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12 de agosto de 2012

Vício de bibliotecário ou erro humano?


“Catalogamos, fechamos e estigmatizamos situações, fazemos pagar” a outros “as consequências da exclusão que temos cá dentro.”

Ilustração de Dragonfly, artista croata
Pedro Meca (1998)


 Pedro Meca vive no meio das ruas de Paris, conversando e acolhendo os sem-abrigo. Pensa que as mudanças não virão tanto pela conquista do poder, mas pela alteração de mentalidades. A exclusão, por exemplo, está na nossa cabeça, diz. E é preciso esconjurar as etiquetas com que estigmatizamos tanta gente…

António Marujo, in Deus vem a público, Entrevistas sobre a transcendência

Cuidar do livro

11 de agosto de 2012

Viagem

Ilustração de Ancka Gosnik Godec




Provavelmente já terá fechado os armários da biblioteca, as janelas, subido ao sótão, aproximado da arca, tê-la-á aberto para folhear o álbum de fotografias, reler a carta, terá parado numa linha, tenho medo, medo que os próprios lençóis nos denunciem, depois fechado tudo, terá passado pelo jardim, verificado com algum espanto que o rosto das estátuas envelhecera, à entrada do pátio demorar-se-á a olhar para o meio das silvas. E terá partido.



Eugénio de Andrade, in Memória doutro rio

10 de agosto de 2012

Um poema


Ilustração de Katya Dudnik
Não tenhas medo
Ouve
É um poema
Um misto de oração e de feitiço
Sem qualquer compromisso,
Ouve-o atentamente
De coração lavado
Poderás decorá-lo e rezá-lo
Ao deitar,
Ao levantar
Ou nas restantes horas de tristeza 
Na segura certeza
De que mal não te faz
E pode acontecer
Que te dê paz!

                                          Miguel Torga

8 de agosto de 2012

Números solidários

Ilustração de Gabriel Pacheco



Estou com os que somam e multiplicam
a solidariedade
e não com os que a subtraem e dividem

Blasillo


in Juan José Millás e Antonio Fraguas "Forges", Números pares, ímpares e idiotas

7 de agosto de 2012

Poética



Ilustração de Anna Emilia

 Estes quantos traços que se parecem com a sombra
(às mãos devemos também a solidão mais implacável)
talvez nem mereçam essa forma de lentidão: a leitura
escrevi-os num jardim onde patos grasnam ao frio
e folhas se despenham atrás do vento

 
 Sobre a terra sem nenhum rumor
um verso é sempre tão pouco
em redor do que se pode observar
tenho medo pois de repente
a tua respiração ficou demasiado perto
da essência instável, dissonante

E isso é tudo o que nos resta

Tolentino Mendonça

6 de agosto de 2012

Quando eu sonhava



Ilustração de Silvia Lugli


Quando eu sonhava, era assim
Que nos meus sonhos a via;
E era assim que me fugia,
Apenas eu despertava,
Essa imagem fugidia
Que nunca pude alcançar.
Agora, que estou desperto,
Agora a vejo fixar...
Para quê? - Quando era vaga,
Uma ideia, um pensamento,
Um raio de estrela incerto
No imenso firmamento,
Uma quimera, um vão sonho,
Eu sonhava - mas vivia:
Prazer não sabia o que era,
Mas dor, não na conhecia...
                                    Almeida Garrett, in Folhas Caídas

5 de agosto de 2012

Quase



Ilustração de Danguole Jokubaitiene
Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh' alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo...e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se enlaçou mas não voou...

Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...
Ilustração de Danguole Jokubaitiene

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Mário de Sá-Carneiro

4 de agosto de 2012

Quem como eu


Ilustração de Danguole Jokubaitiene


Quem como eu em silêncio tece

Bailados, jardins e harmonias?

Quem como eu se perde e se dispersa

Nas coisas e nos dias?


Sophia de Mello Breyner Andresen

Cheiro do verão

Quem me traz morangos não sabe
Bastin Marjolein
que também me traz
um punhado
desses tão delicados e carnais
frutos silvestres
que os garotos de Roma vendem
pelas ruas, sorrindo, ao fim da tarde.
Só eles me trazem juntos a sombra
dos bosques do verão
e o canto do rouxinol
na frescura da sua pele.


Eugénio de Andrade, in Rente ao dizer

2 de agosto de 2012

Do lado do verão

Ilustração de Liu Ye

Vinha do sul ou de um verso de Homero.
Como dormir, depois de ter ouvido
o mar o mar o mar na sua boca?

Eugénio de Andrade, in O outro nome da terra

1 de agosto de 2012

História de verão

Ilustração de Mariana Kalacheva


Uma abelha, dessas que dizem ser italianas, entrou pela janela, obstinou-se em escolher-me, pousa-me no ombro, descansa de seus trabalhos. Lisonjeado com aquela preferência, comecei a amá-la devagar, retendo a respiração, com receio de que não tardasse a dar pelo seu engano, que cedo viesse a descobrir que não era eu a haste de onde se avistam as dunas. Mas o seu olhar tranquilizava, era calma ondulação do trigo. Agora só uma interrogação perturbava a minha alegria - comigo, como é que faria o mel?



Eugénio de Andrade, in Memória doutro rio

31 de julho de 2012

Se o vento vier

 
Ilustração de Noriko Senshu



De repente, sem saber por onde entrara, eu tinha a lua comigo. Não era a primeira vez, não, não era. A primeira vez havia sido há muitos anos: adormecera na eira sobre o feno, e quando acordei a lua estava a meu lado e fizera da noite um interminável e azul lago de prata. Eu flutuava no luar espesso, pesava menos que uma folha de papel. Todo o esforço que fazia era para não me desprender do solo, como se a acção da gravidade não me dissesse respeito, e flutuar no espaço fosse a minha vocação. Se o vento vier, não tenho mais remédio que abandonar-me e ver até onde me levam os seus espíritos.

Eugénio de Andrade, in Vertentes do olhar

30 de julho de 2012

Luar

Ilustração de Danguole Jokubaitiene



O luar enche a terra de miragens
E as coisas têm hoje uma alma virgem,
O vento acordou entre as folhagens
Uma vida secreta e fugitiva,
Feita de sombra e luz, terror e calma,
Que é o perfeito acorde da minha alma.



Sophia de Mello Breyner Andresen

29 de julho de 2012

Lua

Ilustração de Victor Nizovtsev



Entre a terra e os astros, flor intensa.

Nascida do silêncio, a lua cheia

Dá vertigens ao mar e azula a areia,

E a terra segue-a em êxtases suspensa.


Sophia de Mello Breyner Andresen

Pagar mais impostos é muito bom para quem paga mais impostos (2)

Ilustração de Juri Romanov


- A questão é simples: os impostos servem para melhorar a vida do país. Certo?
- Certo.
- Portanto...
- Portanto: quanto mais impostos um indivíduo pagar, mais o país melhora a sua qualidade de vida.
- Ou seja...
- Ou seja: quanto menos dinheiro cada pessoa tiver por mês para viver - pelo facto de pagar mais impostos - mais dinheiro tem o país, no geral.
No limite: quando alguém compra um pão com manteiga e o come, está, objectivamente, a roubar esse pão ao país.
- Exacto.
- Viva pois o país - exclamou o Primeiro Auxiliar.
O segundo concordou.
- A questão é: estamos ao serviço dos interesses do cidadão singular ou do país como um todo?
- Do país como um todo, Chefe! - gritaram, em uníssono, os Auxiliares.
E repetiram ainda, com os braços levantados:
- Como um todo! Como um todo!
- E o país pertence a todos! - insistiu o Primeiro Auxiliar.

- Exacto. A todos.
- Portanto, se o nosso objectivo patriótico é melhorar a qualidade de vida do país, o que temos a fazer é...
- Piorar a qualidade de vida de cada cidadão!
- Aí está!

                                                                              Gonçalo M. Tavares, in O Senhor Kraus

28 de julho de 2012

Pagar impostos é muito bom para quem paga mais impostos (1)

Ilustração de Jean-Baptiste Monge

-Trata-se no fundo...
- Exacto, Chefe. No fundo!
O chefe tossiu, estava a meio da frase - não era ainda o momento para interrupções servis.
- Trata-se no fundo - recomeçou, irritado, o Chefe - de um problema de crença, não de dinheiro.
- De crença, Chefe? - murmurou o Primeiro Auxiliar.
- Sim, de crença. Temos de passar a ideia de que os impostos são bons para a pessoa que paga impostos. Quanto mais pagar, melhor para ela. É nisto que ela tem de acreditar.
...
Gonçalo M. Tavares, in O Senhor Kraus

27 de julho de 2012

O Chefe que dava o exemplo

Ilustração de Juri Romanov

O Chefe gostava de dar o exemplo. Mas tirando isso não gostava de dar nada a ninguém.
Quando algum desgraçado se aproximava dizendo:
- Eu precisava de apoio para investir na minha empresa...
O Chefe ia logo com a frase:
- Olhe, por exemplo... - e lá continuava num longo discurso onde, de facto, exemplificava.
Quando o tal desgraçado voltava a casa, a mulher perguntava<.
- Então, o Chefe? Deu-te apoio?
E o homem respondia:
- Deu-me um exemplo.
(...)
Gonçalo M. Tavares, in O Senhor Kraus

As fontes

Ilustração de Vladimir Olenberg
Um dia quebrarei todas as pontes
Que ligam o meu ser, vivo e total,
À agitação do mundo do irreal,
E calma subirei até às fontes.

Irei até às fontes onde mora
A plenitude, o límpido esplendor
Que me foi prometido em cada hora,
E na face incompleta do amor.

Irei beber a luz e o amanhecer,
Irei beber a voz dessa promessa
Que às vezes como um voo me atravessa,
E nela cumprirei todo o meu ser.


Sophia de Mello Breyner Andresen

26 de julho de 2012

Os avós

Ilustração de Courtney Autumn Martin

Entre os bacorinhos acabados de nascer aparecia de vez em quando um ou outro mais débil que inevitavelmente sofreria com o frio da noite, sobretudo se era Inverno, que poderia ser-lhe fatal. No entanto, que eu saiba, nenhum desses animais morreu. Todas as noites, meu avô e minha avó iam buscar às pocilgas os três ou quatro bácoros mais fracos, limpavam-lhes as patas e deitavam-nos na própria cama. Aí dormiriam juntos, as mesmas mantas e os mesmos lençóis que cobririam os humanos cobririam também os animais, minha avó num lado da cama, meu avô no outro, e, entre eles, três ou quatro bacorinhos  que certamente julgariam estar no reino dos céus...

José Saramago, in As pequenas memórias

Eis-me

Ilustração de Cecilia Pucci
 
Eis-me
Tendo-me despido de todos os meus mantos
Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses
Para ficar sozinha ante o silêncio
Ante o silêncio e o esplendor da tua face

Mas tu és de todos os ausentes o ausente
Nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca
O meu coração desce as escadas do tempo em que não moras
E o teu encontro
São planícies e planícies de silêncio

Escura é a noite
Escura e transparente
Mas o teu rosto está para além do tempo opaco
E eu não habito os jardins do teu silêncio
Porque tu és de todos os ausentes o ausente

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Livro Sexto 

25 de julho de 2012

A ordem alfabética

Ilustração de Yuri Romanov

... não percebia bem por que motivo, sendo a enciclopédia um modelo de organização, a realidade não se ajustava sempre à ordem alfabética. O um, por exemplo, vinha antes do dois, embora o u fosse uma das últimas letras do abecedário. Além disso, tomávamos o pequeno-almoço antes de lancharmos e lanchávamos antes de jantar, quando numa progressão alfabética deveríamos começar o dia com o jantar para continuarmos com o lanche e acabar a jornada com um bom pequeno-almoço. Esta falta de acerto permanente entre o mundo enciclopédico e a existência real foi uma das preocupações mais gritantes da minha infância.


Juan José Millás, in A Ordem Alfabética

23 de julho de 2012

O lado da vida ou da peúga



Ilustração de Lisa Nanni invertida
Quis perceber o que estava a acontecer, mas só me ocorreu a ideia de que alguém voltara a realidade do avesso, como se faz a uma peúga, e que agora vivíamos no lado de fora, o mais luminoso, sem ter por isso deixado de existir no de dentro, que era onde eu tinha febre... (...)

Ilustração de Lisa Nanni
Compreendi, por fim, que as coisas aconteciam ao mesmo tempo de um lado e do outro da vida, mas que nem toda a gente tinha o privilégio de se aperceber disso, pelo que senti uma enorme gratidão por ter acordado naquele dia com essa vantagem em relação aos outros.

 Juan José Millás, in A Ordem Alfabética

22 de julho de 2012

Licor de tangerina

Ilustração de Liz Milkau

A madrinha tinha o segredo do equilíbrio dos licores, que tratava como se fosse vida, com instrumentos preciosos, no laboratório da sua cozinha secreta.

O licor servia-se às sextas-feiras, depois do jantar com bolo de laranja. Assim, aprendi que a vida se serve quente ou fria, em banho-maria, com as suas caldas e essências para beber devagar em pequenos copos de vidro.


Ana Paula Tavares, "Licor de tangerina" in Dizes-me coisas amargas como os frutos

Amargos como os frutos



Ilustração de Rosie Sanders

"Dizes-me coisas tão amargas
como os frutos..."

                                                               Kwanyama


Amado, por que voltas 
com a morte nos olhos
e sem sandálias
como se um outro te habitasse
num tempo
para além
do tempo todo

(...)
Ilustração de Rosie Sanders

 Amado, meu amado,
o que regressou de ti
é a tua sombra
dividida ao meio
é um antes de ti
as falas amargas
como os frutos

Ana Paula Tavares, in Dizes-me coisas amargas como os frutos




20 de julho de 2012

O interior da normalidade


Incapazes de outra coisa, ficámos a olhar por instantes um para o outro, até que Laura, por fim, se levantou, veio ao meu encontro e começámos a andar sem jeito rua abaixo. 
 
 
Tive a impressão de que qualquer coisa de anormal estava a acontecer no interior da normalidade, como quando nos encontramos num quarto com as luzes deslocadas dos lugares habituais, ou sentimos algo estranho no outro sem sermos capazes de reparar que leva o casaco de malha do avesso. Eu estava instalado no avesso da realidade e, por isso, percebia as suas costuras e conhecia os mecanismos através dos quais umas peças estavam cosidas às outras. Portanto soube logo que iria beijar Laura, o que, no outro lado do casaco, não teria sido capaz de fazer nem em mil anos de existência.

Ilustrações de Danguole Jokubaitiene

Sabia, além disso, que ela estava à espera, o que não impediu que os joelhos me fraquejassem, que me engasgasse ao tentar falar ou que as mãos me começassem a transpirar precisamente no momento em que decidi pegar numa das suas, que também estava molhada de suor.
Juan José Millás, in A Ordem Alfabética

A mãe


Ilustração de Daniela Giatarrana

A mãe chegou
não estava sozinha
o cesto que trazia
não estava bem acabado
a mãe chegou
não tinha as tranças direitas
a mãe chegou e o pano que trazia
não estava bem alinhado
a mãe chegou com olhos maduros
os olhos da mãe
não olhavam na mesma direcção
a mãe chegou
e não era ainda o tempo
do pão do leite azedo
e das crianças.
A mãe chegou e a fala que trazia
Não estava bem preparada
a mãe chegou
sozinha
com as falas da desgraça da miséria do leite fermentado e do barulho.

Ana Paula Tavares, in Dizes-me coisas amargas como os frutos

18 de julho de 2012

Em dois sítios ao mesmo tempo

Ilustração de Teresa Ramos


Claro que não era a primeira vez que estava em dois sítios ao mesmo tempo. Na escola, durante as aulas, costumava perder-me em sonhos que não mantinham qualquer relação com o que acontecia no quadro preto. E em casa também. A verdade é que era dado a extraviar-me no interior das fantasias como o meu pai entre as páginas da enciclopédia. Mas nunca um lugar imaginário tivera o grau de existência daquele em que os livros voavam.

Juan José Millás, in A Ordem Alfabética

16 de julho de 2012

O avô

Ilustração de Robert Dunn
 O homem que se aproxima, vago entre as cordas de chuva, é o meu avô. Vem cansado, o velho. Arrasta consigo setenta anos de vida difícil, de sábio, calado, que só abre a boca para dizer o indispensável. Fala tão pouco que todos nos calamos para o ouvir quando no rosto se lhe acende algo como uma luz de aviso.


José Saramago, in As pequenas memórias

15 de julho de 2012

Escrever para ninguém

Ilustração de Gonçalo Viana

Quem escreve, escreve para ninguém. Ou pelo menos não diz, não quer, não sabe para quem escreve. É uma cadência. Cá está: a flauta secreta das palavras.

Manuel Alegre, " A Carta", in O Quadrado

14 de julho de 2012

As poucas palavras

Foi um dia, e outro dia, e outro ainda.
Ilustração de Elena Prikhodko
Só isso: o céu azul, a sombra lisa,
o livro aberto.
E algumas palavras. Poucas,
ditas como por acaso.

 
Eram contudo palavras de amor.
Não propriamente ditas,
antes adivinhadas. Ou só pressentidas.
Como folhas verdes de passagem.
Um verde, digamos, brilhante,
de laranjeiras.

 
Foi como se de repente chovesse:
as folhas, quero dizer, as palavras
brilharam. Não que fossem ditas,
mas eram de amor, embora só adivinhadas.
Por isso brilhavam. Como folhas
molhadas.
 
Eugénio de Andrade, in Os sulcos da sede

12 de julho de 2012

O essencial não se vê

Ilustração de António João Santos e João Rodrigues
- O mundo que vemos é um consenso - disse Sors. - A maioria é que diz como é o mundo. Se a maioria olhar para uma mesa e disser que é uma mesa, a minoria que acha que é outra coisa é internada. 


O processo é simples, basta ver, no mundo à nossa volta, coisas que outros não veem.


 Afonso Cruz, in O Pintor debaixo do lava-loiças

11 de julho de 2012

Salzburgo

Ilustração de Salome Starbuck


Essa música ou água
quando a água é álamo

essa música ou terra
quando a terra é barco

essa música ou chama
quando a chama é onda

essa música - eras tu
ou um pássaro na sombra?


Eugénio de Andrade, in Escrita da Terra

10 de julho de 2012

Arte

Ilustração de Carol Carter
A arte serve para ver o interior das coisas, disse Sors. Atravessar as paredes e mostrar aquilo que não se vê, o que está escondido.


Ilustração de Akzhana Abdalieva
Ilustração de Akzhana Abdalieva

A arte está no infinito, e uma pessoa tem de construir uma reta para chegar lá. Não se chega ao impensável aos esses. Isso é bom para gatos, bêbados e pessoas. Os artistas, os verdadeiros, vão a direito.






 Afonso Cruz, in O Pintor debaixo do lava-loiças

9 de julho de 2012

Evidência

Ilustração de Andrea Innocent


 Para mim é evidente: o amor aproxima as pessoas e ficamos todos do mesmo tamanho.

Afonso Cruz, in O Pintor debaixo do lava-loiças


8 de julho de 2012

Miragem


Tinha-a visto na varanda, fumando um
Ilustração de Marina
cigarro, olhando para sítio nenhum, e tão
imóvel que nem se dava pelo fumo que 
envolvia o seu rosto e a transformava
em aparição que, com o cair da tarde,
se materializava em sombra. Ainda
tentei adivinhar em que direcção seguiam
os seus olhos, mas de onde eu estava
só via o rosto num esboço de perfil,
como se o corpo estivesse inacabado
sobre um suporte de nuvem. Depois,
a varanda ficou vazia, quando acabou
o cigarro, e foi como se nunca tivesse
existido, com a noite a cobrir a fachada.


Nuno Júdice, "Situação", in Fórmulas de uma luz inexplicável

7 de julho de 2012

Águas de Pessoa e Óscar Wilde

Ilustração de Gabriel Pacheco
Ilustração de Sophie Casson
...só as frases de espírito nos

dão o espírito das águas, que o pessoa detestava

porque não consumia água, e o wilde também

porque não tomava banho...

Nuno Júdice, in "De profundis"