Número total de visualizações de páginas

12 de janeiro de 2014

As gaivotas

Ilustração de Alice Tams 


As gaivotas. Vão e vêm. Entram

pela pupila.

Devagar, também os barcos entram.

Por fim o mar.

Não tardará a fadiga da alma.

De tanto olhar, tanto

olhar.

Eugénio de Andrade, in Rente ao dizer

O olhar

Ilustração de Claude Theberge

Eu sentia seus olhos beber os meus;

longamente bebiam, bebiam;

bebiam

até não me restar nas órbitas nenhuma

luz, nenhuma água,

nem sequer o sinal de neles ter chovido

naquele inverno.

Eugénio de Andrade, in Rente ao Dizer

10 de janeiro de 2014

Humor de Mandela

Ilustração de Eric Comstock

Sabe, eu gosto que as pessoas estejam descontraídas pois, mesmo quando se está a discutir um assunto sério, a descontracção é muito importante porque nos encoraja a pensar; é por isso que gosto de dizer piadas, mesmo quando estou a examinar situações difíceis. Porque, quando as pessoas estão descontraídas, elas conseguem pensar como deve ser.


The Nelson Mandela Foundation in As palavras de Nelson MandelaObjectiva, 2012, 1ª ed., p. 199

8 de janeiro de 2014

Filosofia do amor

Ilustração de Mariana Kalacheva


Enquanto esperas que te dêem o troco, 
tomo nota do teu perfil sob a cortina
dos cabelos recortados na linha em que testa
e sobrancelhas se juntam, deixando apenas
um fragmento de pele por entre uma 
breve abertura da franja. Aí,
nesse caminho entre o balcão e a mesa,
trazendo o tabuleiro em que pousaste
o copo e a bebida, atravessas a fronteira
entre o espaço de um desenho abstracto,
que comecei no caderno da minha cabeça,
e a realidade de um fim de tarde que me 
Ilustração de Suzanne Carpenter
fez pensar na definição filosófica
do amor como pura disjunção, ou seja,
essa dissociação que os filósofos fazem
da unidade dos amantes, o que 
os leva a considerar que tudo nasce
da diferença, da separação
entre um e o outro. Mas enquanto bebias
o sumo, sentia-o correr na minha garganta,
como se a vida fosse uma prova do
contrário do que dizem os filósofos, pelo
menos neste preciso ponto em que
nos sentimos um como o outro.

  Nuno Júdice, in Navegação de acaso, D. Quixote, 2013, p. 24

7 de janeiro de 2014

O silêncio mais profundo

Ilustração de Mike Worral


Não creio que exista no mundo um silêncio mais profundo que o silêncio da água.

José Saramago, in As pequenas memórias, Caminho, 2006, p.86

5 de janeiro de 2014

A estrela

Eu caminhei na noite
Entre silêncio e frio
Só uma estrela secreta me guiava

Ilustração de Eva Vásquez
Grandes perigos na noite me apareceram
Da minha estrela julguei que eu a julgara
Verdadeira sendo ela só reflexo
De uma cidade a néon enfeitada

A minha solidão me pareceu coroa
Sinal de perfeição em minha fronte
Mas vi quando no vento me humilhava
Que a coroa que eu levava era de um ferro
Tão pesado que toda me dobrava

Do frio das montanhas eu pensei
“Minha pureza me cerca e me rodeia”
Porém meu pensamento apodreceu
E a pureza das coisas cintilava
E eu vi que a limpidez não era eu

E a fraqueza da carne e a miragem do espírito
Em monstruosa voz se transformaram
Disse às pedras do monte que falassem
Mas elas como pedras se calaram
Sozinha me vi delirante e perdida
E uma estrela serena me espantava

E eu caminhei na noite minha sombra
De desmedidos gestos me cercava
Silêncio e medo
Nos confins desolados caminhavam
Então eu vi chegar ao meu encontro
Aqueles que uma estrela iluminava


Ilustração de Jan Pashley

E assim eles disseram: “Vem connosco
se também vens seguindo aquela estrela”
Então soube que a estrela que eu seguia
era real e não imaginada

Grandes noites redondas nos cercaram
Grandes brumas miragens nos mostraram
Grandes silêncios de ecos vagabundos
Em direcções distantes nos chamaram
E a sombra dos três homens sobre a terra
Ao lado dos meus passos caminhava
E eu espantada vi que aquela estrela
Para a cidade dos homens nos guiava

E a estrela do céu parou em cima
De uma rua sem cor e sem beleza
Onde a luz tinha a cor que tem a cinza
Longe do verde azul da natureza

Ali não vi as coisas que eu amava
Nem o brilho do sol nem o da água

Ao lado do hospital e da prisão
Entre o agiota e o templo profanado
Onde a rua é mais triste e mais sozinha
E onde tudo parece abandonado
Um lugar pela estrela foi marcado


Ilustração de Jan Pashley

Nesse lugar pensei: “Quanto deserto
Atravessei para encontrar aquilo
que morava entre os homens e tão perto”


Sophia de Mello Breyner, Livro Sexto II A Estrela, in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 405

Reis Magos ou Menino Jesus?

Ilustração de Carolina Aloy
Nesse tempo os Reis Magos ainda não existiam (ou sou eu que não me lembro deles) nem havia o costume de armar presépios com a vaca, o burro e o resto da companhia. Pelo menos na nossa casa. Deixava-se à noite o sapato ("o sapatinho") na chaminé, ao lado dos fogareiros de petróleo, e na manhã seguinte ia-se ver o que o Menino Jesus lá teria deixado. Sim, naquele tempo era o Menino Jesus quem descia pela chaminé, não ficava deitado nas palhinhas, de umbigo ao léu, à espera de que os pastores lhe levassem o leite e o queijo, porque disto, sim iria precisar para viver, não do ouro-incenso-e-mirra dos magos, que, como se sabe, só lhe trouxeram amargos de boca.

José Saramago, in As pequenas memórias, Caminho, 2006, p. 114

4 de janeiro de 2014

Proposta

Ilustração de Luís Silva

Há um certo traço de exactidão
nos adjectivos que procuro com
o aparo da palavra. A tinta fixa
o perfil do rosto com um som
de vogais mais claras, e é como se
ouvisse o riso que se solta da
boca ao ouvir a expressão desta
ideia. Mas também uso a régua
do verso para que a imagem fique
a direito na página, e nenhum risco
perturbe o desenho. O papel está
no fim, o edifício, o poema, ou
esse objecto artesanal que sai
perfeito das mãos do oleiro, é
afiado pela consciência de
que só o que é exacto sobrevive
no ouvido e canta, com a lentidão
com que se faz o amor, a concepção
da beleza que aqui permanece.


  Nuno Júdice, in Navegação de acaso, D. Quixote, 2013, p. 80

3 de janeiro de 2014

A manhã do poema

Ilustração de Marie Cardouat 


Nasceu de uma colheita de espumas azuis, e 
encho a cesta do horizonte com as espigas maduras
do seu coral submerso. Como as asas decepadas
das grandes aves que se ferem numa combustão
de nuvens, as palavras caem no chão da estrofe
para que as separe, e junte as que conservaram
o sopro húmido da tua voz ao som das foices
que avançam contra o sol, desbastando a folhagem
da memória. Em vez de correr contra o tempo,
separo de entre esses ramos de imagens aquelas que
me ditaram os versos mais obscuros, a luz
de acaso que deles surgia, em cintilações de sílaba,
e um reflexo de madrugada na face liberta
de uma lenta sombra. E carrego essa cesta
como se regressasse de uma vindima de emoções,
seguindo o ritmo da frase que se escreve
na interrupção das vagas, e o vento derramou
no ouvido dos amantes.


                       Nuno Júdice, in Navegação de acaso, D. Quixote, 2013, p. 72

2 de janeiro de 2014

Tecer bailados


Ilustração de Marie Cardouat 

Quem como eu em silêncio tece
Bailados, jardins e harmonias?
Quem como eu se perde e se dispersa
Nas coisas e nos dias?

Sophia de Mello Breyner, Dia do Mar IV, in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 120

1 de janeiro de 2014

As flores

Ilustração de Marie Cardouat

Era preciso agradecer às flores
Terem guardado em si,
Límpida e pura,
Aquela promessa antiga
De uma manhã futura.

Sophia de Mello Breyner Andresen, No tempo dividido, in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 293

31 de dezembro de 2013

Os nossos dedos abriram mãos fechadas

Ilustrações de Jan Pashley

Os nossos dedos abriram mãos fechadas
Cheias de perfume
Partimos à aventura através de vozes e de gestos
Pressentimos paixões como paisagens
E cada corpo era um caminho.
Mas um se ergueu tomando tudo
E escorreram asas dos seus braços.

Florestas, pântanos e rios,
Viajámos imóveis debruçados,
Enquanto o céu brilhava nas janelas.



E a cidade partiu como um navio
Através da noite.

Sophia de Mello Breyner, Coral, in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 172

29 de dezembro de 2013

O Menino

Ilustração de Laimonas Smergelis
Neste solstício de Inverno ele vai nascer 

algures no Mundo entre ruínas 

no lugar do não ser ele vai ser 

deitado nas palhinhas sobre as minas 

em todos os meninos o menino 

muçulmano judeu cristão 

o mesmo coração e um só destino.


Manuel Alegre, 2009


Natal


Acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.

Era gente a correr pela música acima.

Uma onda uma festa. Palavras a saltar. 




Eram carpas ou mãos. Um soluço uma rima.

Guitarras guitarras. Ou talvez mar.

E acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.

Na tua boca. No teu rosto. No teu corpo acontecia.



No teu ritmo nos teus ritos.

No teu sono nos teus gestos. (Liturgia liturgia).

Nos teus gritos. Nos teus olhos quase aflitos.

E nos silêncios infinitos. Na tua noite e no teu dia.

No teu sol acontecia.





Era um sopro. Era um salmo. (Nostalgia nostalgia).

Todo o tempo num só tempo: andamento

de poesia. Era um susto. Ou sobressalto. E acontecia.

Na cidade lavada pela chuva. Em cada curva

acontecia. E em cada acaso. Como um pouco de água turva

na cidade agitada pelo vento.





Natal Natal (diziam). E acontecia.

Como se fosse na palavra a rosa brava

acontecia. E era Dezembro que floria.

Era um vulcão. E no teu corpo a flor e a lava.

E era na lava a rosa e a palavra.

Todo o tempo num só tempo: nascimento de poesia.



Ilustrações de Laimonas Smergelis



Manuel Alegre

28 de dezembro de 2013

Inventar o sonho

Ilustração de João Nasi Pereira

Quando não somos nós a inventar o sonho, é ele que nos inventa a nós.


Mia Couto, in Mar me quer, Caminho, 2013, 14ª ed., p. 16

24 de dezembro de 2013

Pai Natal

Ilustração de Christine Thouzeau

O respeitável ancião, com o seu capuz até aos olhos, todo salpicado de neve, as mãos escondidas nas largas mangas de frade, o olho maganão e jovial, esgarça a boca num riso de felicidade sem fim, e as suas enormes barbas de algodão pendem-lhe até aos pés. Todas as crianças o querem abraçar, e ele não se recusa, porque é indulgente.

                                                                        Eça de Queirós, in O Natal, Guimarães Editores, 2009, p. 8

A poesia do Natal...

Ilustração de Sarah Hoyle



E toda a poesia do Natal está justamente nessas janelas resplandecendo na noite nevada.


Eça de Queirós, in O Natal, Guimarães Editores, 2009, p. 5

23 de dezembro de 2013

Poema e silêncio

Ilustração de Daniela Giarratana

Talvez a primeira coisa que o poema transmite seja realmente a necessidade do silêncio, de mergulhar numa experiência, de uma linguagem que está para lá da palavra.


         José Tolentino Mendonça, "A arte do silêncio" in JL nº 1127, de 11 a 24 de dezembro de 2013, p. 9

O endereço do poema

Ilustração de Katja Saario


...o endereço do poema é o silêncio.


José Tolentino Mendonça, "A arte do silêncio" in JL 

nº 1127, de 11 a 24 de dezembro de 2013, p. 9