Número total de visualizações de páginas

5 de agosto de 2013

Poliopsia



Ilustrações de Vladimir Kryloff

Existe uma doença oftálmica chamada poliopsia. Consiste em ver várias imagens dum mesmo objecto. Quando a poliopsia ataca o cérebro, chamamos-lhe sabedoria: consiste em ver o mesmo objecto, mas de perspectivas diferentes, como se fosse visto por várias pessoas.

Tsilia Kacev, frase que adorna a obra "Mesa", citado por Afonso Cruz, in Enciclopédia da Estória Universal - Recolha de Alexandria, Alfaguara, 2012, 1ª ed., p. 79

Berlinde

Ilustração de Kaatje Vermeire
No futuro
iremos passar durante
um minuto todos os dias,
interromper o que estivermos
a fazer, de repente, a meio
de uma palavra, de uma passada,                                    
de uma garfada. E, perfeitamente
imóveis, veremos que o mundo
é uma cruz para quem o carrega
e um berlinde para quem o empurra.
Depois é só escolher.

(Petar Stamboliski, Poesia)

Afonso Cruz, in Enciclopédia da Estória Universal - Recolha de Alexandria, Alfaguara, 2012, 1ª ed., p. 24

Arte de ladrões

Ilustração de Shiori Matsumoto


...a literatura é uma arte

escura de ladrões que roubam a ladrões


Manuel António Pina,  "Emet" in Poesia, Saudade da Prosa - uma antologia pessoal

Assírio & Alvim, 2012, 2ª ed., p. 72

4 de agosto de 2013

Primeiro domingo

Ilustração de Lily Greenwood

A tarde estava errada, 

não era dali, era de outro domingo,

quando ainda não tinhas acontecido,
e apenas eras uma memória parada
sonhando (no meu sonho) comigo.

E eu, como um estranho, passava
no jardim fora de mim
como alguém de quem alguém se lembrava
vagamente (talvez tu),
num tempo alheio e impresente.

Tudo estava no seu lugar
(o teu lugar), excepto a tua existência,
que te aguardava ainda, no limiar
de uma súbita ausência,
principalmente de sentido.

Manuel António Pina, in Poesia, Saudade da Prosa - uma antologia pessoal, 
Assírio & Alvim, 2012, 2ª ed., p. 49

3 de agosto de 2013

Avarento

Ilustração de Ryszard Chmiel

O avarento segue o caminho das trevas só para não ter de apagar a luz.
 
Malgorzata Zajac
 
 
Afonso Cruz, in Enciclopédia da Estória Universal - Recolha de Alexandria, Alfaguara, 2012, 1ª ed., p. 19

O velho abutre

Ilustração de Jean-Baptiste  Monge

O velho abutre é sábio e alisa as suas penas
A podridão lhe agrada e seus discursos
Têm o dom de tornar as almas mais pequenas

                                              Sophia de Mello Breyner Andresen, in Livro Sexto

1 de agosto de 2013

Somos assim...



Ilustração de Cosei Kawa


Lili  Sou muito incompleta, pois, pois. Como um frasco destapado. É assim.


             Afonso Cruz, in O cultivo de flores de plástico, Alfaguara, 2013, ed. limitada, nº 0544, p.50

Um olhar sobre a rua

Ilustração de Elisabetta Decontardi




Senhora de fato   Mas tem coisas boas, não tem? 

Lili   O quê?

Senhora de fato   Viver na rua. As pessoas preocupam-se com as coisas essenciais, com comer e dormir, em vez de andarem a pensar em sapatos italianos.

Afonso Cruz, in O cultivo de flores de plástico, Alfaguara, 2013, ed. limitada, nº 0544, p.53

31 de julho de 2013

O cultivo de flores de plástico

Ilustração de John Blake

Andamos a regar flores de plástico, é isso que fazemos. Temos coisas que não servem para nada. É tudo plástico. E nós regamos essas flores e esperamos que cheirem a coisas boas. Mas é plástico. Temos coisas, em vez de tentarmos ser felizes, substituímos a vida por plástico e o próprio plástico por plástico. Trabalhamos para regar uma vida destas.

Afonso Cruz, in O cultivo de flores de plástico, Alfaguara, 2013, ed. limitada, nº 0544, pp.53-54

O lado de fora



Ilustração de Catrin Welz-Stein
Eu não procuro nada em ti, 
nem a mim próprio, é algo em ti
que procura algo em ti
no labirinto dos meus pensamentos.

Eu estou entre ti e ti,
a minha vida, os meus sentidos
(principalmente os meus sentidos)
toldam de sombras o teu rosto.

O meu rosto não reflecte a tua imagem,
o meu silêncio não te deixa falar,
o meu corpo não deixa que se juntem
as partes dispersas de ti em mim.

Eu sou talvez
aquele que procuras,
e as minhas dúvidas a tua voz
chamando do fundo do meu coração.


Manuel António Pina, in Poesia, Saudade da Prosa - uma antologia pessoal
Assírio & Alvim, 2012, 2ª ed., p. 44

30 de julho de 2013

Fotografia de Camille Claudel no hospício


Ilustração de May Ann Licudine

Os olhos perdidos num pedaço de parede, procura
um outro ponto em que os fixar: e volta-os 
para dentro de si, onde outras pessoas arruinadas
a impedem de ver o que está do outro lado, para
além do campo e do céu. Mas se erguesse os olhos
para o tecto, de estuque aberto para as telhas, fios
de luz dar-lhe-iam um vislumbre do mundo a que
não pode aceder, e bastar-lhe-ia um pouco de
sonho para encontrar esse vazio a que aspira,
ou apenas o último ângulo entre infinito
e eternidade. Porém, o rosto não se desvia, e
as mãos pousadas no casaco esburacado pela
traça tremem, como se procurasse moldar um
corpo antigo com o barro seco da ausência.


Nuno Júdice, in Fórmulas de uma luz inexplicável

29 de julho de 2013

Na biblioteca

Ilustração de Afonso Cruz


O que não pode ser dito
guarda um silêncio
feito de primeiras palavras
diante do poema, que chega sempre demasiadamente tarde,


quando já a incerteza
e o medo se consomem
em metros alexandrinos.
Na biblioteca, em cada livro,

em cada página sobre si
recolhida, às horas mortas em que
a casa se recolheu também
virada para o lado de dentro,

as palavras dormem talvez,
sílaba a sílaba,
o sono cego que dormiram as coisas
antes da chegada dos deuses.
Aí, onde não alcançam nem o poeta
nem a leitura,
o poema está só.
E, incapaz de suportar sozinho a vida, canta.


Manuel António Pina, in Poesia, Saudade da Prosa - uma antologia pessoal
Assírio & Alvim, 2012, 2ª ed., p. 37

28 de julho de 2013

O amor

Ilustração de Katsuo

Não há para mim outro amor nem tardes limpas
A minha própria vida a desertei
Só existe o teu rosto geometria
Clara que sem descanso esculpirei.

E noite onde sem fim me afundarei.

                             

                                        Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Cristo Cigano

26 de julho de 2013

A solidão

Ilustração de Katsuo


A noite abre os seus ângulos de lua
E em todas as paredes te procuro
A noite ergue as suas esquinas azuis
E em todas as esquinas te procuro

A noite abre as suas praças solitárias
E em todas as solidões eu te procuro

Ao longo do rio a noite acende as suas luzes
Roxas verdes e azuis

Eu te procuro.


                                    Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Cristo Cigano

Espera

Ilustração de Katsuo


Deito-me tarde 
Espero por uma espécie de silêncio
Que nunca chega cedo
Espero a atenção a concentração da hora tardia
Ardente e nua
É então que os espelhos acendem o seu segundo brilho 
É então que se vê o desenho do vazio
É então que se vê subitamente
A nossa própria mão poisada sobre a mesa 


É então que se vê o passar do silêncio

Navegação antiquíssima e solene

                        Sophia de Mello Breyner Andresen, in Geografia

25 de julho de 2013

A noite e a casa


Ilustração de Katsuo


A noite reúne a casa e o seu silêncio
Desde o alicerce desde o fundamento
Até à flor imóvel
Apenas se ouve bater o relógio do tempo

A noite reúne a casa a seu destino

Nada agora se dispersa se divide
Tudo está como o cipreste atento

O vazio caminha em seus espaços vivos

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Geografia

23 de julho de 2013

Tempo

Ilustração de Vladimir Kryloff

Tempo
Tempo sem amor e sem demora
Que de mim me despe pelos caminhos fora

                                              Sophia de Mello Breyner Andresen, in Livro Sexto

22 de julho de 2013

Paul Celan, antes de atravessar a ponte Mirabeau

Ilustração de Mike Worrall

Se um quarto se pode abrir para o sonho,
quando a noite é pesada e o barulho da chuva entra
pela janela, já o sonho não se abre para quem não
dorme, enrolado na insónia como num velho 
cobertor. Então, o que passa pela cabeça são
os pensamentos que não se deveriam ter. Mas 
a noite é assim: não faz distinção entre quem
dorme e quem está acordado; e o barulho da chuva
aumenta, com o vento, trazendo o que está
fora do quarto para dentro do quarto, e obriga
quem não dorme a agarrar-se ao cobertor, como
se fosse a última bóia no naufrágio da noite.


Nuno Júdice, in Fórmulas de uma luz inexplicável, D. Quixote, 2012, 2ª ed., p. 69

21 de julho de 2013

Entre fotografia e poema


Ilustração de Sonia Maria Luce Possentini


Neste esboço há aquele segmento
do teu rosto, quase a preto e branco, que sai da sombra
do táxi; mas faltam as mãos (e sem elas o retrato
não fica completo). Na realidade, o corpo
parece fragmentado quando o capturamos
de surpresa, sem saber o que irá
surgir depois do flash. E poderia
desenhar-se um cenário puramente abstracto,
com um fundo de azulejo a dar um tom
clássico à imagem, ou apenas o branco da parede,
e neste caso haveria uma contraluz que só deixaria
à vista o teu perfil. Porém, quando olho
o teu retrato, vejo nele
uma presença que posso sentir, e me fala
como se estivesses comigo, fazendo-me
ouvir a cor da tua voz. E é como se saísses de dentro
desta imagem que é pura forma, instante
que a palavra reduz à sua duração, gesto
imóvel num desvio do olhar
para o poema.

                                     Nuno Júdice, in Fórmulas de uma luz inexplicável, D. Quixote, 2012, 2ª ed., p. 43

20 de julho de 2013

Manhã

Como um fruto que mostra
Aberto pelo meio
A frescura do centro                         

Assim é a manhã
Dentro da qual eu entro


Sophia de Mello Breyner, Andresen, in Livro Sexto