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22 de julho de 2012

Licor de tangerina

Ilustração de Liz Milkau

A madrinha tinha o segredo do equilíbrio dos licores, que tratava como se fosse vida, com instrumentos preciosos, no laboratório da sua cozinha secreta.

O licor servia-se às sextas-feiras, depois do jantar com bolo de laranja. Assim, aprendi que a vida se serve quente ou fria, em banho-maria, com as suas caldas e essências para beber devagar em pequenos copos de vidro.


Ana Paula Tavares, "Licor de tangerina" in Dizes-me coisas amargas como os frutos

Amargos como os frutos



Ilustração de Rosie Sanders

"Dizes-me coisas tão amargas
como os frutos..."

                                                               Kwanyama


Amado, por que voltas 
com a morte nos olhos
e sem sandálias
como se um outro te habitasse
num tempo
para além
do tempo todo

(...)
Ilustração de Rosie Sanders

 Amado, meu amado,
o que regressou de ti
é a tua sombra
dividida ao meio
é um antes de ti
as falas amargas
como os frutos

Ana Paula Tavares, in Dizes-me coisas amargas como os frutos




20 de julho de 2012

A mãe


Ilustração de Daniela Giatarrana

A mãe chegou
não estava sozinha
o cesto que trazia
não estava bem acabado
a mãe chegou
não tinha as tranças direitas
a mãe chegou e o pano que trazia
não estava bem alinhado
a mãe chegou com olhos maduros
os olhos da mãe
não olhavam na mesma direcção
a mãe chegou
e não era ainda o tempo
do pão do leite azedo
e das crianças.
A mãe chegou e a fala que trazia
Não estava bem preparada
a mãe chegou
sozinha
com as falas da desgraça da miséria do leite fermentado e do barulho.

Ana Paula Tavares, in Dizes-me coisas amargas como os frutos

13 de junho de 2012

A mãe e a irmã


Ilustração de Margarita Sikorskaia

A mãe não trouxe a irmã pela mão

viajou toda a noite sobre os seus próprios passos

toda a noite, esta noite, muitas noites

A mãe vinha sozinha sem o cesto e o peixe fumado

a garrafa de óleo de palma e o vinho fresco das espigas vermelhas

A mãe viajou toda a noite esta noite muitas noites todas as noites

com os seus pés nus subiu a montanha pelo leste

e só trazia a lua em fase pequena por companhia

e as vozes altas dos mabecos.

A mãe viajou sem as pulseiras e os óleos de proteção

no pano mal amarrado

nas mãos abertas de dor

estava escrito:

meu filho, meu filho único

não toma banho no rio

meu filho único foi sem bois

para as pastagens do céu

que são vastas

mas onde não cresce o capim.

A mãe sentou-se

fez um fogo novo com os paus antigos

preparou uma nova boneca de casamento.


Nem era trabalho dela

mas a mãe não descurou o fogo

enrolou também um fumo comprido para o cachimbo.

As tias do lado do leão choraram duas vezes

e os homens do lado do boi

afiaram as lanças.


Ilustração de Graham Franciose
A mãe preparou as palavras devagarinho

mas o que saiu da sua boca

não tinha sentido.

A mãe olhou as entranhas com tristeza                   

espremeu os seios murchos

ficou calada

no meio do dia.


Ana Paula Tavares, in Dizes-me coisas amargas como os frutos