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6 de abril de 2014

Como o rumor


Ilustração de Marie Cardouat 

Como o rumor do mar dentro de um búzio
O divino sussurra no universo
Algo emerge: primordial objecto


Sophia de Mello Breyner Andresen, O nome das coisas in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 609

5 de abril de 2014

Musa

Aqui me sentei quieta
Com as mãos sobre os joelhos
Quieta muda secreta
Passiva como os espelhos




Ilustração de Maria Jose Olavarria Madariaga













Musa ensina-me o canto
Imanente e latente
Eu quero ouvir devagar
O teu súbito falar
Que me foge de repente.


Sophia de Mello Breyner Andresen, Dual in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 571

3 de abril de 2014

Da mais alta janela da minha casa


Gustav Klimt
Da mais alta janela da minha casa 
Com um lenço branco digo adeus
Aos meus versos que partem para a humanidade. 


E não estou alegre nem triste.
Esse é o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos
Porque não posso fazer o contrário
Como a flor não pode esconder a cor,
Nem o rio esconder que corre,
Nem a árvore esconder que dá fruto. 

Ei-los que vão já longe como que na diligência
E eu sem querer sinto pena
Como uma dor no corpo. 

Quem sabe quem os terá?
Quem sabe a que mãos irão? 

Ilustração de Christian Asuh

Flor, colheu-me o meu destino para os olhos. 
Árvore, arrancaram-me os frutos para as bocas.
Rio, o destino da minha água era não ficar em mim.
Submeto-me e sinto-me quase alegre,
Quase alegre como quem se cansa de estar triste. 

Ide, ide de mim!
Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua. 

Passo e fico, como o Universo.


Alberto Caeiro, in Fernando Pessoa dito por Sinde Filipe, Dinalivro, 2010, 3ª ed., pp. 86-87

1 de abril de 2014

Vinicius de Moraes

Soneto da fidelidade

Ilustração de Carlotta Castelnovi


De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Qem sabe a solidão, fim de quem ama

Que eu possa dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.




Vinicius de Moraes

27 de março de 2014

Branco sobre branco

Ilustração de Debi Hubbs

O Branco sobre o branco.
As ovelhas na neve
Não se distinguem.
Tal como as nossas palavras mais exactas
Sobre o papel.

Giánnis Ritsos

26 de março de 2014

Primaverar


Misturado com aquilo que escolhemos, chega-nos o que não escolhemos e que temos, na mesma, de viver, transformando-o em oportunidade e desafio para a confiança. A primavera não tem uma linha demarcada: transborda sempre e temos de preparar-nos para isso. Ela não fica a alegrar apenas os canteiros muito bem ordenados. A sua floração inédita dá-nos o endereço da torrente, para lá da vida que pensamos domesticada pelos nossos cálculos.




Pobres de nós: achamos que conseguimos dominar completamente o mundo com os nossos cinco sentidos! Precisaríamos na verdade, de cinco mil para perceber um pequeno quinhão do que somos. 

Fotos de autor desconhecido

Há quanto tempo não caminhamos assobiando, ou não seguimos com um fio de erva nos lábios, sem mais, sem pressas nem pretensões, acreditando simplesmente no valor de ser e que, por isso, nos dão a possibilidade de estar, de vaguear, de medir o momento apenas com o peso e a leveza da própria marcha?


José Tolentino Mendonça, in Revista Expresso, 22.3.2014

Meio da vida


Ilustração de Becky Kelly


Porque as manhãs são rápidas e o seu sol quebrado
Porque o meio-dia
Em seu despido fulgor rodeia a terra

A casa compõe uma por uma as suas sombras
A casa prepara a tarde
Frutos e canções se multiplicam
Nua e aguda
A doçura da vida



Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto, in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p.408

24 de março de 2014

Quando eu nasci



 
Ilustração de Nancy-Ribard
Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.
Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.                   

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...

Pra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe...

Sebastião da Gama in Serra-Mãe, 1945

21 de março de 2014

A primavera a zumbir

Ilustração de Lee Misook


A primavera a zumbir

com os seus olhos azuis de papoila:

novas e belas vestes de Deus 


Tolentino Mendonça, in A papoila e o monge, Assírio&Alvim, 2013, p. 94

19 de março de 2014

Inverno

 
Ilustração de Victoria Ball


Este Inverno é longo gélido
E confuso
Na varanda só o vento passa
E o vento olha-nos de esguelha quando passa

Nenhum poema aflora
Entre as linhas finas e aéreas
Da página em branco

                              Inverno de 1999

Sophia de Mello Breyner Andresen, Poemas dispersos, in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 878

Tudo é efémero

Ilustração de Ulrike Baier


Tudo é efémero:

ontem escutava a tua voz

hoje só o vento



Tolentino Mendonça, in A papoila e o monge

Assírio&Alvim, 2013, p. 142

18 de março de 2014

Arte poética

Ilustração de Kazu Nitta

Num romance, uma chávena é apenas
uma chávena — que pode derramar
café sobre um poema, se o poeta,
bem entendido, for a personagem.

Num poema, mesmo manchado
de café, a chávena é certamente a
concha de uma mão — por onde eu
bebo o mundo em maravilha, se tu,
bem entendido, fores o poeta.

No nosso romance, não sou sempre
eu quem leva as chávenas para a mesa
a que nos sentamos à noite, de mãos
dadas, a dizer que a lata do café chegou
ao fim, mas a pensar que a vida é
que já vai bastante adiantada para os
livros todos que ainda pensamos ler.

No meu poema, não precisamos de café
para nos mantermos acordados: a minha
boca está sempre na concha da tua mão,
todos os dias há páginas nos teus olhos,
escreve-se a vida sem nunca envelhecermos.

Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p. 235



17 de março de 2014

Olho-te e não me vês

Ilustração de Lucy Campbell


Olho-te e não me vês. A primavera vigia
a floração das malvas e o girassol retribui
os favores da luz. Eu sento-me onde acho

que vai estar a tua sombra. E, como a dor
que persegue a ferida, vejo-te quando passas,
mas vejo-te melhor quando não passas. Tu

não me vês; caminhas na geometria vã de
uma linha sem pontos; às vezes parece que
alguma coisa te detém e viras-te - talvez
então me chames dentro de ti, talvez até
me olhes. Mas não me vês.


Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p. 165

15 de março de 2014

Que é das palavras?

Ilustração de Marie Desbons



Que é das palavras? Como chamar

por quem as esconde se, sem elas,

nem o silêncio tem nome?


Maria do Rosário Pedreirain Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p. 144

13 de março de 2014

Brotavam flores

 
Ilustração de Lucy Campbell
 
O problema era que a chuva desarranjava tudo e nas máquinas mais áridas brotavam flores entre as engrenagens se não fossem oleadas todos os três dias, enferrujavam os fios dos brocados e nasciam algas de açafrão na roupa molhada. A atmosfera era tão húmida que os peixes teriam podido entrar pelas portas e sair pelas janelas, navegando pelo ar das divisões da casa.

Gabriel García Márquez, in Cem anos de solidão, D. Quixote, 2009, 26ªed., p. 320

11 de março de 2014

Verdes são os campos (2)

Ilustração de Joan Louis                                                                                                                           




10 de março de 2014

Verdes são os campos (1)

Verdes são os campos,
De cor de limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.

Ilustração de Olga Kvasha

Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes,
De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.

Gados que pasceis
Com contentamento,
Vosso mantimento
Não no entendereis;
Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.

Luís de Camões