão — por onde eu
bebo o mundo em maravilha, se tu,
bem entendido, fores o poeta.

No nosso romance, não sou sempre
eu quem leva as chávenas para a mesa
a que nos sentamos à noite, de mãos
dadas, a dizer que a lata do café chegou
ao fim, mas a pensar que a vida é
que já vai bastante adiantada para os
livros todos que ainda pensamos ler.

No meu poema, não precisamos de café
para nos mantermos acordados: a minha
boca está sempre na concha da tua mão,
todos os dias há páginas nos teus olhos,
escreve-se a vida sem nunca envelhecermos.

Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p. 235



17 de março de 2014

Olho-te e não me vês

Ilustração de Lucy Campbell


Olho-te e não me vês. A primavera vigia
a floração das malvas e o girassol retribui
os favores da luz. Eu sento-me onde acho

que vai estar a tua sombra. E, como a dor
que persegue a ferida, vejo-te quando passas,
mas vejo-te melhor quando não passas. Tu

não me vês; caminhas na geometria vã de
uma linha sem pontos; às vezes parece que
alguma coisa te detém e viras-te - talvez
então me chames dentro de ti, talvez até
me olhes. Mas não me vês.


Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p. 165

15 de março de 2014

Que é das palavras?

Ilustração de Marie Desbons



Que é das palavras? Como chamar

por quem as esconde se, sem elas,

nem o silêncio tem nome?


Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p. 144