Número total de visualizações de páginas

21 de julho de 2013

Entre fotografia e poema


Ilustração de Sonia Maria Luce Possentini


Neste esboço há aquele segmento
do teu rosto, quase a preto e branco, que sai da sombra
do táxi; mas faltam as mãos (e sem elas o retrato
não fica completo). Na realidade, o corpo
parece fragmentado quando o capturamos
de surpresa, sem saber o que irá
surgir depois do flash. E poderia
desenhar-se um cenário puramente abstracto,
com um fundo de azulejo a dar um tom
clássico à imagem, ou apenas o branco da parede,
e neste caso haveria uma contraluz que só deixaria
à vista o teu perfil. Porém, quando olho
o teu retrato, vejo nele
uma presença que posso sentir, e me fala
como se estivesses comigo, fazendo-me
ouvir a cor da tua voz. E é como se saísses de dentro
desta imagem que é pura forma, instante
que a palavra reduz à sua duração, gesto
imóvel num desvio do olhar
para o poema.

                                     Nuno Júdice, in Fórmulas de uma luz inexplicável, D. Quixote, 2012, 2ª ed., p. 43

20 de julho de 2013

Manhã

Como um fruto que mostra
Aberto pelo meio
A frescura do centro                         

Assim é a manhã
Dentro da qual eu entro


Sophia de Mello Breyner, Andresen, in Livro Sexto

19 de julho de 2013

Mãos

Ilustração de Kristina Swarner

Côncavas de ter

Longas de desejo

Frescas de abandono

Consumidas de espanto

Inquietas de tocar e não prender.


                    Sophia de Mello Breyner Andresen, in Obra Poética
                               
                               Caminho, 2011, 2ª ed., p. 242

18 de julho de 2013

O desejo

Ilustração de Mariana Kalacheva

O desejo, o aéreo e luminoso
e magoado desejo latia ainda;
não sei bem em que lugar
do corpo em declínio mas latia;
bastava abrir os olhos para ouvir
o nasalado ardor da sua voz:
era a manhã trepando às dunas,
era o céu de cal onde o sul começa,
era por fim o mar à porta - o mar,
o mar, pois só o mar cantava assim.

Eugénio de Andrade, in O outro nome da terra

17 de julho de 2013

Há dias

Ilustração de Laimonas Smergelis


Há dias em que julgamos 
que todo o lixo do mundo nos cai
em cima. Depois 
ao chegarmos à varanda avistamos 
as crianças correndo no molhe 
enquanto cantam. 
Não lhes sei o nome. Uma 
ou outra parece-se comigo. 
Quero eu dizer: com o que fui 
quando cheguei a ser
luminosa presença da graça, 
ou da alegria. 
Um sorriso abre-se então 
num verão antigo. 
E dura, dura ainda. 


                        Eugénio de Andrade, in Os lugares de Lume

16 de julho de 2013

Amigo

Ilustração de Mariana Kalacheva

Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra amigo.

Amigo
é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,    
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

Amigo
(recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
Amigo é o contrário de inimigo!
Amigo é o erro corrigido,
Não
o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada.

Amigo
é a solidão derrotada!


Amigo
é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
Amigo vai ser, é já uma grande festa!



Alexandre O'Neill

14 de julho de 2013

Até ao fim

Ilustração de Iraville Deviantart


Mas é assim o poema: construído devagar,
palavra a palavra, e mesmo verso a verso,
até ao fim. O que não sei é
como acabá-lo; ou, até, se
o poema quer acabar. Então, peço-te ajuda:
puxo o teu corpo
para o meio dele, deito-o na cama
da estrofe, dispo-o de frases
e de adjectivos até te ver,
tu,
o mais nu dos pronomes. Ficamos
assim. Para trás, palavras e versos,
e tudo o que
não é preciso dizer:
eu e tu, chamando o amor
para que o poema acabe.



Nuno Júdice, in Pedro lembrando Inês, D. Quixote, 2001, p. 25


Eterno e efémero


Ilustração de Maria Wernicke



Tudo morre, mesmo o eterno. O que dizer do efémero?



Eduardo Lourenço, "Prefácio à edição portuguesa" in 

Christiane Zschirnt, Livros - Tudo o que é preciso ler, Casa das Letras

13 de julho de 2013

Biblioteca ideal

Ilustração de Aris

Todos sonhamos com uma espécie de "biblioteca ideal", onde as criações mais altas e ainda vivas da cultura humana nos sejam acessíveis.


Eduardo Lourenço, "Prefácio à edição portuguesa" in 
Christiane Zschirnt, Livros - Tudo o que é preciso ler, Casa das Letras

11 de julho de 2013

Feminina natureza

Ilustração de Lily Greenwood 

A respiração dos bosques tinha algo de feminino, espraiando-se lânguida sobre os campos. Os murmúrios de pássaros e folhagens eram suaves promessas incumpridas roçagando na pele e o som da água nas levadas era um riso cristalino de mulher.


Miguel Miranda (2013), in A Paixão de K, Porto Editora, 1ª ed., p. 133

10 de julho de 2013

Amor flamenco

Ilustração de Jon Reinfurt


O coração batia-lhe ao ritmo dos tacões do Pepe, o flamenco, sapateando um solo de guitarra de Paco de Lucia. O amor é um sentimento bailarino, gutural, cadenciado a palmas e castanholas interiores.  
                                                           
 Miguel Miranda (2013), in A Paixão de K
Porto Editora, 1ª ed., p. 134









9 de julho de 2013

9 de julho

Ilustração de Alessia Girasole



Pus um chapéu em cima da flor por causa do sol.
A minha mãe não gostou.



Afonso Cruz, "9 de Julho" in O livro do ano 

7 de julho de 2013

Tudo é semente

 
 
 

Ilustração de Young Ju Choi
 
 
Tudo é semente.
 
in Fragmentos de Novalis (seleção, tradução e desenhos de Rui Chafes),
 
 Assírio & Alvim, 2000, 2ªed., p. 49

Romance da vida

 
 
A vida não deve ser um romance que nos é oferecido, mas sim um romance por nós feito.
 
in Fragmentos de Novalis 
Ilustração de Young Ju Choi

6 de julho de 2013

Gigante ou pigmeu?

Ilustração de Chuckometti

Ao vermos um gigante, devemos examinar a posição do sol, primeiro - e atentar se não será apenas a sombra de um pigmeu.


in Fragmentos de Novalis (seleção, tradução e desenhos de Rui Chafes),
 Assírio & Alvim, 2000, 2ªed., p. 111

5 de julho de 2013

Sonho e poesia

Ilustração de Dilka Bear

O sonho é, frequentemente, significativo e profético, porque ele é um efeito da alma da Natureza - e por isso baseado na ordem das associações. Ele é, como a Poesia, significativo - mas também por isso mesmo, significativo sem regras - inteiramente livre.


in Fragmentos de Novalis (seleção, tradução e desenhos de Rui Chafes), Assírio & Alvim, 2000, 2ªed., p. 111

4 de julho de 2013

Teclas de poesia

Ilustração de Akira Kusaka

O poeta utiliza as coisas e as palavras como teclas e toda a poesia repousa sobre uma activa associação de ideias - uma espontânea, deliberada e ideal produção do acaso.

in Fragmentos de Novalis (seleção, tradução e desenhos de Rui Chafes), Assírio & Alvim, 2000, 2ªed., p.111

2 de julho de 2013

Chuva ou lágrimas?

Ilustração de Csil Cb


O bairro de Notting Hill era um mar de tranquilidade na paisagem lunar da cidade. Um oásis de calma, onde a chuva fazia parte do condomínio...

"A chuva são lágrimas em autogestão."

Este pensamento ocorria-lhe enquanto as bátegas lhe escorriam pelo rosto, ao atravessar a rua em direção a casa, todos os dias. 

"Não consigo chorar. Bendita chuva, que chora por mim."



Miguel Miranda (2013), in A Paixão de K, Porto Editora, 1ª ed., p. 42


1 de julho de 2013

Emoção e arte

Os momentos de profunda tristeza eram incapazes de o fazer lacrimejar. Havia um qualquer bloqueio emocional que lhe continha o choro. Talvez se chorasse fosse mais feliz, nunca o poderia saber. Estava condenado a carregar as mágoas dentro do peito, sem as poder alijar, chorando. Andar à chuva causava-lhe uma sensação de pranto e de libertação, mitigando-lhe a ausência de lágrimas. Postado à janela, observava o desvelo da chuva, esmagando-se nos passeios e nos portais das casas, num contagiante efeito catártico.

Picasso, La femme qui pleure
Entrou numa sala onde tinha exposto um quadro de Picasso: La Femme qui Pleure. 
                                                                                   

Miguel Miranda (2013), in A Paixão de K, Porto Editora, 1ª ed., pp. 42-43

30 de junho de 2013

Glorita

Ilustrações de Alberto Godoy

Sorriu, o pequeno gesto de escolher um charuto fazia-o recuar até Havana, numa vertigem. 



Conhecera Glorita numa esquina. A sua beleza era hipnótica, não precisava de falar para arranjar clientes. Perfecto Cuadrado seguiu-a pela escadaria manhosa e insalubre acima, num prédio escuro e bolorento com fios elétricos pendendo das paredes, galinhas cacarejando nas varandas, um rego de água duvidosa correndo ao longo do corredor imerso na penumbra. Ele tateou o bolso das calças, assegurando-se de que trazia consigo o rolo de notas. Esquecera-se de perguntar o preço, a beleza da mulher fizera-lhe esquecer a introdução básica para início de conversa com uma prostituta. Glorita desengonçou a porta e avançou, fazendo sinal para que a seguisse. Enfeitiçado pelo seu corpo violão, pelo movimento ondulante das nádegas perfeitas, ele deixou-se conduzir até ao quarto. 

                                                          Miguel Miranda (2013), in A Paixão de K, Porto Editora, 1ª ed., p. 48