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2 de março de 2013

O mar. O mar novamente à minha porta.

Ilustração de Mariana Kalacheva

O mar. O mar novamente à minha porta.
Vi-o pela primeira vez nos olhos
de minha mãe, onda após onda,
perfeito e calmo, depois,

contra falésias, já sem bridas.
Com ele nos braços, quanta,
quanta noite dormira,
ou ficara acordado ouvindo

seu coração de vidro bater no escuro,
até a estrela do pastor
atravessar a noite talhada a pique
sobre o meu peito.


Este mar, que de tão longe me chama,
que levou na ressaca, além dos meus navios?

Eugénio de Andrade, in Branco no branco

1 de novembro de 2012

Não há ninguém à entrada de novembro


Não há ninguém à entrada de novembro.
Vem como se não fora nada.
A porta estava aberta,
entrou quase sem pisar o chão.

Não olhou o pão, não provou o vinho.
Não desatou o nó cego do frio.
Só na luz das violetas se demora
sorrindo à criança da casa.

Essa boca, esse olhar. Essa mão
de ninguém. Vai-se embora,
tem a sua música, o seu rigor, o seu segredo.
Antes porém acaricia a terra.

 
Ilustração de Sandra Bierman
 Como se fora sua mãe.  


Eugénio de Andrade, in Branco no Branco