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28 de janeiro de 2012

O indizível

Ilustração de Vladimir Olenberg

Não é fácil anunciar a partida de alguém que amamos. Só os poetas sabem traduzir o indizível e são capazes de nos substituir quando andamos um dia inteiro às voltas, entre sentimentos, recordações, factos e vivências, para escrever duas linhas e comunicar uma vida.

Esta manhã fui surpreendida com a notícia da morte de uma amiga. Não sei se teve ou não consciência da sua partida; pode ter descansado “ignorante da morte”, mas sem dúvida “certa da sua ressurreição”, como diria Eugénio de Andrade, poeta que elegi para dar voz ao meu balbuciar de palavras contidas. 

Maria Carla Crespo





27 de janeiro de 2012

Uma espera em desassossego



Mesmo quando os livros se empilham na mesa de cabeceira, esperando a possibilidade de me entregar a cada um de um fôlego, sem conseguir encontrar uns dias inteiros plenos de leitura exclusiva, mesmo assim, Deus vem a público, de António Marujo, é para mim uma curiosidade que não resisto a juntar  brevemente aos outros volumes.

A personalidade de Abbé Pierre desassossega-me a espreitar as páginas da sua entrevista e a, com ele, parar os ponteiros do relógio...

23 de janeiro de 2012

O néctar da literatura

"Para se chegar a boas leituras é necessário ler de tudo até que a experiência leitora deixe a sua marca".

FERNÁNDEZ, Juan José Lage, in Animar a leer desde la biblioteca


Jeong Jong Hae
Esta é uma postura de leitura válida para quem começa a desbravar as letras ou para quem se obriga a gostar de determinado livro, autor ou estilo. Se a escola não instituísse um cânone literário, muitos perderiam na vida a oportunidade de se cruzarem com Cesário Verde, Pessoa, Vergílio Ferreira, Sophia ou Saramago, entre muitos outros nomes maiores da literatura portuguesa. O mesmo é verdade para os autores dos cancioneiros medievais, para as crónicas de Fernão Lopes..., para tantas e tantas páginas de literatura, sem esquecer o magistral Eça, que tiveram o intuito de nos deixar provar o que é literatura, mesmo que pontualmente a possamos abandonar.

Genevieve Despres (pormenor)
Tenho as minhas dúvidas sobre se é preciso ler de tudo, aí compreendendo o banal, o fútil, o óbvio. Não será a literatura um alimento do espírito? Entender-se-ia que numa degustação de vinho se provasse todo o tipo de vinho, sem o cuidado prévio de dar a saborear os melhores aromas e sabores do precioso néctar? Assim na literatura.

21 de janeiro de 2012

Leitor perfeito


Ilustração de Rafael Mendoza de Gyves



"A aprendizagem da leitura é progressiva. Cada vez que lemos, aprendemos a ler melhor, enriquecemos o nosso conhecimento de leitura.

O leitor nunca é perfeito."

                                                        Smith, 1986
                                                                                                    

                            
                                               

20 de janeiro de 2012

Bibliotecas íntimas


Ilustração de Mary Blair
Ler em voz alta, ler em silêncio, ser capaz de transportar na mente bibliotecas íntimas de palavras lembradas são capacidades extraordinárias que adquirimos através de métodos incertos.

     Manguel
                                                                                                                         

17 de janeiro de 2012

O Beijo


Essai, de Sandrine Kao


Poema de José Luís Peixoto, pela voz de Margarida Cardeal.



Redes sociais, política e pensamento

Assisti há umas horas a uma sessão sobre o tema proposto pela Assembleia da República para debate nas escolas neste ano letivo, a saber "Redes Sociais: Participação e Cidadania".

Ilustração de Pinzellades al món
Ilustração de Pinzellades al món
Ora, estando a refletir ultimamente sobre a Web 2.0 em geral, que obviamente engloba as redes sociais, dei por mim a identificar as posturas dos emigrantes e dos nativos digitais e, curiosamente, apercebi-me do quanto aqueles se mostraram mais à vontade para debater o tema do que estes, apesar de imersos diariamente no Twitter e no Facebook. Porém, talvez este fenómeno não seja de todo estranho, mas antes um sinal do que um dos oradores expunha, após se ter apresentado mais como um membro do mundo dos livros do que do universo das redes sociais, sem deixar de reconhecer a sua importância  na subscrição de causas humanitárias ou no combate à violência ou à injustiça, dimensões da vida política e de intervenção cívica.


Ilustração de Tesa Gonzalez
Contudo, Gabriel Mithá Ribeiro  assumia claramente a postura de quem se aproxima dos fenómenos tecnológicos e sociais com prudência, como quem os investiga e sobre eles reflete (e inflete o seu percurso), identificando com facilidade os constrangimentos do imediatismo, do clique rápido e fácil e da permitida opinião infundada e imatura, o que contraria a necessária ponderação e preparação dos assuntos antes de sobre eles nos pronunciarmos publicamente (opinião que subscrevo).

O conferencista, investigador e autor de inúmeros artigos na imprensa sobre política educativa Mithá Ribeiro alertava ainda para o facto de ser "mais difícil criar correntes de pensamento que correntes de pressão nas redes sociais".

Ilustração de Valentí Gubianas
E o que sobre isto pensam os jovens? Que contra-argumentos propõem?

O tempo é um escultor fugaz quando as questões nos interessam deveras. Ficou-me, pois, a vontade de continuar o debate, não na perspetiva política (ainda que sempre presente no sentido amplo de polis) mas na articulação e na aplicação das redes sociais à educação, à escola, às Bibliotecas Escolares. Até lá!


Maria Carla Crespo

12 de janeiro de 2012

Um filme que é arte

Este é um filme que proporciona uma leitura da vida diferente da maioria das nossas experiências pessoais, que infelizmente atravessa uma parte significativa da nossa vida profissional quando lidamos com alunos e com as famílias.


Um filme violento, no qual as relações se tecem em diálogos cruzados ou na ausência deles (frente a um ecrã de televisão, por exemplo), na cumplicidade de ligações perigosas (humanas, a meios e substâncias). Um filme violento, que perturba pelo realismo dos diálogos e das situações, pela dádiva presente nos laços familiares. Um filme que sobretudo é arte, pois o fascínio que desperta ultrapassa em muito a história narrada.

Esta é a diferença entre filme e arte. "Sangue do meu sangue" é arte.

9 de janeiro de 2012

A semente

Ilustração de Valentí Gubianas
Portefólio de Leituras conquistou mais de 1 150 cliques em apenas dois meses de existência. A semente continua a crescer.

Obrigada a todos os adeptos das letras e do digital que seguem este portefólio.





Alice no país da leitura

Ilustração de Scott Gustafson
"Para quem não sabe para onde ir, qualquer caminho serve". Esta conhecida afirmação, de Alice no País das Maravilhas, não pode aplicar-se ao papel da Biblioteca Escolar na formação de leitores.

Formar leitores implica, em primeiro lugar, conhecê-los. Depois, importa deslocar o olhar da obrigação para o prazer de ler. A organização do espaço e da coleção da BE há de atrair os mais novos e os menos jovens para esse encontro único que se dá particularmente entre a obra literária e o leitor. A definição de estratégias de leitura contraria o percurso errante evocado por Lewis Carroll.  

5 de janeiro de 2012

Eva sabia

Amor, de Miss Miza
"Eva sabia que estava a nascer nos olhos dele, mais concretamente nas íris cor de sépia, onde começava a ver a dupla pequena imagem da sua figura e da sua identidade. Eva disse-lhe: "Vamos chegar atrasados. Eu marquei com o construtor estarmos lá por volta do meio-dia. Temos de ir." Ele respondeu: "Mas ainda não acabei de engendrar-te."

"É doce estar espelhada nos olhos do amor. E, risonha como sempre, disse alto: É amor, isto? Vou ser tua? (...)"

"Estou a ver se imprimo a tua face na minha" [disse ele].


Ilustração de Özturk
                                 

"Eva sentia ali, de súbito, numa rua de Lisboa, o seu sangue e o dele, à superfície. Sabia que estava a ser criada no sangue dele, e que esse é um dos movimentos do amor, feito de movimento cada vez mais próximo. Ele gritou: "Está ali um táxi." E correram, como dois corpos que começam a querer ser um só."

"Se assim for", disse Eva, já sentada no táxi, "se somos dois corpos que vão ser um, é a Criação ao contrário." 



Excertos do conto "Eva sabia", de Fiama Hasse Pais Brandão,
in Contos da Imagem, Assírio & Alvim

Hoje descobri esta pérola de Fiama Hasse Pais Brandão. Os dias que a literatura tece são sempre mais profundos e luminosos.

Meteorologia bibliotecária

Chovem letras, de James Fryer


2 de janeiro de 2012

A chave dos sonhos


A chave dos sonhos, de Yoko Tanji

Um ano com livros é sempre um bom ano.

Como será viver sem livros?

31 de dezembro de 2011

FELIZ ANO NOVO!


Pierna, de Ester García

   Um salto qualitativo em 2012!

Um salto de solidariedade,

de humanismo...

Até adormecer... um percurso pela literacia digital...

Ilustração de Mae Besom


Em cada ano que passa só a abertura à surpresa, ao inesperado, ao desconhecido abre o coração e a mente para receber o novo. Cada ano é um processo de aprendizagens.

Este blogue pretende ser pessoal, um portefólio de leituras que vou realizando, sugerindo, auspiciando. Insere-se num conceito alargado de literacia. A literacia digital é uma dessas vertentes, que aqui tem sido ensaiada, experimentada, com ferramentas como o Photostory, o Slideshare ou o Glogster Edu.

Esta última ferramenta permite inserir e apresentar imagens, sons, caixas de texto, tanto pré-definidos como editados, criados pelo utilizador, como a ilustração de Smergelis Laimonas Jono apresentada em série. Este é um dos muitos efeitos desta tecnologia, que acabei de explorar e aplicar aqui.

Gostaria de ter inscrito, no longo e vermelho cabelo do anjo, os votos de Feliz Ano Novo, mas a minha intuição informática não mo permitiu. Consegui, sim, editar o tamanho das imagens, para que assumissem um porte que não excedesse o do blogue (com a ajuda da videoconferência com a Drª Helena Felizardo no Cisco), o que já me deixou orgulhosa.

Que novas tecnologias a descobrir me revelará 2012? Estou curiosa... Saberei quando despertar no novo ano. Agora durmo.

30 de dezembro de 2011

Inéditos quase de Natal

A época de Natal não se resume a um dia, mas amplifica-se desde a sua preparação (Advento) até à Epifania, Dia de Reis.

Por isso, aqui fica mais uma história. Esta é de Hélia Correia, ao JL, nº 1075, de dezembro de 2011.

A ilustração é de Afonso Cruz, que também escreveu um conto, mas com um final menos natalício e deveras surpreendente...

Do meio para trás

Ilustração de Afonso Cruz

Havia um espelho perto da saída e ele olhou-o distraidamente. Avançou mas depois voltou atrás. Ia apressado mas a imagem de si mesmo, por razões pouco claras, atraiu-o. Tratava-se de um velho mas um velho sempre ele fora, não era uma surpresa. Cabelo e barba brancos, a figura avolumada na barriga, as rugas, misto de bonomia e desidratação. O casaco vermelho com os seus debruns de pele clara parecia iluminar de uma luz própria o rosto sorridente. O que o chamara, então? Os olhos tristes. Os olhos mergulhados numa sombra. A cara estava como dividida por uma linha reta horizontal. Na metade de baixo desenhava-se o movimento da satisfação, com os cantos dos lábios ascendendo. A metade de cima descaía com um inesperado abatimento.
(...)
Pegou no saco dos presentes, pô-lo ao ombro e alguma coisa lhe doeu. (...)

 
Hélia Correia, JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias



29 de dezembro de 2011

Os textos, as histórias, a poesia aconchegam-nos no lazer e são bálsamo nos tempos de trabalho e de stress, de prazos a cumprir.

Esta é uma história de infância, uma narrativa que evoca um imaginário inocente, afável, dos primeiros textos lidos. Ainda assim...

Ilustração de Yihang Pan

Todos os anos, quando os velhos Reis Magos acabam de atravessar a pequena estrada de areia que se esboça entre caminhos de musgo e lagos feitos de bocados de espelho partido; quando a estrela de prata que se suspende entre os dois exemplares de “A Paleta e o Mundo” de Mário Dionísio se recolhe para regressar à velha caixa de papelão, com trinta anos de viagens, cheia de bocados de jornal amachucados que ainda guardam notícias de dias que já foram e onde se embrulham os cordeirinhos, os pastores, as oferendas várias que o Menino Jesus recebeu, apesar de já lhe faltar a mãozinha direita que alguém partiu em excesso de limpeza; todos os anos, dizia, recordo a história que o Fernando Midões me contou, certa tarde em que misturámos poemas com lágrimas.

27 de dezembro de 2011

Carlos C. Lainez, The sofa cat

A leitura é acto tipicamente humano (o animal não lê - mas ele também não veste, ainda que se associe gregariamente para buscar alimento ou para defesa). Tal acto deve ser assumido sobretudo como profundamente regenerador do homem (conferindo à sua interioridade a dimensão dos demais naquilo que eles de melhor podem oferecer); é fundamentalmente um acto intenso e assumi-lo como hábito consolidado levará a produzir integração social.

Aires A. Nascimento

26 de dezembro de 2011

Memória de infância


"O nome de um livro lido (conquistado?) já nada tem a ver com o que ele representava antes. O livro prepara-se para viver a sua própria vida na nossa memória."

BONNET, Bibliotecas cheias de fantasmas (2010:69)





Aqui fica a memória de uma história de infância, de Hans Christian Andersen, para os dias frios e mágicos de Natal.



Estava tanto frio! A neve não parava de cair e a noite aproximava-se. Aquela era a última noite de Dezembro, véspera do dia de Ano Novo. Perdida no meio do frio intenso e da escuridão, uma pobre rapariguinha seguia pela rua fora, com a cabeça descoberta e os pés descalços. É certo que ao sair de casa trazia um par de chinelos, mas não duraram muito tempo, porque eram uns chinelos que já tinham pertencido à mãe, e ficavam-lhe tão grandes, que a menina os perdeu quando teve de atravessar a rua a correr para fugir de um trem. Um dos chinelos desapareceu no meio da neve, e o outro foi apanhado por um garoto que o levou, pensando fazer dele um berço para a irmã mais nova brincar.
Por isso, a rapariguinha seguia com os pés descalços e já roxos de frio; levava no avental uma quantidade de fósforos, e estendia um maço deles a toda a gente que passava, apregoando: — Quem compra fósforos bons e baratos? — Mas o dia tinha-lhe corrido mal.

ANDERSEN, Hans Christian, A menina dos fósforos (adaptado)

24 de dezembro de 2011

Baby Princess, de Adolie Day


Ninguém o viu nascer.
Mas todos acreditam
Que nasceu.
É um menino e é Deus.

Miguel Torga

A alegria do Natal

Ilustração de Adolie Day

A alegria dilata, a tristeza aprisiona. Para se ser alegre é preciso um certo esquecimento de si, uma perda de si no maravilhamento. É por isso que a alegria do adulto é muitas vezes pouco natural, enquanto que a da criança é total.

Monge Cartuxo, in Vivre dans l'intimité du Christ

Deus é não poder

O homem é uma realidade religiosa. O problema é que essa referência possa aparecer como objeto, como se Deus fosse manipulador ou manipulável. Uma espécie de ser mágico de que todas as coisas dependem. Outra coisa é ser algo de que o homem se serve para dominar.  (...) O que o cristianismo trouxe foi que Deus não é poder. É o não-poder. Mas não foi assim que a coisa foi traduzida.

Eduardo Lourenço, Expresso, 23.12.2011 

23 de dezembro de 2011

Poema de Natal

Quando despontarem as primeiras luzes do Seu cortejo
Ilustração de Soledad Céspedes
ainda nos faltará tudo:
o azeite na almotolia,
um alfabeto que descreva com outra firmeza o azul,
formas indivisíveis para este amor,
que só em fragmentos
e numa gramática imprecisa
conseguimos viver.

Quando despontarem as primeiras luzes
estaremos talvez longe:

Ilustração de Arianna Floris

à altura dos olhos continuaremos a trazer a mesma indisfarçável solidão
as mesmas mediações ilegíveis através do tempo
as mesmas demoras tatuadas.
O Seu advento encontra-nos sempre impreparados
e, contudo, este é o momento em que
 por puro dom se nasce.

A Sua vinda testemunha o que não sabíamos ainda: a nossa frágil humanidade é narração
da autobiografia de Deus.
 José Tolentino Mendonça

Eterna procura


O artista testemunha, na experiência dos materiais, as formas da eterna procura.
                                       
        FRANCO, Joaquim et al., Um Menino chamado Natal

Aquele abraço!


Um doce abraço, de Bolos & Rebolos 

22 de dezembro de 2011

Inexprimível

Ilustração de Sam Hyuen Kim



As coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizíveis quanto se nos pretenderia fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra nunca pisou.

Rainer Maria Rilke

21 de dezembro de 2011

O trovão e o pirilampo

Ilustração de Rita Cardelli

A diferença entre a palavra certa e a palavra quase certa é a diferença entre um trovão e um pirilampo.

Mark Twain

Votos de muita magia neste Natal...


 

Um livro é a prova de que os homens são capazes de fazer magia.


Carl Sagan


Polina, artista russa

20 de dezembro de 2011

Palavras



Palavras - são tão inocentes e importantes enquanto dispostas num dicionário; mas tão potencialmente boas ou más elas se tornam nas mãos de quem sabe combiná-las!

Nathaniel Hawthorne,
escritor norte-americano, séc. XIX 

Eu nem sequer gosto de escrever

Ilustração de Mathiole - Matheus Lopes Castro
Eu nem sequer gosto de escrever. Acontece-me às vezes estar tão desesperado que me refugio no papel como quem se esconde para chorar. E o mais estranho é arrancar da minha angústia palavras de profunda reconciliação com a vida.

                               Eugénio de Andrade

17 de dezembro de 2011

Natal do agora e do eterno

Angel, de Shiori Matsumoto
O Presépio somos nós
É dentro de nós que Jesus nasce
Dentro destes gestos que em igual medida
a esperança e a sombra revestem
Dentro das nossas palavras e do seu tráfego sonâmbulo
Dentro do riso e da hesitação
Dentro do dom e da demora
Dentro do redemoinho e da prece
Dentro daquilo que não soubemos ou ainda não tentamos

O Presépio somos nós
É dentro de nós que Jesus nasce
Dentro de cada idade e estação
Dentro de cada encontro e de cada perda
Dentro do que cresce e do que se derruba
Dentro da pedra e do voo
Dentro do que em nós atravessa a água ou atravessa o fogo
Dentro da viagem e do caminho que sem saída parece

O Presépio somos nós
É dentro de nós que Jesus nasce
Dentro da alegria e da nudez do tempo
Dentro do calor da casa e do relento imprevisto
Dentro do declive e da planura
Dentro da lâmpada e do grito
Dentro da sede e da fonte
Dentro do agora e dentro do eterno

José Tolentino Mendonça
                                                                    

13 de dezembro de 2011


Audiolivro, capa


"...o problema das moscas é ao nível da erudição - disse o senhor Henri.

...as moscas não têm linguagem porque não têm biblioteca, e se tivessem biblioteca teriam erudição.

...a erudição é uma espécie de linguagem igual à nossa, só que não a percebemos.

...eu sou muito erudito, mas quando entro nesta biblioteca engarrafada deixo a erudição à porta e transformo-me num animal dos copos."

Gonçalo M. Tavares, in O Senhor Henri

12 de dezembro de 2011

O Mistério está todo na infância



E, por fim, Deus regressa
carregado de intimidade e de imprevisto
já olhado de cima pelos séculos
Ilustração de Victoria Kirdy
... humilde medida de um oral silêncio
que pensámos destinado a perder

Eis que Deus sobe a escada íngreme
mil vezes por nós repetida
e se detém à espera sem nenhuma impaciência
com a brandura de um cordeiro doente

Qual de nós dois é a sombra do outro?
Mesmo se piedade alguma conservar os mapas
desceremos quase a seguir
desmedidos e vazios
como o tronco de uma árvore

O mistério está todo na infância:
é preciso que o homem siga
o que há de mais luminoso
à maneira da criança futura

 Poema para Bento XVI de José Tolentino Mendonça, nomeado Consultor de Cultura no Vaticano

11 de dezembro de 2011

Tributo ao leitor

Corriendo entre libros -ilustração de Nuria Feijoo
...o verbo é ser o que
é, sem ter sido o que será, na definição
conjugada das pessoas que agem, sem
que o saibam, e das que sabem, sem agir.

Nuno Júdice, in A matéria do poema  

9 de dezembro de 2011

Pesca literária


A minha posição de leitora é a de adesão a As Pequenas Memórias, tal como o narrador se extasiou com um peixe de água doce que não chegou a pescar. Dedicou-lhe, porém, o silêncio, a espera, a contemplação que o tornaram único no mundo, como o principezinho para a raposa em Saint-Exupéry: “Não creio que exista no mundo um silêncio mais profundo que o silêncio da água. Senti-o naquela hora e nunca mais o esqueci. (…) De uma maneira ou de outra, porém, com o meu anzol enganchado nas guelras, [o peixe] tinha a minha marca, era meu” (p. 86).

Mulher ou peixe
 Ilustração de Jaroslav Betehtin
Também o livro As Pequenas Memórias passou a fazer parte da minha vida de leitora. É meu. Ao contrário de “aquele barbo” do narrador, pesquei-o!

Uma questão de literatura

Aprecie-se ou não José Saramago, o autor/escritor/homem, ou alguma temática ou estilo das suas obras, certo é que estamos perante páginas de literatura em As Pequenas Memórias.
La noche pasa… la lectura queda
(ilustração de Violetno)

A propriedade lexical, que consiste em nomear cada objeto ou realidade com um vocábulo preciso, compagina-se com a novidade e liberdade semânticas que o levam a associar com criatividade uma realidade já existente a outra que lhe ocorre, adaptando, por exemplo, expressões idiomáticas em “Também inutilmente se chorará o azeite derramado” (numa associação fonética de “leite” com “azeite”, remetendo para o contexto descrito dos “velhos olivais” (p.15) ou em “a minha memória de infante” (p.33), num processo de paronímia com “memória de elefante”, criando assim, pelo trocadilho, uma antítese, pois a sua memória de criança não lhe permitia alcançar ainda a prodigiosa recordação do tempo em que teriam começado as desavenças familiares.

A maestria estilística manifesta-se tão simplesmente na tripla adjetivação que revela como num balão (“aquele era nada mais nada menos que o meu primeiro balão em todos os seis ou sete anos que levava de vida”) pode caber o universo onírico, fantástico de uma criança, ainda que gorado quando se esvazia (“Aquela coisa suja, enrugada e informe era realmente o mundo” (p.77)) ou ainda no tom coloquial que mantém com o leitor, aproximando-o das suas vivências ou retificando as suas memórias, precisando factos ou a sua sucessão: “Como acaba de se ver, não andava equivocado quando escrevi que havíamos vivido duas vezes na Rua Carrilho Videira, mas já foi o engano gravíssimo quando (…) acrescentei que estava na idade de onze anos quando do episódio com a Domitília. Nada disso. Na verdade, eu não teria mais que seis, e ela andaria pelos oito” (p.119).

Esta familiaridade com o leitor cria, de facto, por momentos, a sensação de que o narrador (ou mesmo o autor?) se nos dirige, como se nos respeitasse a ponto de retificar a informação biográfica que vai tecendo entre as páginas. Mas não será a verosimilhança tão somente mais um traço da magnitude literária da narrativa? Pouco importa que o autor de Todos os Nomes tenha tido estas ou aquelas (inúmeras) aventuras amorosas. O certo é que nos deixa presos à escrita quais bacorinhos na cama dos avós. 

Mª Carla Crespo

7 de dezembro de 2011

Desvanecimentos partilhados

Como diz o psicanalista e professor de literatura francesa Pierre Bayard, "a leitura é lugar de desvanecimento".

Ilustração de Noma Bliss e Jim Bliss
Os desvanecimentos partilhados tornam-se ainda mais consistentes. Obrigada, colegas. 

18 de novembro de 2011

Com um lápis na mão

Foi com um lápis na mão que li recentemente As Pequenas Memórias, de José Saramago. Esse pequeno hábito permitiu-me registar o prazer da leitura, que o mesmo é dizer o prazer do encontro com a escrita apurada, com o detalhe, com a análise intuitiva e instintiva que me habituei a fazer. Também as anotações de caráter pessoal têm o seu lugar a lápis, nas margens do livro. 

Écriture, de Cécile Bercé Busson

Aqui fica o registo de um desses momentos, neste caso  de identificação com o narrador autodiegético (protagonista da ação) na sua aversão à raça canina.

A diferença está em eu não identificar a causa com nenhum destrato do animal nem nunca ter tido a experiência (oxalá sempre seja poupada a tal) de saber que algum cão se lembrará de me “saltar ao gasnete”.

O que, sim, acontece é a minha adrenalina, na presença ou na mera proximidade de tal ser da natureza, ser apercebida pelo suposto atacante, que deve ficar com medo de que eu o morda e normalmente se afasta…Nesse caso, o cão deve supor, como o narrador, que eu seria capaz de tal e, cruzando-se com os demais da raça, deve ripostar a sua contenção dizendo-lhes: “Sabia, não me perguntem como, mas sabia” (p. 25) que ela me iria atacar…
Ilustração de Agnès Boulloche

Reflexões literárias

Quando leio, dificilmente me descolo de um olhar técnico, crítico, analítico.

Posso fazer humor com o que leio, divertir-me, saborear a estética, identificar-me com o conteúdo (narrativo, biográfico, poético...). O que não consigo é desprender-me da estética literária. Um texto mauzinho, sofrível, com desatenções por parte do sujeito de enunciação faz-me bocejar, desinvestir, abandoná-lo, mesmo que o tema possa requerer a maior das complacências por parte de quem o produziu ou de alguns leitores menos exigentes.  Um texto com ingredientes literários, pelo contrário, suga-me, prende-me, dá-me vontade de o ler, comentar, analisar detalhadamente. Talvez por isso, leio sempre com um lápis na mão...

Maria Carla Crespo

17 de novembro de 2011

A fome de Firmin

Feio, esquálido, subnutrido, vi a luz do dia, ou melhor, da noite, numa biblioteca. Como a minha mãe estava cansada de um parto doloroso entre os links da blogosfera (fatigante tarefa!), soergui a cabeça e logo comecei a vasculhar com que me alimentar, com que nutrir o meu corpo de recém-nascido e a minha alma sedenta de vida, de ficção, de conhecimento e aventura. E foi assim que publiquei algumas saídas para verdadeiro deleite da mente e do espírito, daqueles que nos fazem perder o apetite ou esquecer e adiar uma fome voraz. A minha fome passou a ser outra: a fome de livros.

A minha fome - e desculpem um olhar tão especificamente egocêntrico, fazendo girar o olhar de todos sobre a minha natureza- é uma fome de livros, disse-o já. Livros digitais, mas também livros com cores e sabores, com texturas variadas. Livros eruditos e sábios, que só os mais argutos e experientes ousarão folhear, mas também livros acessíveis a todas as idades e personalidades. Livros recentes e livros que fizeram história e construíram muitas estórias no universo de milhares de cidadãos...


Livros com tacto, cheiro, prazer. Livros com suor e trabalho. Livros com resistência, que depois se tornam suporte inelutável de vida, de saberes e da construção do ser.

A minha fome é voraz e preciso de outros leitores para partilharem as suas leituras, os seus autores, as suas bibliotecas preferidas...Aqui fica o desafio. Agora vou-me deitar. Tenho um livro à minha espera.
 
PS: Esta poderia ser a apresentação do rato Firmin, protagonista da obra homónima de Sam Savage.


Devoradores de livros

 



Há pessoas que se comportam nas bibliotecas como se fossem o monstro das bolachas e comem às escondidas. Eu prefiro os devoradores de livros. Aqui fica um, muito simpático: Firmin, de Sam Savage.



Nem só de livros vive uma BE, mas não há bolachinhas...