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10 de março de 2013

O alimento das árvores

Ilustração de Nicoletta Ceccoli
As árvores alimentam-se de luz, diz a minha mãe.

Devem comê-la toda, sofregamente,
pois ao fim do dia já acabaram com ela.
Fica tudo às escuras.

Afonso Cruz, "15 de Abril", in O livro do ano

8 de março de 2013

Sonho. Não sei quem sou neste momento


Sonho. Não sei quem sou neste momento.
Durmo sentindo-me. Na hora calma
Meu pensamento esquece o pensamento,
Minha alma não tem alma.

Se existo, é um erro eu o saber. Se acordo
Parece que erro. Sinto que não sei.
Nada quero nem tenho nem recordo.
Não tenho ser nem lei.

Desenho de Júlio Pomar


Lapso da consciência entre ilusões,
Fantasmas me limitam e me contêm.
Dorme insciente de alheios corações,
Coração de ninguém.

                                      Fernando Pessoa

Entre o sono e o sonho

Ilustração de Lucio Lopez Cansuet-Kansuet

Entre o sono e o sonho, 
Entre mim e o que em mim
É o quem eu me suponho
Corre um rio sem fim.

Passou por outras margens,
Diversas mais além,
Naquelas várias viagens
Que todo o rio tem.

Chegou onde hoje habito
A casa que hoje sou.
Passa, se eu me medito;
Se desperto, passou.

E quem me sinto e morre
No que me liga a mim
Dorme onde o rio corre —
Esse rio sem fim.

Fernando Pessoa

Sabes quem sou?

Ilustração de Fernando Falcone


Sabes quem sou? Eu não sei.
Outrora, onde o nada foi,
Fui o vassalo e o rei.
É dupla a dor que me dói.  
Duas dores eu passei.

Fui tudo que pode haver.
Ninguém me quis esmolar;
E entre o pensar e o ser
Senti a vida passar
Como um rio sem correr.

                                 Fernando Pessoa

6 de março de 2013

Arte de dentro para fora

Ilustração de Duy Huyn

Há artistas que trabalham de dentro para fora, há artistas que trabalham de fora para dentro. Os primeiros trazem um imenso mundo dentro de si e vivem na necessidade imparável e na urgência de o trazer para fora; os outros limitam-se a recolher os elementos do mundo e a reorganizá-los à sua maneira. Só podemos oferecer o que não nos cabe na mão.


Rui Chafes, "O perfume das buganvílias 27" , in Entre o céu e a terra, Documenta, 2012

5 de março de 2013

Mar sonoro


Ilustração de Quentin Gréban



Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim,

A tua beleza aumenta quando estamos sós

E tão fundo intimamente a tua voz

Segue o mais secreto bailar do meu sonho,

Que momentos há em que eu suponho

Seres um milagre criado só para mim.



Sophia de Mello Breyner Andresen

3 de março de 2013

Dignificação do real

Ilustração de Kazu Nitta

O homem dignifica aquilo a que chamamos vida quando tem consciência de participar numa dimensão superior que o transcende.

Rui Chafes, "O perfume das buganvílias 17" , in Entre o céu e a terra, Documenta, 2012

Horizonte


Ilustração de Raffaele Conte


Se a linha azul do mar tanto nos seduz é também porque essa imensidão nos lembra o nosso verdadeiro horizonte.

José Tolentino Mendonça, in O hipopótamo de Deus e outros textos,
ed. Assírio & Alvim

2 de março de 2013

O mar. O mar novamente à minha porta.

Ilustração de Mariana Kalacheva

O mar. O mar novamente à minha porta.
Vi-o pela primeira vez nos olhos
de minha mãe, onda após onda,
perfeito e calmo, depois,

contra falésias, já sem bridas.
Com ele nos braços, quanta,
quanta noite dormira,
ou ficara acordado ouvindo

seu coração de vidro bater no escuro,
até a estrela do pastor
atravessar a noite talhada a pique
sobre o meu peito.


Este mar, que de tão longe me chama,
que levou na ressaca, além dos meus navios?

Eugénio de Andrade, in Branco no branco


Ilustração de Jeffrey Larson


As ondas quebravam uma a uma
Eu estava só com a areia e com a espuma
Do mar que cantava só para mim.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Dia do Mar

1 de março de 2013

Fundo do mar

Ilustração de Ani Castillo

No fundo do mar há brancos pavores
Onde as plantas são animais
E os animais são flores.

Mundo silencioso que não atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruídos vibram os espaços. 
Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.

Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Mar

28 de fevereiro de 2013

este foi o ano em que nasceste

Ilustração de Yihang Pan

este foi o ano em que nasceste
e prolonga-se este ano os seus
meses muito grandes por ti
este foi o ano que te fez nascer
e chegaste no seu leito como
um barco carregado de rosas
um barco sem leme sem remos
que chega na força serena do rio
e na força de um dia demasiado
forte na vida na minha vida
na vida da tua mãe que te
trouxe como um barco perfumado
de pétalas a descer um rio
uma vida demasiado forte e
a nascer e a chegar no dia
exacto deste ano em que nasceste
para nós para dias e anos
de auroras e noites distantes
dias longos a nascerem como
o teu sorriso de criança a
ensinar-nos o que esquecemos ao
crescer a ensinar-nos a sorrir
de novo na vida na tua
vida que começou e se estende
neste ano sem noite sem foz
em que chegaste como um barco
de rosas na primeira luz da
madrugada

José Luís Peixoto, in A criança em ruínas

26 de fevereiro de 2013

um dia, quando a ternura for a única regra da manhã

Ilustração de George Tooker

um dia, quando a ternura for a única regra da manhã, 
acordarei entre os teus braços. a tua pele será talvez demasiado bela. 
e a luz compreenderá a impossível compreensão do amor. 
um dia, quando a chuva secar na memória, quando o inverno for 
tão distante, quando o frio responder devagar com a voz arrastada 
de um velho, estarei contigo e cantarão pássaros no parapeito da
nossa janela. sim, cantarão pássaros, haverá flores, mas nada disso
será culpa minha, porque eu acordarei nos teus braços e não direi 
nem uma palavra, nem o princípio de uma palavra, para não estragar 
a perfeição da felicidade. 

José Luís Peixoto, in A Criança em ruínas


 

A concha

A minha casa é concha. Como os bichos.
Segreguei-a de mim com paciência:

Fachada de marés, a sonhos e a lixos,
O horto e os muros só areia e ausência. 

Minha casa sou eu e os meus caprichos. 
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.

E telhados de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso! 
Lareira aberta pelo vento, as salas frias.

Ilustração de Hajin Bae

A minha casa... Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória. 

Vitorino Nemésio

25 de fevereiro de 2013

Busca da essência no mundo grego

Ilustração de Alexander Bazarin
[Sophia de Melo Breyner Andresen]  realça a aliança do homem com o mundo natural, que o paradigma da arte grega celebrou. A "verdade antiga da natureza" é também a verdade dos deuses.


A civilização grega é também um modelo axiológico para Sophia. Nela procura um conjunto de valores perdidos: a inteireza, a harmonia, a justiça. "Exilámos os deuses e fomos / Exilados da nossa inteireza", escreve em O Nome das Coisas.

Clara Rocha, in Dicionário de Literatura Portuguesa, org. e dir. de Álvaro Manuel Machado 

Soneto de Eurydice

Ilustração de Alice Guicciardi



Eurydice perdida que no cheiro
E nas vozes do mar procura Orpheu:
Ausência que povoa terra e céu
E cobre de silêncio o mundo inteiro.

Assim bebi manhãs de nevoeiro
E deixei de estar viva e de ser eu
Em procura de um rosto que era o meu
O meu rosto secreto e verdadeiro.

Porém nem nas marés, nem na miragem
Eu te encontrei. Erguia-se somente
O rosto liso e puro da paisagem.

E devagar tornei-me transparente
Como morte nascida à tua imagem
E no mundo perdida esterilmente.

Sophia de Melo Breyner Andresen, in No Tempo dividido


24 de fevereiro de 2013

Não posso adiar o amor

Ilustração de Lauraballa

Não posso adiar o amor para outro século 
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não, não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o rneu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração

António Ramos Rosa

23 de fevereiro de 2013

Poema dum funcionário cansado


A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
Ilustração de Csil Cb

estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só

Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Porque não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Porque me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?

Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música

Ilustração de Kai Pannen








São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida 

isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só.

António Ramos Rosa, O Grito Claro, 1958

22 de fevereiro de 2013

O jardim e a casa

Ilustração de Mariana Kalacheva



Não se perdeu nenhuma coisa em mim.
Continuam as noites e os poentes
Que escorreram na casa e no jardim,
Continuam as vozes diferentes
Que intactas no meu ser estão suspensas.
Trago o terror e trago a claridade,
E através de todas as presenças
Caminho para a única unidade.



Sophia de Mello Breyner Andresen, in Obra Poética I

20 de fevereiro de 2013

As pessoas sensíveis

Ilustração de Ira Tsantekidou






As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas

O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo    
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra

"Ganharás o pão com o suor do teu rosto"
Assim nos foi imposto
E não:
"Com o suor dos outros ganharás o pão." 
Ó vendilhões do templo 
Ó construtores 
De grandes estátuas balofas e pesadas 
Ó cheios de devoção e de proveito 

Perdoai-lhes Senhor 
Porque eles sabem o que fazem 

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Livro Sexto

Praia

Ilustração de Adrienne Trafford
Na luz oscilam os múltiplos navios
Caminho ao longo dos oceanos frios

As ondas desenrolam os seus braços
E brancas tombam de bruços

A praia é longa e lisa sob o vento
Saturada de espaços e maresia

E para trás fica o murmúrio
Das ondas enroladas como búzios.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in No Tempo Dividido (1954)

Praia



Ilustração de Anton Gorcevich
Os pinheiros gemem quando passa o vento
O sol bate no chão e as pedras ardem.

Longe caminham os deuses fantásticos do mar
Brancos de sal e brilhantes como peixes.

Pássaros selvagens de repente,
Atirados contra a luz como pedradas,
Sobem e morrem no céu verticalmente
E o seu corpo é tomado nos espaços.

As ondas marram quebrando contra a luz
A sua fronte ornada de colunas.

E uma antiquíssima nostalgia de ser mastro
Baloiça nos pinheiros.


Dormem na praia os barcos pescadores
Imóveis mas abrindo
Os seus olhos de estátua

E a curva do seu bico
Rói a solidão.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Coral (1950)

19 de fevereiro de 2013

O artista e o infinito

Ilustração de Joan Louis


O artista exprime o instinto espiritual da humanidade, traduz a tensão do homem em direcção ao eterno ou a uma qualquer forma de transcendência. A arte transporta em si uma nostalgia do ideal e exprime sempre a sua procura. A música de Bach ou de Vivaldi ecoará para sempre nas falésias de mármore que nos aprisionam e será sempre a nossa única evasão possível. O artista, no seu movimento para o Ideal, perturba a estabilidade de uma sociedade. A sociedade aspira à estabilidade, o artista aspira ao infinito.

 Rui Chafes, "O perfume das buganvílias 19" , in Entre o  céu e a terra, Documenta, 2012

18 de fevereiro de 2013

De passagem

Ilustração de Danuta Wojciechowska


Num árido e abrupto vale, habitado apenas pelo rumor longínquo do rio lutando para conseguir passar entre as estreitas fragas, uma voz disse-me que só estamos aqui de passagem, que a nossa estadia na terra é temporária. Sentado nas pedras, aprendi que essa voz, atravessando aquela solidão arcaica e silenciosa, era o próprio rio, imparável. 


Rui Chafes, "O perfume das buganvílias 1" , in Entre o  céu e a terra, Documenta, 2012

17 de fevereiro de 2013

O dia

Ilustração de Dilka Bear
Passa o dia contigo
Não deixes que te desviem
Um poema emerge tão jovem tão antigo
Que nem sabes desde quando em ti vivia  

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Ilhas





15 de fevereiro de 2013

Escuta


Ilustração de Daniela Giarratana




Não tens de escutar. Tens de te escutar.

José Tolentino Mendonça, in O Estado do Bosque, Cena III

14 de fevereiro de 2013

Nada nosso


Ilustração de Leicia Gotlibowski

Nada nosso que estás no Nada
Seja Nada o teu nome
Venha a nós o Nada do Teu Reino
Seja claro o Nada da Tua Vontade
Assim na Terra como no Céu.
O Nada que nos alimenta nos dá hoje
Perdoa-nos sempre que não formos Nada
Como tentaremos perdoar a cada uma das Tuas criaturas
Não nos deixes incorrer em tentação
E livra-nos de não sermos o Teu Nada.

José Tolentino Mendonça, in O Estado do Bosque, Cena IV

13 de fevereiro de 2013

A meta e o caminho



Ilustração de Stefano Arici
Quem não apaga a meta não vê nada do que está entre o início e o fim do caminho.

José Tolentino Mendonça, in O Estado do Bosque, Cena III




Sou

Ilustração de Scott Kahn






Não digas: aprendo a caminhar na escuridão. Diz somente: sou.


 José Tolentino Mendonça, in O Estado do Bosque, Cena III

12 de fevereiro de 2013

A meta


Ilustração de Katy Hare
Quem apenas quer a meta não viaja.


José Tolentino Mendonça, in O Estado do Bosque, Cena III

11 de fevereiro de 2013

Regresso ao bosque



Ilustração de James C. Christensen


Um dia os homens deixarão os aviões, os transatlânticos, os comboios de alta velocidade, os automóveis para regressar aos caminhos do bosque.


José Tolentino Mendonça, in O Estado do Bosque, Cena III

À entrada do bosque


Eu sou apenas um estranho à beira de um bosque.

José Tolentino Mendonça, in O Estado do Bosque, Cena III

Ilustração de Stefano Arici

10 de fevereiro de 2013

Os sentidos dos trilhos

Ilustração de Scott Kahn

Cada trilho conduz a mais do que um sentido.


José Tolentino Mendonça, in O Estado do Bosque, Cena I

E ele não sentia medo

Ilustração de Aki


JACOB [descrevendo como John Wolf vive a sua cegueira]


A paisagem apagava-se nos seus olhos, e ele não sentia medo. Sem ver, olhava. Era como se aceitasse a nova forma de solidão. Nada mais que o passo silencioso nos degraus que sobem em espiral. Nada mais que o rumor do seu fino bordão.


José Tolentino Mendonça, in O Estado do Bosque, Assírio & Alvim, 2013, 1ª ed.,   Cena II, p.20

9 de fevereiro de 2013

O Estado do Bosque

Ilustrações de Aki

Na recente obra dramática de José Tolentino Mendonça, o bosque é metáfora de plenitude, de busca, de local de encontro com Deus. As personagens são guiadas por um cego, John Wolf, que tem do mundo uma perceção sensorial e bela, de confiança:


JOHN WOLF

(...) Finalmente vejo o rosto de Deus.


 José Tolentino Mendonça, in O Estado do Bosque, Assírio & Alvim, 2013, 1ª ed., Cena IV, p. 38





Apenas assim...

Ilustração de Victor Nizovtsev 

A leitura promove-se lendo. Apenas assim.

Rodolfo Castro, in A intuição leitora, a intenção narrativa, Gatafunho


8 de fevereiro de 2013

Ilusão sonora

Ilustrações de Victor Nizovtsev 


















...a leitura em voz alta exige um acto de criação: uma ilusão sonora que possa ser vista. Não se lê em voz alta para se ser escutado, lemos em voz alta para que os que nos escutam vejam o som, nele se abriguem, o habitem.


A leitura em voz alta não se pode limitar a atribuir às palavras um som qualquer. Há que dar-lhes o som que lhes corresponde, o som com que essas palavras querem ser ditas.

Rodolfo Castro, in A intuição leitora, a intenção narrativa, Gatafunho