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9 de julho de 2013

9 de julho

Ilustração de Alessia Girasole



Pus um chapéu em cima da flor por causa do sol.
A minha mãe não gostou.



Afonso Cruz, "9 de Julho" in O livro do ano 

7 de julho de 2013

Tudo é semente

 
 
 

Ilustração de Young Ju Choi
 
 
Tudo é semente.
 
in Fragmentos de Novalis (seleção, tradução e desenhos de Rui Chafes),
 
 Assírio & Alvim, 2000, 2ªed., p. 49

Romance da vida

 
 
A vida não deve ser um romance que nos é oferecido, mas sim um romance por nós feito.
 
in Fragmentos de Novalis 
Ilustração de Young Ju Choi

6 de julho de 2013

Gigante ou pigmeu?

Ilustração de Chuckometti

Ao vermos um gigante, devemos examinar a posição do sol, primeiro - e atentar se não será apenas a sombra de um pigmeu.


in Fragmentos de Novalis (seleção, tradução e desenhos de Rui Chafes),
 Assírio & Alvim, 2000, 2ªed., p. 111

5 de julho de 2013

Sonho e poesia

Ilustração de Dilka Bear

O sonho é, frequentemente, significativo e profético, porque ele é um efeito da alma da Natureza - e por isso baseado na ordem das associações. Ele é, como a Poesia, significativo - mas também por isso mesmo, significativo sem regras - inteiramente livre.


in Fragmentos de Novalis (seleção, tradução e desenhos de Rui Chafes), Assírio & Alvim, 2000, 2ªed., p. 111

4 de julho de 2013

Teclas de poesia

Ilustração de Akira Kusaka

O poeta utiliza as coisas e as palavras como teclas e toda a poesia repousa sobre uma activa associação de ideias - uma espontânea, deliberada e ideal produção do acaso.

in Fragmentos de Novalis (seleção, tradução e desenhos de Rui Chafes), Assírio & Alvim, 2000, 2ªed., p.111

2 de julho de 2013

Chuva ou lágrimas?

Ilustração de Csil Cb


O bairro de Notting Hill era um mar de tranquilidade na paisagem lunar da cidade. Um oásis de calma, onde a chuva fazia parte do condomínio...

"A chuva são lágrimas em autogestão."

Este pensamento ocorria-lhe enquanto as bátegas lhe escorriam pelo rosto, ao atravessar a rua em direção a casa, todos os dias. 

"Não consigo chorar. Bendita chuva, que chora por mim."



Miguel Miranda (2013), in A Paixão de K, Porto Editora, 1ª ed., p. 42


1 de julho de 2013

Emoção e arte

Os momentos de profunda tristeza eram incapazes de o fazer lacrimejar. Havia um qualquer bloqueio emocional que lhe continha o choro. Talvez se chorasse fosse mais feliz, nunca o poderia saber. Estava condenado a carregar as mágoas dentro do peito, sem as poder alijar, chorando. Andar à chuva causava-lhe uma sensação de pranto e de libertação, mitigando-lhe a ausência de lágrimas. Postado à janela, observava o desvelo da chuva, esmagando-se nos passeios e nos portais das casas, num contagiante efeito catártico.

Picasso, La femme qui pleure
Entrou numa sala onde tinha exposto um quadro de Picasso: La Femme qui Pleure. 
                                                                                   

Miguel Miranda (2013), in A Paixão de K, Porto Editora, 1ª ed., pp. 42-43

30 de junho de 2013

Glorita

Ilustrações de Alberto Godoy

Sorriu, o pequeno gesto de escolher um charuto fazia-o recuar até Havana, numa vertigem. 



Conhecera Glorita numa esquina. A sua beleza era hipnótica, não precisava de falar para arranjar clientes. Perfecto Cuadrado seguiu-a pela escadaria manhosa e insalubre acima, num prédio escuro e bolorento com fios elétricos pendendo das paredes, galinhas cacarejando nas varandas, um rego de água duvidosa correndo ao longo do corredor imerso na penumbra. Ele tateou o bolso das calças, assegurando-se de que trazia consigo o rolo de notas. Esquecera-se de perguntar o preço, a beleza da mulher fizera-lhe esquecer a introdução básica para início de conversa com uma prostituta. Glorita desengonçou a porta e avançou, fazendo sinal para que a seguisse. Enfeitiçado pelo seu corpo violão, pelo movimento ondulante das nádegas perfeitas, ele deixou-se conduzir até ao quarto. 

                                                          Miguel Miranda (2013), in A Paixão de K, Porto Editora, 1ª ed., p. 48

Um olhar parcial

Ilustração de Alexandra Boiger

Todas as artes e ciências repousam sobre harmonias parciais.

in Fragmentos de Novalis (seleção, tradução e desenhos de  Rui Chafes), Assírio & Alvim, 2000, 2ªed.

29 de junho de 2013

Injustiça



Ilustração de Noma Bliss e Jim Bliss

Aquilo que me instiga a trabalhar é sempre a percepção de uma injustiça, e a ideia de que é fundamental tomar partido. Quando decido escrever um livro, não digo a mim mesmo: Vou produzir uma obra de arte. Escrevo porque há uma mentira que desejo denunciar, um facto que pretendo destacar, e a minha preocupação primeira é de me fazer ouvir.

George Orwell, Why I write, 1946

27 de junho de 2013

Quando todos se chamam Pepe


Na aldeia espanhola Consolación, todos os homens se chamam Pepe: o pastor, o eletricista, o pintor..., o que se torna confuso quando um deles morre e não se percebe a quem passar o obituário. 

Ilustração de Paula Pertile

Os consolados (habitantes de Consolación) rejubilam com as tradições e festividades de verão na povoação: a melonada, a vacada, a porcaria e a ronda, designações tão peculiares quanto as realidades a que aludem:


Ilustração de Jimmy Liao
"A maior festividade era a melonada, que acontecia na primeira lua nova de agosto. Os telhados das casas enchiam-se de melões demasiado maduros, que ficavam dias ao sol à espera da grande noite. (...) ...os populares trepavam aos telhados das casas e bombardeavam-se mutuamente com os melões numa guerra sem quartel, por entre risos e gargalhadas. A festa terminava sem vencidos nem vencedores, quando se esgotavam os melões e o vinho. Cansados, melosos e felizes, os habitantes recolhiam a casa altas horas da madrugada e dormiam um dia inteiro para cozer a bebedeira."

Miguel Miranda (2013), in  A Paixão de K, Porto Editora, 1ª ed., p. 13


Estas são algumas evocações de Perfecto Cuadrado, personagem principal que descola da realidade - uma viagem de táxi por Londres - e se deixa conduzir pelas vivências da aldeia e dos tempos de adolescente, recordando a sua ida ao confessionário pedir conselhos ao padre para a sua iniciação sexual.

Ilustração de Akira Kusaka 

Uma viagem pelo surreal da mente e da aldeia de Perfecto Cuadrado, das suas paixões e evocações...A paixão de K, de Miguel Miranda...


Mª Carla Crespo



Escrever para viajar

Escrever para viajar, viagem sem pagar bilhete, é o lema do médico portuense Miguel Miranda,  que marcou presença no Bibliotecando em Tomar 2013, no princípio de maio.

Ilustração de Ethel Spowers

Partindo do real, ainda que com as luvas e as pinças a que a deontologia o obriga, ocorre-lhe basear-se numa paciente, matá-la na primeira página e prosseguir a narrativa. 

A viagem e a literatura são também humor, riso, subversão, morte, mistério, policiais – mostrou-o este autor de diversas obras insólitas como O estranho caso do cadáver sorridente (Prémio Caminho de Literatura Policial, 1997) - a partir da sua doente inglesa qual boneca de porcelana com lábios pintados -; Dai-lhes, Senhor, o eterno repouso – policial humorístico sobre o que acontece aos chineses quando morrem -; A paixão de K – sobre o quadrilátero amizade, amor, paixão e caos, que tem no centro as paixões de Perfecto Cuadrado, protagonista da ação; e Todas as cores do vento – reflexo de uma viagem à Palestina em que um gato é a única testemunha do choque civilizacional com Israel.

Mª Carla  Crespo

25 de junho de 2013

Instituto das Pessoas Normais



Por vezes, fico alguns minutos a abanar-me
ao vento, como fazem as flores.

O que pensariam os senhores do Instituto
das Pessoas Normais se me vissem nesses momentos?

Afonso Cruz, "25 de Junho" in O Livro do ano

24 de junho de 2013

São João e os solstícios

Ilustração de Young Ju Choi

S. João Baptista é santo austero, dado aos jejuns e às orações mais do que a euforias. Mas diz a lenda que saltou de alegria na barriga de Isabel à aproximação de Maria, mãe de Jesus. A Igreja dividiu entre os dois, João e Jesus, as festas solsticiais: a João o solstício de Verão, quando o Sol, no zénite, inicia o longo declínio para a obscuridade; a Jesus o de Inverno, quando o ciclo solar se torna de novo ascendente, e os dias crescem, cada vez mais limpos e luminosos. João, testemunha de Jesus, não foi que disse: "É preciso que ele cresça e que eu diminua"?

Manuel António Pina, "A noite unânime" in Crónica, saudade da literatura, p. 183

Infância, jardim interior


A infância é um lugar de exílio. Se não tivermos, em qualquer sítio do coração, uma infância, onde nos refugiaremos quando os ladrões vierem para nos roubar a inocência e os sonhos e quando os assassinos baterem à porta? Se não tivermos uma pequena infância que seja (um jardim longínquo, um vago quarto de dormir perdido), onde guardaremos os segredos mais secretos e onde brincaremos ainda? E quem nos responderá quando, diante do nosso rosto no espelho, nos virmos e não nos reconhecermos, ou quando, nos dias de infelicidade, chamarmos pelo nosso nome? 

Manuel António Pina, "Contra os economistas" in Crónica saudade da literatura, p. 140

23 de junho de 2013

Abanar o vento

Ilustração de Dilka Bear

Na praça há uma senhora que vive das flores.
Apanha-as e vende-as. É muito triste que elas
não saibam fugir.

Ilustração de Paul Cartwright
Tenho pena de as arrancar àquela maneira
que elas têm de viver; a abanar ao vento.
Ou talvez seja ao contrário:a abanar o vento.

Afonso Cruz, "23 de Junho" in O Livro do ano

21 de junho de 2013

Nada

Ilustração de Yvonne Zomerdijk

Nada, nem sequer o verão
está completo. Menos ainda o colar
de sílabas que, desvelado,
te ponho à roda da cintura.
Nunca me pediste mais, nunca
te dei outra coisa.
Quando juntamos as mãos esquecemos
que somos culpados da nossa inocência.
E sorrimos, alheios
ao sol que declina, à estrela
do norte que sabemos no fim.
O privilégio da vida é este
silêncio musical que do teu olhar
cai nos meus olhos
e regressa a ti acrescentado
pela luz da manhã varrendo o mar.

Eugénio de Andrade, in O sal da língua

20 de junho de 2013

O cavalo branco

Eu andava com umas porcarias inquietantes que um sonho me tinha deixado na cabeça. Parecia que havia uma Virgem nua amarrada por baixo da barriga de um cavalo branco e eu via-a em toda a parte mesmo quando estava com os olhos dentro da água do Marecchia, tão clara nas pedras que parecia que nem existia.

(...)


Ilustração de Kristina Swarner

Quando cheguei à capela de Santa Verónica, vi que estava transformada numa cavalariça. Com um cavalo branco, idêntico àquele que eu tinha sonhado. E então? Então fugi dali para fora.

Tonino Guerra, in O livro das igrejas abandonadas

19 de junho de 2013

É o que tenho, palavras...

Ilustração de Katherine Quinn

Pouca coisa são as palavras. No entanto é o que tenho, palavras. E memórias, também elas feitas e desfeitas de palavras.

Manuel António Pina, "A noite unânime" in Crónica, saudade da literatura, p. 183