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18 de fevereiro de 2014

Eva

Ilustração de Lee Misook


Quando Eva andava nua pelo paraíso,

disfarçava o tédio à sombra das árvores, colhendo 

as flores, cheirando o seu perfume,

e pensando como seria bom ter um céu

para espreitar.


Um dia, uma dessas flores transformou-se em

fruto; e Eva levou-o à boca, trincou-o, provou

a sua polpa. Por um estranho efeito

de causa e consequência, o sabor da maçã

obrigou Eva a cobrir a sua nudez

com folhas e flores, que passaram

a ser uma metáfora do corpo

que escondem.


Então, o pecado tornou-se uma simples

figura de retórica, e o sexo um exercício

de interpretação.


Nuno Júdice, in A Matéria do Poema, Dom Quixote,2008, 1ª ed., p. 42

17 de fevereiro de 2014

Para escrever o poema

Ilustração de Eszter Schall

O poeta quer escrever sobre um pássaro:

e o pássaro foge-lhe do verso.


O poeta quer escrever sobre a maçã:

e a maçã cai-lhe do ramo onde a pousou.


O poeta quer escrever sobre uma flor:

e a flor murcha no jarro da estrofe.


Ilustração de Emilie Vast


Então, o poeta faz uma gaiola de palavras

para o pássaro não fugir.


Então, o poeta chama pela serpente

para que ela convença Eva a morder a maçã.




Ilustração de Emilie Vast





Então, o poeta põe água na estrofe

para que a flor não murche.





Mas um pássaro não canta

quando o fecham na gaiola.



A serpente não sai da terra

porque Eva tem medo de serpentes.


E a água que devia manter viva a flor

escorre por entre os versos.


E quando o poeta pousou a caneta,

o pássaro começou a voar,

Eva correu por entre as macieiras

e todas as flores nasceram da terra.


Ilustração de Mary Alayne Thomas
Ilustração de Lucy Campbell
















O poeta voltou a pegar na caneta,

escreveu o que tinha visto,

e o poema ficou feito.


Nuno Júdice, in A Matéria do Poema, Dom Quixote,2008, 1ª ed., pp. 52-53

15 de fevereiro de 2014

Saudade da prosa

Poesia, saudade da prosa;
Ilustração de Michael Woloschinow
escrevia "tu", escrevia "rosa"
mas nada me pertencia,

nem o mundo lá fora
nem a memória,
o que ignorava ou o que sabia.     

E se regressava
pelo mesmo caminho
não encontrava

senão palavras
e lugares vazios:
símbolos, metáforas,

o rio não era o rio
nem corria e a própria morte
era um problema de estilo.

Onde é que eu já lera
o que sentia, até a 
minha alheia melancolia?

Manuel António Pina, in Poesia, Saudade da Prosa - uma antologia pessoal
Assírio & Alvim, 2012, 2ª ed., p. 58

14 de fevereiro de 2014

O meu desejo na primavera

Ilustração de Emilie Vast


O meu desejo na primavera:

que mesmo as flores selvagens

venham florir à minha porta


Tolentino Mendonça, in A papoila e o monge, Assírio&Alvim, 2013, p. 95


13 de fevereiro de 2014

O essencial é invisível para os olhos


Ilustração de Ann Ernandez


- Adeus...
- Adeus - disse a raposa. - Vou contar-te o tal segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos...

- O essencial é invisível para os olhos - repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.

Saint-Exupéry, in O Principezinho, Editora Caravela, 1987, 12ª ed., p. 74

12 de fevereiro de 2014

Esta manhã encontrei o teu nome nos meus sonhos

Ilustração de Carlotta Castelnovi

Esta manhã encontrei o teu nome nos meus sonhos
e o teu perfume a transpirar na minha pele. E o corpo
doeu-me onde antes os teus dedos foram aves
de verão e a tua boca deixou um rasto de canções.

No abrigo da noite, soubeste ser o vento na minha
camisola; e eu despi-a para ti, a dar-te um coração
que era o resto da vida - como um peixe respira
na rede mais exausta. Nem mesmo à despedida

foram os gestos contundentes: tudo o que vem de ti
é um poema. Contudo, ao acordar, a solidão sulcara
um vale nos cobertores e o meu corpo era de novo
um trilho abandonado na paisagem. Sentei-me na cama

e repeti devagar o teu nome, o nome dos meus sonhos;
mas as sílabas caíam no fim das palavras, a dor esgota
as forças, são frios os batentes nas portas da manhã.


       Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p.97

10 de fevereiro de 2014

Tu és a esperança, a madrugada

Ilustração de Agnes Keszeg




Tu és a esperança, a madrugada.
Nasceste nas tardes de setembro,
quando a luz é perfeita e mais dourada,
e há uma fonte crescendo no silêncio
da boca mais sombria e mais fechada.

Para ti criei palavras sem sentido,
inventei brumas, lagos densos,
e deixei no ar braços suspensos
ao encontro da luz que anda contigo.

Tu és a esperança onde deponho
meus versos que não podem ser mais nada.
Esperança minha, onde meus olhos bebem,
fundo, como quem bebe a madrugada.

Eugénio de Andrade, in As mãos e os frutos

9 de fevereiro de 2014

Nada temas...

Ilustração de Mihai Criste

(...)

a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste
e pode levantar-se como um pássaro assim que 
adormeceres. Mas nada temas (...)


Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p.121

7 de fevereiro de 2014

Ser poeta


Ilustração de Lee Misook



Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Áquem e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!




Florbela Espanca, in Charneca em Flor

6 de fevereiro de 2014

Há palavras que nos beijam

Ilustração de Marina Anaya


Há palavras que nos beijam 
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

Alexandre O'Neill, in No Reino da Dinamarca

4 de fevereiro de 2014

Para atravessar contigo o deserto do mundo

Ilustração de Satoshi Ota


Para atravessar contigo o deserto do mundo 
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Livro Sexto

3 de fevereiro de 2014

Falar de poesia

Ilustração de Satoshi Ota



Antes de tudo, não falar. O poema tem todas as palavras necessárias para que não seja preciso dizer mais nada a partir dele.

(...)

Um poema, quando o é, diz tudo o que há para saber sobre si.

Nuno Júdice

2 de fevereiro de 2014

Anorexia da leitura?

Vieira da Silva


Ler é beber e comer. O espírito que não lê emagrece como um corpo que não come.


Victor Hugo


31 de janeiro de 2014

Primeiro dia de primavera

Ilustração de Sun Haeng Heo



Primeiro dia de primavera:
que distante me parece
o inverno

Tolentino Mendonça, in A papoila e o monge, Assírio&Alvim, 2013, p. 57

30 de janeiro de 2014

Nascer de novo

Ilustração de Su Blackwel


Não te sei descrever o que senti quando aprendi a ler e a escrever. Era como se tivesse nascido novamente e com poderes especiais.


 Dulce Maria Cardoso, "A biblioteca", in O prazer da leitura, ed. FNAC/Teodolito, 2011, p. 115

29 de janeiro de 2014

Há coisas que não se podem decidir...

Ilustração de Pau Anglada

Os livros salvaram-me. É a primeira vez que digo isto em voz alta. Um homem não pode deixar de envergonhar-se quando diz que não se matou por causa dos livros. Parece mais coisa de rapariga fraca dos nervos. E no entanto é a verdade. Há muito muito tempo, os livros salvaram-me. Se não quiseres acreditar, não acredites. Acreditar também é uma decisão. Há coisas que não se podem decidir. Ter sede, por exemplo. Ser salvo por livros.


                  Dulce Maria Cardoso, "A biblioteca", in O prazer da leitura, ed. FNAC/Teodolito, 2011, p. 105

28 de janeiro de 2014

Vidas lidas ou vividas?

Ilustração de Anna Burighel



As minhas ideias já estão um pouco confundidas mas não a este respeito. As vidas que li não foram menos minhas. Não há grande diferença entre o que se vive lendo e o que se vive vivendo. Milhares de vidas à nossa espera no silêncio dos livros. O silêncio dos livros não é igual ao nosso.


Dulce Maria Cardoso, "A biblioteca", in O prazer da leituraed. FNAC/Teodolito, 2011, pp. 106-107 


27 de janeiro de 2014

Biblioteca viva

Ilustração de Nikolaus Heidelbach

Esta biblioteca é a testemunha mais fidedigna do que sou. Encontrei-me aqui com tanta gente.

Dulce Maria Cardoso, "A biblioteca", in O prazer da leitura, ed. FNAC/Teodolito, 2011, p. 107 

26 de janeiro de 2014

São tristes as aves

Ilustração de Julia Icenogle

São tristes as aves que viajam na
memória do vento, tristes os olhos
que se demoram no gargalo de um
poço. E eu sou triste de não saber

que nome te pôs a morte quando
ontem te deitou na sua cama, e te
soprou nos cabelos o seu hálito frio,

e te embalou às escuras com uma
canção de vidro em que as aves se
enamoravam das próprias sombras

e, procurando-se em vão nas águas
turvas de um poço, não sabiam que
apenas mergulhavam lentamente, muito
lentamente, na memória do vento.


Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p. 207