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8 de fevereiro de 2015

Pranto pelo dia de hoje

Ilustração de Sonia MariaLuce Possentini


Nunca choraremos bastante quando vemos 
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem descritas 


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Livro Sexto, Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 431


8 de outubro de 2014

Chuva ou choro?


Ilustração de Iwasaki Chihiro


Não consigo chorar. Bendita chuva, que chora por mim.


Miguel Miranda, in A paixão de K, Porto Editora, 2013, 1ª ed., p. 42

2 de julho de 2013

Chuva ou lágrimas?

Ilustração de Csil Cb


O bairro de Notting Hill era um mar de tranquilidade na paisagem lunar da cidade. Um oásis de calma, onde a chuva fazia parte do condomínio...

"A chuva são lágrimas em autogestão."

Este pensamento ocorria-lhe enquanto as bátegas lhe escorriam pelo rosto, ao atravessar a rua em direção a casa, todos os dias. 

"Não consigo chorar. Bendita chuva, que chora por mim."



Miguel Miranda (2013), in A Paixão de K, Porto Editora, 1ª ed., p. 42


1 de julho de 2013

Emoção e arte

Os momentos de profunda tristeza eram incapazes de o fazer lacrimejar. Havia um qualquer bloqueio emocional que lhe continha o choro. Talvez se chorasse fosse mais feliz, nunca o poderia saber. Estava condenado a carregar as mágoas dentro do peito, sem as poder alijar, chorando. Andar à chuva causava-lhe uma sensação de pranto e de libertação, mitigando-lhe a ausência de lágrimas. Postado à janela, observava o desvelo da chuva, esmagando-se nos passeios e nos portais das casas, num contagiante efeito catártico.

Picasso, La femme qui pleure
Entrou numa sala onde tinha exposto um quadro de Picasso: La Femme qui Pleure. 
                                                                                   

Miguel Miranda (2013), in A Paixão de K, Porto Editora, 1ª ed., pp. 42-43