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1 de novembro de 2014

O que é a frugalidade?

...a frugalidade não se confunde com a pobreza. 

Ilustração de Abigail Halpin








O que é então a frugalidade? É a escolha do pouco, de viver com pouco, procurando encontrar aí, ou retirar daí, o máximo sentido. 








Ilustração de Marc Potts

A frugalidade desprende-se, distancia-se, ganha consciência crítica, não abdica da sua liberdade. A frugalidade é um estilo. Há uma frase de Henry David Thoreau que a ilumina especialmente. E ela diz: "A riqueza de um homem é proporcional não ao número de bens que ele pode possuir, mas ao número de coisas a que ele pode renunciar".


José Tolentino Mendonça, in A mística do Instante - o tempo e a promessa, Ed. Paulinas, 2014, 1ª ed., pp. 98-99

31 de outubro de 2014

Romeu e Julieta

Ilustração de Gabriela Andrade

Romeu da Baviera era duque; Julieta apenas bela. Como muitas vezes, o poder ajoelhou-se frente à beleza; como sempre, a beleza fingiu resistir, mas logo se rendeu.

Gonçalo M. Tavares, A História de Julieta, a santa da Baviera, in Histórias Falsas, Caminho, 2014, 7ª ed., p. 15

28 de outubro de 2014

A Bíblia é para comer

Ilustração de Fabián Rivas

Literalmente, a Bíblia é para comer.


José Tolentino Mendonça, in A mística do Instante - o tempo e a promessa, Ed. Paulinas, 2014, 1ª ed., p. 85

25 de outubro de 2014

São piores os homens que os corvos

Ilustração de Debi Hubbs

São piores os homens que os corvos. O triste que foi à forca, não o comem os corvos senão depois de executado e morto; e o que anda em juízo, ainda não está executado nem sentenciado e já está comido. 


Pe. António Vieira, Sermão de Santo António aos peixes

24 de outubro de 2014

Corvos

Ilustração de Debi Hubbs




Eu gosto de corvos. São pássaros anunciadores, transmitem-me premonições. Já não aprecio homens-corvo, não sei bem porquê. São arautos de desgraça.



Miguel Miranda, in Dai-lhes, Senhor, o eterno repouso, Porto Editora, 2011, 1ª ed., p. 30

23 de outubro de 2014

Cabeça em ovo de avestruz

Ilustração de Victoria Kirdy


O senhor Ruela, o vendedor e putativo dono do estabelecimento, era um homem com cabeça em ovo de avestruz, que falava sem mover os lábios, como um ventríloquo.




Miguel Miranda, in Dai-lhes, Senhor, o eterno repouso, Porto Editora, 2011, 1ª ed., p. 12-13

22 de outubro de 2014

Bilhete de identidade


Ilustração de Patrick Gonzales 

Os dedos da mão fornecem mais informações do que o bilhete de identidade, podendo revelar a idade, a profissão, a saúde ou doença do portador.

Miguel Miranda, in Dai-lhes, Senhor, o eterno repouso, Porto Editora, 2011, 1ª ed., p. 31

O maravilhoso não escurece

Ilustração de Andy Kehoe



Quando a noite chega o maravilhoso não escurece.



Gonçalo M. Tavares, in 1, Relógio d' Água, 20122, 2ª ed., p. 192

21 de outubro de 2014

Arquitecto

Ilustração de Regina Lukk-Toompere 

Depois da arquitectura


           
                Deslocou-se para o invulgar:



fundou um poema


        
Gonçalo M. Tavares, in 1, Relógio d' Água, 20122, 2ª ed., p. 82

20 de outubro de 2014

Dois mundos

Ilustração de Regina Lukk-Toompere



Repara, são dois mundos:

Não é possível atirar água

à matemática.




Gonçalo M. Tavares, in 1, Relógio d' Água, 20122, 2ª ed., p. 73

19 de outubro de 2014

Braille

Ilustração de Keiko Shibata 



Leio o amor no livro
da tua pele; demoro-me em cada
sílaba, no sulco macio
das vogais, num breve obstáculo
de consoantes, em que os meus dedos
penetram, até chegarem
ao fundo dos sentidos. Desfolho
as páginas que o teu desejo me abre,
ouvindo o murmúrio de um roçar

de palavras que se
juntam, como corpos,
no abraço

de cada frase. E chego ao fim 
para voltar ao princípio, decorando
o que já sei, e é sempre novo
quando o leio na tua pele.


Nuno Júdice, in Geometria variável, D. Quixote, 2005, 1ª ed., p. 79

16 de outubro de 2014

Gritar a rotina


Ilustração de Fabio Rex

A rotina não basta ao coração do homem.


José Tolentino Mendonça, "Do lado do aprisionamento da vida pela rotina" in A mística do Instante - o tempo e a promessa, Ed. Paulinas, 2014, 1ª ed., p. 22

15 de outubro de 2014

Da rotina à surpresa

Ilustração de Julie Paschkis

As rotinas têm um efeito saudável: tornando o quotidiano um encadeado de situações expectáveis, permitem-nos habitar com confiança o tempo. Mas (...) quando tudo se torna óbvio e regulado, deixa de haver lugar para a surpresa. (...) Os nossos olhos sonolentos veem tudo como repetido.

José Tolentino Mendonça, "Do lado do aprisionamento da vida pela rotina" in A mística do Instante - o tempo e a promessa, Ed. Paulinas, 2014, 1ª ed., pp. 21-22

14 de outubro de 2014

Catedral de aromas

Ilustração de Dani Torrent

Por mais que isso seja dez mil vezes mais prático, passar pela frutaria do inodoro hipermercado não é a mesma coisa que atravessar a catedral de aromas de um pomar.

José Tolentino Mendonça, "Do lado do excesso de comunicação" in A mística do Instante - o tempo e a promessa, Ed. Paulinas, 2014, 1ª ed., p. 23

13 de outubro de 2014

Arte do desejo

Ilustração de Alicia Arlandis


O excelente pedagogo que foi Rubem Alves costumava dizer que , "para entrar numa escola, alunos e professores deveriam passar antes por uma cozinha" e aprender que a sabedoria, tal como o paladar, é uma arte do desejo.


José Tolentino Mendonça, "Regressar ao paladar" in A mística do Instante - o tempo e a promessa, Ed. Paulinas, 2014, 1ª ed., pp. 27-28

12 de outubro de 2014

Regressar ao paladar

Ilustração de Amber Alexander

Não é de estranhar a ligação essencial que se costura entre saber e sabor, que a própria etimologia latina confirma (sapere, sapore).

José Tolentino Mendonça, "Regressar ao paladar" in A mística do Instante - o tempo e a promessa, Ed. Paulinas, 2014, 1ª ed., p. 27

10 de outubro de 2014

Fotografia branca

Ilustração de Patrícia Metola


Vejo esta situação, com a nitidez do fotógrafo:
a cabeça pousada na mão direita, um cigarro
preso aos dedos, o olhar perdido em quase
nada. Invento a imagem que se forma
na tua cabeça, a partir desse nada: uma
nuvem; e por dentro dessa nuvem, todas
as formas do sonho. Porém, o céu não
te perturba o pensamento; nem os ventos
que trazem e levam as nuvens, como
barcos, no oceano da tua memória. E
volto à situação inicial: tu, sentada à
mesa, para que eu te pudesse fixar
com a nitidez do fotógrafo, olhas-me,
como se eu estivesse à tua frente; e
o teu olhar apaga o tempo e a distância,
desfocando a imagem, como se o fumo
do cigarro te envolvesse o rosto, e
te trouxesse de volta a mim, como
nuvem, ou sonho, que o vento dissipa.


Nuno Júdice, in As coisas mais simples, D. Quixote, 2007, 2ª ed.,p. 27

8 de outubro de 2014

Chuva ou choro?


Ilustração de Iwasaki Chihiro


Não consigo chorar. Bendita chuva, que chora por mim.


Miguel Miranda, in A paixão de K, Porto Editora, 2013, 1ª ed., p. 42

6 de outubro de 2014

Lágrimas em autogestão

Ilustração de Eun Young Choi

A chuva são lágrimas em autogestão.

Miguel Miranda, in A paixão de K, Porto Editora, 2013, 1ª ed., p. 42







4 de outubro de 2014

Quando o tempo pára


Ilustração de Ofra Amit



Todos os relógios de Havana devem ter parado enquanto durou o beijo abocanhado dos amantes.


Miguel Miranda, in A paixão de K, Porto Editora, 2013, 1ª ed., p.49

A respiração dos bosques

Ilustração de Teagan White


A respiração dos bosques tinha algo de feminino, espraiando-se lânguida sobre os campos. Os murmúrios de pássaros e folhagens eram suaves promessas incumpridas roçagando na pele e o som da água nas levadas era um riso cristalino de mulher.



Miguel Miranda, in A paixão de K, Porto Editora, 2013, 1ª ed., p. 133


2 de outubro de 2014

Livro e personalidade

Ilustração de Cosei Kawa 


Uma mão é um livro aberto sobre a personalidade do portador. 


Miguel Miranda, in Dai-lhes, Senhor, o eterno repouso, Porto Editora, 2011, 1ª ed., p.31

14 de setembro de 2014

Os Maias, um livro filmado



Ilustração de Claude Theberge
Não é o livro que deu um excelente filme, é um filme que glorifica a excelência do livro.


O filme cria mesmo um artefacto, teatral ou operático, para destacar a palavra. Os painéis de João de Queirós da cidade de Lisboa, mas também de Santa Olávia e de Sintra, são um fabuloso detalhe artístico, que confere a todo o filme um ambiente onírico. Além disso, coloca-nos perante um palco, o que permite uma certa teatralidade e nos transporta mais facilmente para a época. Marcando também o plano literário com a narração possante de Jorge Vaz de Carvalho, Os Maias, de João Botelho, é cinema, teatro, ópera, política e literatura. Está lá tudo.

Manuel Halpern, in JL nº 1146, de 3 a 16 de setembro de 2014, p. 9




7 de setembro de 2014

O adorno das metáforas

Ilustração de Jennifer Lambein

As flores ficam bem nas metáforas.

Ricardo Marques, in 1914 - Portugal no ano da Grande Guerra, Oficina do Livro, 2014, 1ª ed., p. 49


22 de agosto de 2014

Veneza

Ilustração de Sernur Isik



Que música serias

se não fosses água?




Eugénio de Andrade, in Escrita da terra


Ilustração de Pascal Campion

14 de agosto de 2014

14 de Agosto

Ilustração de Keiko Shibata 


Na praia, o horizonte é uma linha recta de mar.

Afonso Cruz, "14 de Agosto", in O livro do ano, Editora Objectiva, 2013, 1ª ed., p.68 

6 de agosto de 2014

Passos de tantas vias

Ilustração de Patricia Metola


Assim ficara, parado nos primeiros passos de tantas vias, com o espírito cheio de mundos, ou de pedrinhas, que é a mesma coisa.


Luigi Pirandello, in Um, ninguém e cem mil, Cavalo de Ferro, 2014, 3ª ed., p. 7 

29 de julho de 2014

É assim

Ilustrações de


É assim:
a gente despede-se, vai-se
embora amaldiçoando a terra,
carrega amargura que nem o diabo
aguenta; com o tempo vai
esquecendo injustiças, mágoas,
injúrias, morrendo por regressar
ao cheiro da palha seca, ao calor
animal do estábulo
ao sonho do quintalório
com três alqueires de milho ao sol
e dois pinheiros bravos -
porque não há no mundo
outro lugar onde
enfim dê tanto gosto chafurdar.



Eugénio de Andrade, in O Sal da Língua


 Lowell Herrero

25 de julho de 2014

Coral

Ilustração de Roz Art
Ia e vinha

E a cada coisa perguntava

Que nome tinha.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 207


21 de julho de 2014

Uma Grandecíssima Injustiça

Ilustração de Vladimir Golub



...estas coisas da gente grande são difíceis de compreender porque a gente grande tem palha no coco e o resto é treta...



Luís de Sttau Monteiro, "Uma Grandecíssima Injustiça" in Redacções da Guidinha, Areal Editores



19 de julho de 2014

Entardecer

Ilustração de Ellie Horie

Entardecíamos em Deus.


Fernando Echevarría, in Verbo, Deus como interrogação a poesia portuguesa, Assírio&Alvim, 2014, p. 105



16 de julho de 2014

Deus é um boomerang

Ilustração de Eszter Schall

Deus é um boomerang

e eu sou a sua filha pródiga


Adília Lopes, in Verbo, Deus como interrogação na poesia portuguesa, Assírio&Alvim, 2014, p. 192

15 de julho de 2014

Deus é a nossa mulher-a-dias

Ilustração de Daltr Onde
Deus é a nossa
mulher-a-dias
que nos dá prendas
que deitamos fora
como a vida
porque achamos
que não presta


Deus é a nossa
mulher-a-dias
que nos dá prendas
que deitamos fora
como a fé
porque achamos
que é pirosa

Adília Lopes, in Verbo, Deus como interrogação na poesia portuguesa, Assírio&Alvim, 2014, p. 195

13 de julho de 2014

Pedrinhas no espírito

Ilustração de Catarina Sobral

Assim ficara, parado nos primeiros passos de tantas vias, com o espírito cheio de mundos, ou de pedrinhas, que é a mesma coisa.

Luigi Pirandello, in Um, ninguém e cem mil, Cavalo de Ferro, 2014, 3ª ed., p. 7

11 de julho de 2014

Casa

Ilustração de Chris Chapman


...limpar a casa, libertá-la de máculas...

Maria Gabriela Llansol

10 de julho de 2014

Limites?

Ilustração de Amber Alexander



Evoluir é talvez o último limite...




Maria Gabriela Llansol in Finita, Assírio&Alvim, 2005, p. 183

9 de julho de 2014

Hoje é quarta-feira

Jodoigne, 15 de Dezembro de 1976.

Ilustração de Liiu Ye

Hoje é quarta-feira. Sábado, domingo, de que faço parte. Amanhã é quinta, sexta, segunda, terça, de que não faço completamente parte, perdida no trabalho.



Maria Gabriela Llansol, in Finita, Assírio&Alvim, 2005, p. 137

8 de julho de 2014

A obra da minha vida

Jodoigne, 18 de Dezembro de 1976.

Ilustração de Nguyễn Minh Hải

Ponho-me a meditar e concluo que a obra da minha
vida abrange toda a espécie de trabalhos preparatórios,
entre os quais
reconverter-me a uma originalidade,
encaminhar-me para o mesmo lugar.


Maria Gabriela Llansol, in Finita, Assírio&Alvim, 2005, p. 138

6 de julho de 2014

Varandas






Ilustração de Elisabetta Trevisan

É na varanda que os poemas emergem
Quando se azula o rio e brilha
O verde-escuro do cipreste – quando
Sobre as águas se recorta a branca escultura
Quasi oriental quasi marinha
Da torre aérea e branca
E a manhã toda aberta
Se torna irisada e divina
E sobre a página do caderno o poema se alinha



Ilustração de Elisabetta Trevisan


Noutra varanda assim num Setembro de outrora
Que em mil estátuas e roxo azul se prolongava
Amei a vida como coisa sagrada
E a juventude me foi eternidade


Sophia de Mello Breyner Andresen, "O Búzio de Cós", in Obra PoéticaCaminho, 2011, 2ª ed., p. 820


5 de julho de 2014

Deus é no dia

Ilustração de 孟楠楠

Deus é no dia uma palavra calma

Um sopro de amplidão e de lisura.



Sophia de Mello Breyner Andresen, "Mar Novo", in Obra PoéticaCaminho, 2011, 2ª ed., p. 361

4 de julho de 2014

A paz sem vencedores e sem vencidos



Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen, por Maria Barroso, no dia da trasladação da poeta para o Panteão Nacional. Publicado por Pastoral da Cultura.


3 de julho de 2014

É o teu rosto ainda que eu procuro

Ilustração de Irene Jones

É o teu rosto ainda que eu procuro


Através do terror e da distância


Para a reconstrução de um mundo puro.

Sophia de Mello Breyner Andresen, "Mar Novo", in Obra PoéticaCaminho, 2011, 2ª ed., p. 308


2 de julho de 2014

Harpa

Ilustração de Aimee Sicuro

A juventude impetuosa do mar invade o quarto
A musa poisa no espaço vazio à contraluz
As cordas transparentes da harpa

E no espaço vazio dedilha as cordas ressoantes


Sophia de Mello Breyner Andresen, O Búzio de Cós e outros poemas 

in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 823

Chamo-Te

Ilustração de Elisabetta Trevisan
Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio
E suportar é o tempo mais comprido.

Peço-Te que venhas e me dês a liberdade,
Que um só dos Teus olhares me purifique e acabe.

Há muitas coisas que eu não quero ver.

Peço-Te que sejas o presente.
Peço-Te que inundes tudo.
E que o Teu reino antes do tempo venha
E se derrame sobre a terra
Em Primavera feroz precipitado.



Sophia de Mello Breyner Andresen, Coral in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 201

1 de julho de 2014

O arco das espumas


Ilustração de RosArt

O mar rolou as suas ondas negras


Sobre as praias tocadas de infinito.



Sophia de Mello Breyner Andresen, "No Tempo Dividido", in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 282

30 de junho de 2014

...se leio?

Ilustração de 孟楠楠


Que mais quero ver, 

se leio?


Maria Gabriela Llansol, in Finita, Assírio&Alvim, 2005, p. 161

29 de junho de 2014

Ler infinitamente

A finalidade de ler não é guardar na memória. Eu esqueço-me do que leio mas encontro-me, ao cair da noite, com ele. (...)


Ilustração de Siegfried Linke


Ler estende-se pelo tempo e quer o espaço do dia a dia para projectar a sua sombra. Ler estende-se por vertentes desconhecidas, e eu leio pouco, mas infinitamente. 



Maria Gabriela Llansol, in Finita, Assírio&Alvim, 2005, p. 160