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17 de julho de 2013

Há dias

Ilustração de Laimonas Smergelis


Há dias em que julgamos 
que todo o lixo do mundo nos cai
em cima. Depois 
ao chegarmos à varanda avistamos 
as crianças correndo no molhe 
enquanto cantam. 
Não lhes sei o nome. Uma 
ou outra parece-se comigo. 
Quero eu dizer: com o que fui 
quando cheguei a ser
luminosa presença da graça, 
ou da alegria. 
Um sorriso abre-se então 
num verão antigo. 
E dura, dura ainda. 


                        Eugénio de Andrade, in Os lugares de Lume

16 de julho de 2013

Amigo

Ilustração de Mariana Kalacheva

Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra amigo.

Amigo
é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,    
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

Amigo
(recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
Amigo é o contrário de inimigo!
Amigo é o erro corrigido,
Não
o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada.

Amigo
é a solidão derrotada!


Amigo
é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
Amigo vai ser, é já uma grande festa!



Alexandre O'Neill

14 de julho de 2013

Até ao fim

Ilustração de Iraville Deviantart


Mas é assim o poema: construído devagar,
palavra a palavra, e mesmo verso a verso,
até ao fim. O que não sei é
como acabá-lo; ou, até, se
o poema quer acabar. Então, peço-te ajuda:
puxo o teu corpo
para o meio dele, deito-o na cama
da estrofe, dispo-o de frases
e de adjectivos até te ver,
tu,
o mais nu dos pronomes. Ficamos
assim. Para trás, palavras e versos,
e tudo o que
não é preciso dizer:
eu e tu, chamando o amor
para que o poema acabe.



Nuno Júdice, in Pedro lembrando Inês, D. Quixote, 2001, p. 25


Eterno e efémero


Ilustração de Maria Wernicke



Tudo morre, mesmo o eterno. O que dizer do efémero?



Eduardo Lourenço, "Prefácio à edição portuguesa" in 

Christiane Zschirnt, Livros - Tudo o que é preciso ler, Casa das Letras

13 de julho de 2013

Biblioteca ideal

Ilustração de Aris

Todos sonhamos com uma espécie de "biblioteca ideal", onde as criações mais altas e ainda vivas da cultura humana nos sejam acessíveis.


Eduardo Lourenço, "Prefácio à edição portuguesa" in 
Christiane Zschirnt, Livros - Tudo o que é preciso ler, Casa das Letras

11 de julho de 2013

Feminina natureza

Ilustração de Lily Greenwood 

A respiração dos bosques tinha algo de feminino, espraiando-se lânguida sobre os campos. Os murmúrios de pássaros e folhagens eram suaves promessas incumpridas roçagando na pele e o som da água nas levadas era um riso cristalino de mulher.


Miguel Miranda (2013), in A Paixão de K, Porto Editora, 1ª ed., p. 133

10 de julho de 2013

Amor flamenco

Ilustração de Jon Reinfurt


O coração batia-lhe ao ritmo dos tacões do Pepe, o flamenco, sapateando um solo de guitarra de Paco de Lucia. O amor é um sentimento bailarino, gutural, cadenciado a palmas e castanholas interiores.  
                                                           
 Miguel Miranda (2013), in A Paixão de K
Porto Editora, 1ª ed., p. 134









9 de julho de 2013

9 de julho

Ilustração de Alessia Girasole



Pus um chapéu em cima da flor por causa do sol.
A minha mãe não gostou.



Afonso Cruz, "9 de Julho" in O livro do ano 

7 de julho de 2013

Tudo é semente

 
 
 

Ilustração de Young Ju Choi
 
 
Tudo é semente.
 
in Fragmentos de Novalis (seleção, tradução e desenhos de Rui Chafes),
 
 Assírio & Alvim, 2000, 2ªed., p. 49

Romance da vida

 
 
A vida não deve ser um romance que nos é oferecido, mas sim um romance por nós feito.
 
in Fragmentos de Novalis 
Ilustração de Young Ju Choi

6 de julho de 2013

Gigante ou pigmeu?

Ilustração de Chuckometti

Ao vermos um gigante, devemos examinar a posição do sol, primeiro - e atentar se não será apenas a sombra de um pigmeu.


in Fragmentos de Novalis (seleção, tradução e desenhos de Rui Chafes),
 Assírio & Alvim, 2000, 2ªed., p. 111

5 de julho de 2013

Sonho e poesia

Ilustração de Dilka Bear

O sonho é, frequentemente, significativo e profético, porque ele é um efeito da alma da Natureza - e por isso baseado na ordem das associações. Ele é, como a Poesia, significativo - mas também por isso mesmo, significativo sem regras - inteiramente livre.


in Fragmentos de Novalis (seleção, tradução e desenhos de Rui Chafes), Assírio & Alvim, 2000, 2ªed., p. 111

4 de julho de 2013

Teclas de poesia

Ilustração de Akira Kusaka

O poeta utiliza as coisas e as palavras como teclas e toda a poesia repousa sobre uma activa associação de ideias - uma espontânea, deliberada e ideal produção do acaso.

in Fragmentos de Novalis (seleção, tradução e desenhos de Rui Chafes), Assírio & Alvim, 2000, 2ªed., p.111

2 de julho de 2013

Chuva ou lágrimas?

Ilustração de Csil Cb


O bairro de Notting Hill era um mar de tranquilidade na paisagem lunar da cidade. Um oásis de calma, onde a chuva fazia parte do condomínio...

"A chuva são lágrimas em autogestão."

Este pensamento ocorria-lhe enquanto as bátegas lhe escorriam pelo rosto, ao atravessar a rua em direção a casa, todos os dias. 

"Não consigo chorar. Bendita chuva, que chora por mim."



Miguel Miranda (2013), in A Paixão de K, Porto Editora, 1ª ed., p. 42


1 de julho de 2013

Emoção e arte

Os momentos de profunda tristeza eram incapazes de o fazer lacrimejar. Havia um qualquer bloqueio emocional que lhe continha o choro. Talvez se chorasse fosse mais feliz, nunca o poderia saber. Estava condenado a carregar as mágoas dentro do peito, sem as poder alijar, chorando. Andar à chuva causava-lhe uma sensação de pranto e de libertação, mitigando-lhe a ausência de lágrimas. Postado à janela, observava o desvelo da chuva, esmagando-se nos passeios e nos portais das casas, num contagiante efeito catártico.

Picasso, La femme qui pleure
Entrou numa sala onde tinha exposto um quadro de Picasso: La Femme qui Pleure. 
                                                                                   

Miguel Miranda (2013), in A Paixão de K, Porto Editora, 1ª ed., pp. 42-43

30 de junho de 2013

Glorita

Ilustrações de Alberto Godoy

Sorriu, o pequeno gesto de escolher um charuto fazia-o recuar até Havana, numa vertigem. 



Conhecera Glorita numa esquina. A sua beleza era hipnótica, não precisava de falar para arranjar clientes. Perfecto Cuadrado seguiu-a pela escadaria manhosa e insalubre acima, num prédio escuro e bolorento com fios elétricos pendendo das paredes, galinhas cacarejando nas varandas, um rego de água duvidosa correndo ao longo do corredor imerso na penumbra. Ele tateou o bolso das calças, assegurando-se de que trazia consigo o rolo de notas. Esquecera-se de perguntar o preço, a beleza da mulher fizera-lhe esquecer a introdução básica para início de conversa com uma prostituta. Glorita desengonçou a porta e avançou, fazendo sinal para que a seguisse. Enfeitiçado pelo seu corpo violão, pelo movimento ondulante das nádegas perfeitas, ele deixou-se conduzir até ao quarto. 

                                                          Miguel Miranda (2013), in A Paixão de K, Porto Editora, 1ª ed., p. 48

Um olhar parcial

Ilustração de Alexandra Boiger

Todas as artes e ciências repousam sobre harmonias parciais.

in Fragmentos de Novalis (seleção, tradução e desenhos de  Rui Chafes), Assírio & Alvim, 2000, 2ªed.

29 de junho de 2013

Injustiça



Ilustração de Noma Bliss e Jim Bliss

Aquilo que me instiga a trabalhar é sempre a percepção de uma injustiça, e a ideia de que é fundamental tomar partido. Quando decido escrever um livro, não digo a mim mesmo: Vou produzir uma obra de arte. Escrevo porque há uma mentira que desejo denunciar, um facto que pretendo destacar, e a minha preocupação primeira é de me fazer ouvir.

George Orwell, Why I write, 1946

27 de junho de 2013

Quando todos se chamam Pepe


Na aldeia espanhola Consolación, todos os homens se chamam Pepe: o pastor, o eletricista, o pintor..., o que se torna confuso quando um deles morre e não se percebe a quem passar o obituário. 

Ilustração de Paula Pertile

Os consolados (habitantes de Consolación) rejubilam com as tradições e festividades de verão na povoação: a melonada, a vacada, a porcaria e a ronda, designações tão peculiares quanto as realidades a que aludem:


Ilustração de Jimmy Liao
"A maior festividade era a melonada, que acontecia na primeira lua nova de agosto. Os telhados das casas enchiam-se de melões demasiado maduros, que ficavam dias ao sol à espera da grande noite. (...) ...os populares trepavam aos telhados das casas e bombardeavam-se mutuamente com os melões numa guerra sem quartel, por entre risos e gargalhadas. A festa terminava sem vencidos nem vencedores, quando se esgotavam os melões e o vinho. Cansados, melosos e felizes, os habitantes recolhiam a casa altas horas da madrugada e dormiam um dia inteiro para cozer a bebedeira."

Miguel Miranda (2013), in  A Paixão de K, Porto Editora, 1ª ed., p. 13


Estas são algumas evocações de Perfecto Cuadrado, personagem principal que descola da realidade - uma viagem de táxi por Londres - e se deixa conduzir pelas vivências da aldeia e dos tempos de adolescente, recordando a sua ida ao confessionário pedir conselhos ao padre para a sua iniciação sexual.

Ilustração de Akira Kusaka 

Uma viagem pelo surreal da mente e da aldeia de Perfecto Cuadrado, das suas paixões e evocações...A paixão de K, de Miguel Miranda...


Mª Carla Crespo



Escrever para viajar

Escrever para viajar, viagem sem pagar bilhete, é o lema do médico portuense Miguel Miranda,  que marcou presença no Bibliotecando em Tomar 2013, no princípio de maio.

Ilustração de Ethel Spowers

Partindo do real, ainda que com as luvas e as pinças a que a deontologia o obriga, ocorre-lhe basear-se numa paciente, matá-la na primeira página e prosseguir a narrativa. 

A viagem e a literatura são também humor, riso, subversão, morte, mistério, policiais – mostrou-o este autor de diversas obras insólitas como O estranho caso do cadáver sorridente (Prémio Caminho de Literatura Policial, 1997) - a partir da sua doente inglesa qual boneca de porcelana com lábios pintados -; Dai-lhes, Senhor, o eterno repouso – policial humorístico sobre o que acontece aos chineses quando morrem -; A paixão de K – sobre o quadrilátero amizade, amor, paixão e caos, que tem no centro as paixões de Perfecto Cuadrado, protagonista da ação; e Todas as cores do vento – reflexo de uma viagem à Palestina em que um gato é a única testemunha do choque civilizacional com Israel.

Mª Carla  Crespo