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28 de fevereiro de 2013

este foi o ano em que nasceste

Ilustração de Yihang Pan

este foi o ano em que nasceste
e prolonga-se este ano os seus
meses muito grandes por ti
este foi o ano que te fez nascer
e chegaste no seu leito como
um barco carregado de rosas
um barco sem leme sem remos
que chega na força serena do rio
e na força de um dia demasiado
forte na vida na minha vida
na vida da tua mãe que te
trouxe como um barco perfumado
de pétalas a descer um rio
uma vida demasiado forte e
a nascer e a chegar no dia
exacto deste ano em que nasceste
para nós para dias e anos
de auroras e noites distantes
dias longos a nascerem como
o teu sorriso de criança a
ensinar-nos o que esquecemos ao
crescer a ensinar-nos a sorrir
de novo na vida na tua
vida que começou e se estende
neste ano sem noite sem foz
em que chegaste como um barco
de rosas na primeira luz da
madrugada

José Luís Peixoto, in A criança em ruínas

26 de fevereiro de 2013

um dia, quando a ternura for a única regra da manhã

Ilustração de George Tooker

um dia, quando a ternura for a única regra da manhã, 
acordarei entre os teus braços. a tua pele será talvez demasiado bela. 
e a luz compreenderá a impossível compreensão do amor. 
um dia, quando a chuva secar na memória, quando o inverno for 
tão distante, quando o frio responder devagar com a voz arrastada 
de um velho, estarei contigo e cantarão pássaros no parapeito da
nossa janela. sim, cantarão pássaros, haverá flores, mas nada disso
será culpa minha, porque eu acordarei nos teus braços e não direi 
nem uma palavra, nem o princípio de uma palavra, para não estragar 
a perfeição da felicidade. 

José Luís Peixoto, in A Criança em ruínas


 

9 de junho de 2012


estou deitado sobre a minha ausência,

como poderia estar deitado se existisse.

 amanhã as ondas imitar-me-ão na praia.



José Luís Peixoto, in A Criança em Ruínas

Ilustração de Svjetlan Junakovic