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19 de setembro de 2012

Meu ser evaporei na lida insana

Akzhana Abdalieva
David Galchutt


Meu ser evaporei na lida insana
Do tropel de paixões, que me arrastava;
Ah! cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
Em mim quase imortal a essência humana.

De que inúmeros sóis a mente ufana
Existência falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe a Natureza escrava
Ao mal, que a vida em sua orgia dana.


David Galchutt
 
Prazeres, sócios meus, e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos.

Deus, oh Deus!... Quando a morte à luz me roube,
Ganhe um momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver não soube.



Bocage

18 de setembro de 2012

O universo bocagiano e o locus horrendus

 
Ó retrato da Morte! Ó Noite amiga,
Por cuja escuridão suspiro há tanto!
Calada testemunha de meu pranto,
De meus desgostos secretária antiga!

Pois manda Amor que a ti somente os diga
Dá-lhes pio agasalho no teu manto;
Ouve-os, como costumas, ouve, enquanto
Dorme a cruel que a delirar me obriga.

E vós, ó cortesãos da escuridade,
Fantasmas vagos, mochos piadores,
Inimigos, como eu, da claridade!

  



 Em bandos acudi aos meus clamores;
Quero a vossa medonha sociedade,
                                                Quero fartar o meu coração de horrores.
  

Bocage

17 de setembro de 2012

A verruga

Ilustração de Anna Burighel


Estava eu sentado lá em casa, quando ouvi a minha tia dizer «uff!».
Suspeitei logo que havia coisa. Fui ver. Tinha-lhe nascido uma verruga na orelha. Não me pareceu normal.
Procurei imediatamente o meu tio, que é brigadeiro.
-Vamos falar com o ministro - disse o meu tio.
Fomos.
O ministro, em princípio, não quis acreditar. Não podia ser, aquilo não era normal. Claro que não era normal mas eu tinha visto, e foi o que lhe disse.
-Nesse caso, o melhor será fazer como se não soubéssemos de nada - propôs o ministro. - O senhor já pensou o que isto pode causar? - continuou, ansioso. - Começam por aí a inquirir, a verruga complica-se, os anarquistas, sempre prontos para a insídia, aproveitam o momento, a greve surge, as coisas atrapalham-se, intervenção das Potências, a guerra, que sei eu? Não, não digamos a ninguém. Guardemos segredo, o Estado o compensará.
Olhei para o meu tio, brigadeiro como já tive oportunidade de fazer notar, e vi que realmente o caso parecia grave. No entanto, duvidando um pouco, inquiri ao ministro:
- A coisa é assim tão importante, Excelência?
- Mais que isso, meu amigo, mais que isso. A pátria está em tremendo perigo.
Senti que era a hora da decisão.
- Se a pátria periga, não desejo a mínima recompensa. Comigo é assim. Pela pátria, tudo. Calarei.
Calámos.
Dias depois a minha tia recebia uma carta escrita pelo próprio Imperador. Agradecendo. Louvando.
A carta ainda lá está. A verruga também.
Quanto a mim, continuo sentado lá em casa. Calado.

Mário-Henrique Leiria, in Contos do Gin Tonic

Amar a literatura



Ilustração de Cheryl Sorg



Há que amar a literatura. Sabemos bem que o amor pode ser fugaz, intermitente, constante, frágil, imenso, ocasional, calculado, uma paixão súbita, uma paciente conquista. Amando-a, porém, é impossível não querer conhecê-la em toda a parte e em todos os tempos, em extensão e em profundidade; é impossível não querer estudá-la, para transmitir e comunicar aos outros a fascinação que ela exerce em nós; é impossível não querer vivê-la, gratuitamente e como agente, que ela é, de tudo o que constantemente se pretende que ela seja e de tudo o que ela constantemente ultrapassa em si mesmo e em nós.

Jorge de Sena

16 de setembro de 2012

Não sei nada

Ilustração de byggstudio.com

 
Conheço as palavras pelo dorso. Outro, no meu lugar, diria que sou um domador de palavras. Mas só eu - eu e os meus irmãos - sei em que medida sou eu que sou domado por elas. A iniciativa pertence-lhes. São elas que conduzem o meu trenó sem chicote, nem rédeas, nem caminho determinado antes da grande aventura. 

Ilustração de Bastin Marjolein

Sim. Conheço as palavras. Tenho um vocabulário próprio. O que sofri, o que vim a saber com muito esforço fez inchar, rolar umas sobre as outras as palavras. As palavras são seixos que rolo na boca antes de as soltar. São pesadas e caem. São o contrário dos pássaros, embora «pássaro» seja uma das palavras. A minha vida passou para o dicionário que sou. A vida não interessa. Alguém que me procure tem de começar - e de se ficar - pelas palavras. Através das várias relações de vizinhança, entre elas estabelecidas no poema, talvez venha a saber alguma coisa. Até não saber nada, como não sei.

Ruy Belo, "Imagens vindas dos dias", in Todos os poemas, Assírio & Alvim

Na praia

Ilustração de Angela Morgan



Raça de marinheiros que outra coisa vos chamar
senhoras que com tanta dignidade
à hora que o calor mais apertar
coroadas de graça e majestade
entrais pela água dentro e fazeis chichi no mar?

Ruy Belo, "Verão", in Todos os Poemas, Assírio & Alvim

15 de setembro de 2012

O despertador

Ilustração de Yasmin Mundaca


Um despertador exposto sobre um tapete cheio de pó era tudo quanto possuía, para vender, o pobre comerciante árabe. Durante dias, reparou que uma velha se interessava pelo relógio. Era uma beduína, pertencente a uma daquelas tribos que voam com o vento.
«Desejas comprá-lo?», perguntou-lhe um dia.
«Quanto custa?»
«Pouco. Mas não sei se o vendo. Se também este desaparecer deixarei de ter um trabalho».
«Então porque o tens exposto?»
«Porque me dá a sensação de viver. E tu porque o queres, não vês que lhe faltam os ponteiros?»
«Faz tiquetaque?», quis saber a velha.
O comerciante deu corda ao despertador fazendo soar um sonoro e metálico tiquetaque. A velha fechou os olhos e percebeu que, na escuridão da noite, podia assemelhar-se a um coração que bate ao lado do seu.

             Tonino Guerra, in Histórias para uma noite de calmaria

14 de setembro de 2012

Diálogo com os livros


A partir do momento da leitura, e mesmo sem o esperarmos, começamos - em nós e depois com os outros - a falar dos livros, e é com esses discursos e opiniões que teremos que nos relacionar, relegando para bem longe os livros reais, que se tornam, assim e para sempre, hipotéticos.


Ilustração de Allien Posada


Pierre Bayard, in Como falar dos livros que não lemos? (2008:49)

É preciso ler?

Ilustração de Gustavo Aimar

É preciso ler, é preciso ler...

E se em vez de exigir leitura o professor decidisse de repente partilhar o seu prazer de ler?


Daniel Pennac, in Como um romance

13 de setembro de 2012

A hora da partida

Ilustração de Alison Hill
A hora da partida soa quando
Escurece o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando 
A noite cada nó em si deslaça.

A hora da partida soa quando
As árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.

Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida.

Sophia de Mello Breyner Andresen

12 de setembro de 2012

Ritmo

- Olha este poema: "Aqui na Ilha, o mar, e quanto mar. Sai de si mesmo, a cada instante. Diz  que sim, que não, que não. Diz que sim, em azul, em espuma, em galope. Diz  que não, que não. Não pode estar quieto. Chamo-me mar, repete pegando numa pedra sem conseguir convencê-la. Então com sete línguas verdes, de sete tigres verdes, de sete cães verdes, de sete mares verdes, percorre-a, beija-a, humedece-a, e bate no peito repetindo o seu nome." - Fez uma pausa satisfeito. - O que achas?

Ilustração de Amy Weber

- Estranho.

- "Estranho." Que crítico mais severo és tu!

- Não, Don Pablo. Estranho não é o poema. Estranho é como eu me sinto quando recitou o poema.


Antonio Skármeta, in O Carteiro de Pablo Neruda

11 de setembro de 2012

O múltiplo é Um


Ilustração de Helen M. Waters
 _______ e volto à penumbra, para lá do bem e do mal:
            “e tu como vais, Christine?”
            “torno-me lentamente “une vieille femme”,
            uma mulher que envelhece, uma velhinha.”


Ela dissera apenas "je deviens une vieille femme", e fora eu, sempre possuída pelo mesmo eco que amplifica, que vira imediatamente em imagem "torno-me lentamente une vieille femme, uma mulher que envelhece, uma velhinha."

Disse-lhe, a pouco e pouco, deslizando entre a minha língua e a dela: "Christine, estou sempre sobre a ruína de escrever",         e ela compreendeu que eu devia estar a vê-la, pálida no tecido quase sem cor, ou sendo a sua pele, de cor perdida, o contorno da saia e da blusa;

"agora, além de saber igualmente ler e escrever, sei também brincar - não utilizo os fios para os mesmos fins." Vestia a cor evanescente dos cereais (a saia), e uma pequeníssima quantidade de cor que, ao voltar as costas para mim,        me deixou no pátio; da cor, nasceu a peça de violoncelo que ela executava        e, do violoncelo,           a sonoridade de um sonho que ela tivera na noite seguinte ao dia em que falara comigo:

Ilustração de Mariane Seoane Pascuale
"esboçou, na toalha onde também tinham comido as duas crianças, o desenho cintilante de pequenas notas a que eu principiei imediatamente a dar uma resposta: "sois folhas: o Amado é múltiplo, embora Um"."





                                                                                          Maria Gabriela Llansol, "Prólogo", in O Raio sobre o lápis

10 de setembro de 2012

A paz e a pobreza

Ilustração de M. Gleenwood

 
...a pobreza é, provavelmente, a mais séria ameaça à paz mundial...

Muhammad Yunus, in Criar um mundo sem pobreza*


 * Prémio Nobel da Paz 2006 

Ilustração de Julia Wakefield
 

9 de setembro de 2012

Justiça Robin dos Bosques

Ilustração de Daniela Giarratana


Os preços serão estipulados de acordo com o princípio "Robin dos Bosques". Os pacientes normais pagarão a preços de mercado, sendo cobrada aos pobres apenas uma taxa simbólica. Se os nossos cálculos estiverem certos - e se formos capazes de prestar cuidados de oftalmologia excelentes, atraindo um número suficiente de doentes "pagantes"-, os hospitais serão auto-suficientes e terão capacidade para expandir os serviços indefinidamente.


Muhammad Yunus, in Criar um mundo sem pobreza*


* Palavras do  Prémio Nobel da Paz 2006, a propósito do plano de negócios de hospitais no Bangladesh, um dos países mais pobres do mundo, para fornecer cuidados de saúde aos pobres.

A Fotografia


Ilustração de Victoria Kirdy

Uma tarde, no comboio, um homem, de pé, sentiu uma mão tocar-lhe e reparou que um jovem soldado lhe oferecia o seu lugar, como se faz com os velhos. Aceitou, cheio de vergonha, por ser a primeira vez que lhe sucedia e, de olhos perdidos naquela noite que se escapava pelas janelas, de repente, sentiu-se desolado pela sua idade. Depois fechou-se em casa e a sua tristeza trespassava os muros, circulando pelas estradas. Era manhã, quando a carta chegou de uma cidade distante. Abre-a e encontra a fotografia de uma senhora anciã, completamente nua. Nenhum comentário ou assinatura. Mete os óculos para procurar nas velhas feições da mulher se, por acaso, a conhecia. Descobriu que se tratava do único grande amor da sua vida. E, conhecendo a grandeza da sua alma, de imediato percebeu a intenção da mensagem: a mulher, sabendo que ele vivia triste, não se envergonhava de lhe mostrar o próprio corpo, para o fazer perceber que não devia angustiar-se e que os sentimentos são mais fortes do que a carne.



Tonino Guerra, in Histórias Para Uma Noite de Calmaria

8 de setembro de 2012

A Espera

Ilustração de Mariana Kalacheva


Estava tão apaixonado que se fechou em casa, sentado junto à porta, para poder abraçá-la assim que ela batesse para lhe vir confessar que também o amava.
Mas ela não veio e ele envelheceu. Um dia alguém tocou, levemente, à porta e ele, apavorado, fugiu, escondendo-se atrás do armário.

Tonino Guerra, in Histórias para uma noite de calmaria

Mar de setembro

Ilustração de Cathy Delanssay


Tudo era claro:
céu, lábios, areias.
O mar estava perto,
fremente de espumas.
Corpos ou ondas:
iam, vinham, iam,
dóceis, leves - só
ritmo e brancura.
Felizes, cantam;
serenos, dormem;
despertos, amam,
exaltam o silêncio.
Tudo era claro,
jovem, alado.
O mar estava perto.
Puríssimo. Doirado.

Eugénio de Andrade, in Mar de Setembro

7 de setembro de 2012

Os pequenos prazeres

O copo de água fresca
sobre a mesa,
a réstia de luz incendiando
ainda a mão,

Ilustração de Ayumi Makita
as palavras que dão sentido à arte
dos dias a caminho do fim,
"a beleza
é o esplendor da verdade",

o sol
que dos flancos do muro sobe
ao olhar do gato,
o silêncio de ramo em ramo,

a chuva em surdina
na folhagem do jardim
- a chuva e a cumplicidade
de Gieseking e Debussy.

Eugénio de Andrade, in Os Lugares do Lume

Autoestrada global

Ilustração de Andreas M. Wiese
O comércio global é como uma auto-estrada de uma centena de pistas que cruza o mundo. Se esta auto-estrada não tiver portagens, nem semáforos, nem limites de velocidade, nem restrições de tonelagem, nem, sequer, separadores, ela acabará por ser ocupada pelos camiões gigantes das economias mais poderosas do mundo.  Pequenos veículos - a camioneta de um agricultor ou as carroças puxadas por búfalos e os riquexós do Bangladesh - serão obrigados a abandonar a auto-estrada.
 
  
Muhamad Yunus*, in Criar um mundo sem pobreza (2008: 88)

*Prémio Nobel da Paz 2006

6 de setembro de 2012

Pessoas bonsai

Ilustração de Simona Dimitri


As pessoas pobres são pessoas bonsai. Não existe nada de errado com as sementes. A sociedade é que nunca lhes deu uma base adequada para crescerem. Tudo o que é necessário para tirar os pobres da pobreza é que criemos um ambiente favorável em volta deles. Quando os pobres forem autorizados a libertar a sua energia e criatividade, a pobreza desaparecerá rapidamente.
 
Muhamad Yunus*, in Criar um mundo sem pobreza (2008: 88)


*Prémio Nobel da Paz 2006