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6 de junho de 2015

Conversa nocturna

Talvez a noite me encontre um dia. Sentar-me-ei com ela, a conversar. 

Ilustrações de Pinwheel Bunny 

Perguntar-me-á: "Quem és?" - "Um dos habitantes", responderei; mas sem ter a certeza disso. Entre a noite e o dia, quem pode escolher, ao certo, o seu lugar? E ela há-de insistir, adivinhando a minha dúvida. Então, aproximar-me-ei dela, pegarei nas suas mãos de treva, e puxá-la-ei para mim. "E tu, quem és?" E ela ficará em silêncio, pesada e nocturna, como se a morte fosse a sua segunda natureza. 



"Amo-te", digo-lhe. E a noite dissolver-se-á em mim, até nascer o dia.


                                                        Nuno Júdice, in O fruto da gramática, 2015, 2ª ed., p. 55

3 de junho de 2015

O fogo que me deixaste

Ilustração de Mamzelle Roüge

De noite, quando o frio entra pelas casas, e um resto de solidão gela o fundo da alma, aqueço-me com o fogo que me deixaste.

De manhã, recolho as suas cinzas.


Nuno Júdice, "Oito fragmentos" in O fruto da gramática, 2015, 2ª ed., p. 89 (fragmento 8) 

1 de junho de 2015

A menina do laranjal

Ilustração de 度薇年 


Era um laranjal de folhas verdes, brilhantes. Como se um pincel com verniz as tivesse pintado uma a uma. E um dia veio uma menina pelo laranjal e sentou-se debaixo de uma laranjeira. Tinha os cabelos negros e caídos até aos ombros e um avental de flores amarelas. 
E sentou-se e abriu um livro. Era um livro de poemas: poemas são palavras que nos lembram que somos vivos, que temos olhos, ouvidos, paladar, duas mãos que poisam em troncos rugosos, na seda da própria pele. 

E a menina começou a ler. O perfume da terra misturava-se com o perfume das folhas do laranjal. Mas eram só folhas? Que perfume... 

(...)
Ilustração de Nataliya Derevyanko

E a menina ri. Senta-se de novo debaixo de uma laranjeira. 
Tem ainda uma grinalda de flores brancas nos cabelos negros. 
E o livro está fechado sobre o avental de flores. O livro de poemas. 


Matilde Rosa Araújo, "A menina do laranjal", in O Sol e o Menino dos Pés Frios, 
Livros Horizonte, 1998, 9ª ed. pp. 51, 53

31 de maio de 2015

Livro de água

Claude Monet, Nenúfares

Fecho as páginas da noite. E
um livro de luz fica-me nas mãos,
queimando-me os dedos e os olhos
com o seu quente fulgor.

Ponho esse livro numa estante
lacustre. As suas folhas cobrem rãs
e nenúfares; e a música da água
inunda-o, apagando o seu fogo.

Ninguém sabe o que está nesse
livro; que obscuras frases o enchem
de inquietação; que luminosas
conclusões o libertam de sombra.

Ilustração de Ančka Gošnik Godec

Busco o enigma do seu título
- exíguo retrato de um rosto
passado, em cuo rasto me perco,
engano de rumo nas entranhas

do nome.

                
                                   Nuno Júdice, in O fruto da gramática, D. Quixote, 2015, 2ª ed., p. 91


29 de maio de 2015

Receita poética

            
Ilustração de Gurbuz Dogan Eksioglu


Desfaçam uma batata, depois de bem
cozida, num prato de água quente. Não ponham
sal, que faz mal à saúde, nem azeite, que
está caro. Partam a côdea aos pedaços e
deitem-na no prato. Se houver ervas à volta,
nem que sejam urtigas, também servem
para dar sabor. Se não houver, pensem
nelas, e juntem-lhe a memória de uma rodela
de chouriço. Mas não muito, porque até
a memória está pela hora da morte. Depois,
soprem na sopa: não vale a pena comê-la
muito quente, o sabor perde-se no queimado
da língua. Comam as côdeas de pão com
tempo e proveito: é pão que já tem uns
dias, e que deveria ter sido lançado
aos pombos, mas os pombos já foram
comidos por quem se apressou a
apanhá-los. E depois do pão, passem
ao caldo: e comam devagarinho, mesmo
que já esteja frio. E quando acabarem,
consolem-se com um único
pensamento: amanhã pode
não haver mais!

Nuno Júdice,"Sopa de pedra (variante)" in O fruto da gramática, D. Quixote, 2015, 2ª ed., p. 40

25 de maio de 2015

Arte(s) poética(s)

Ilustração de Bella Sinclair


em boa verdade houve tempo em que tive uma
                                           ou duas artes poéticas,
agora não tenho nada:
sento-me, abro um caderno, pego numa esferográfica
                                           e traço meia dúzia de linhas:
às vezes apenas duas ou três linhas;
outras, vinte ou trinta:
houve momentos em que fui apanhado neste jogo e cheguei
                          a encher umas quantas páginas do caderno
aconteceu também por vezes que o papel pareceu
                                                                    estremecer,
mas o mundo, não: nunca senti que o mundo estremecesse
                                              sob as minhas palavras escritas,
o que já senti, e é de facto um pouco estranho, foi isto:
enquanto escrevia, o mundo parecia deslocar-se,
e quando eu chegava ao fim das linhas escritas,
sabia que estava tudo feito,
sentia que deveria morrer
mas, como se vê, nunca o mais simples atingiu em mim a
                                                        sua própria profundidade


Herberto Helder, in Poemas Canhotos, Porto Editora, 2015, pp. 18-19

24 de maio de 2015

Sustentar o espírito

Ilustração de Jing Jing Tsong

Os acontecimentos são ondas que ameaçam o espírito mas também o sustentam.

Hugo von Hofmannsthal, in Livro dos amigos, Assírio&Alvim, 2002, p. 73

23 de maio de 2015

Cinco destinos

Ilustração de 度薇年 

Cinco destinos guiam o homem: a sua natureza espiritual, o seu corpo, o seu povo, a sua pátria, a língua: elevar-se acima dos cinco é atingir a condição divina.


  Hugo von Hofmannsthal, in Livro dos amigos, Assírio&Alvim, 2002, p.61

22 de maio de 2015

Saber é pouco


Ilustração de 孟楠楠


Saber é pouco; 

saber na relação exacta é muito, 

saber no ponto exacto é tudo.


                         Hugo von Hofmannsthal, in Livro dos amigos, Assírio&Alvim, 2002, p. 64

21 de maio de 2015

Os melhores momentos da vida

Ilustração de Luís Alves


Os melhores momentos da vida são aqueles em que o indivíduo compreende a sua situação na vida; esse sentimento pode intensificar-se até ao mágico, e isso sem nada que seja egoísta, sem qualquer ambição. 


Hugo von Hofmannsthal, in Livro dos amigos, Assírio&Alvim, 2002, p. 72

20 de maio de 2015

O recheio da existência humana

Ilustração de Sernur Isik

De meros vazios se constrói o recheio da existência humana.


                                          Hugo von Hofmannsthal, in Livro dos amigos, Assírio&Alvim, 2002, p. 72



19 de maio de 2015

Sonho ou poesia?

Ilustração de Sernur Isik


Ao dizer algo de condensado sobre a realidade, aproximamo-nos já do sonho, ou antes, da poesia.

                               
                                                    Hugo von Hofmannsthal, in Livro dos amigos, Assírio&Alvim, 2002, p. 72


18 de maio de 2015

Criatividade

Ilustração de Cinta Vidal


Não é conhecer muitas coisas mas sim pôr muitas coisas em contacto umas com as outras que constitui um primeiro grau de criatividade.

Hugo von Hofmannsthal, in Livro dos amigos, Assírio&Alvim, 2002, p. 72

A amada nas altas montanhas


Ilustração de Bella Sinclair

a amada nas altas montanhas
o amador ao rés das águas




Ilustração de Chichi Huang



Herberto Helder, in Poemas canhotos, Porto Editora, 20015, p. 7


17 de maio de 2015

Onde esconder a profundeza?

Ilustração de Laimonas Smergelis

É preciso esconder a profundeza. Onde? Na superfície.


Hugo von Hofmannsthal, in Livro dos amigos, Assírio&Alvim, 2002, p. 74

14 de maio de 2015

Ser actor e ser famoso

Quando os mais novos vêm dizer-me: "Eu quero ser actor porque quero ser famoso", acho que há qualquer coisa que já está ali ao contrário de tudo e, portanto, aquela pessoa não me interessa nada. 

Ilustração de Dani Padrón

"Então por que é que queres ser actor?", podem perguntar vocês. Eu quero ser actor porque me permite brincar, quero dizer, permite-me a construção de um terreno de relação com os outros que tem regras diferentes, que eu invento naquela altura e com aquelas pessoas.


Luís Miguel Cintra, in Cinco conversas em Almada, 
O sentido dos mestres, 2015, 1ª ed., pp. 59-60

12 de maio de 2015

Casa da Cerca

Ilustração de Elena Odriozola

Julho chegou a Almada como quase sempre chega: soalheiro e promissor. Na Casa da Cerca, onde as tardes prometem mais do que noutro sítio qualquer, há quem deambule sozinho no pátio da entrada e quem espaireça em grupo no terraço das traseiras. Dali, a vista sobre Lisboa é desafogada e a brisa sopra com mais força. Os olhos encontram descanso no azul do Tejo e na luz da capital, há séculos elogiada. 


Ângela Paredlha, "Para uma vida mais verdadeira", in Luís Miguel Cintra, Cinco conversas em Almada, 
O sentido dos mestres, 2015, 1ª ed., p. 11

11 de maio de 2015

Dizes-me: tu és mais alguma coisa

Dizes-me: tu és mais alguma coisa
Que uma pedra ou uma planta.
Dizes-me: sentes, pensas e sabes
Que pensas e sentes.
Então as pedras escrevem versos?
Então as plantas têm ideias sobre o mundo?

Ilustrações de Dima Dmitriev


Sim: há diferença.
Mas não é a diferença que encontras;
Porque o ter consciência não me obriga a ter teorias sobre as coisas:
Só me obriga a ser consciente.




Se sou mais que uma pedra ou uma planta? Não sei.
Sou diferente. Não sei o que é mais ou menos.





Ter consciência é mais que ter cor?
Pode ser e pode não ser.
Sei que é diferente apenas.
Ninguém pode provar que é mais que só diferente.




Sei que a pedra é a real, e que a planta existe.
Sei isto porque elas existem.
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram.
Sei que sou real também.
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram.
Embora com menos clareza que me mostram a pedra e a planta.
Não sei mais nada.



Sim, escrevo versos, e a pedra não escreve versos.
Sim, faço ideias sobre o mundo, e a planta nenhumas.
Mas é que as pedras não são poetas, são pedras;
E as plantas são plantas só, e não pensadores.
Tanto posso dizer que sou superior a elas por isto,
Como que sou inferior.
Mas não digo isso: digo da pedra, «é uma pedra»,
Digo da planta, «é uma planta»,
Digo de mim «sou eu».
E não digo mais nada. Que mais há a dizer?




Alberto Caeiro, in Eu só penso no sol - Poesia de Alberto Caeiro, Alma azul, pp. 13-14

10 de maio de 2015

Muitas vezes Deus prefere


Ilustração de Aurélie Blanz


Muitas vezes Deus prefere

entrar em nossa casa

quando não estamos



Tolentino Mendonça, in A papoila e o monge, Assírio&Alvim, 2013, p. 40

6 de maio de 2015

Vasco Santana e O Fado do Estudante

Ilustração de Ana Moreira
A figura de Vasco Santana, apresentada na primeira pessoa como, de resto, todas as biografias da coleção Chamo-me... da Didáctica Editora, torna esta obra juvenil muito divertida, pois estabelece-se uma verdadeira empatia com o protagonista (narrador autodiegético), apesar de não existir exigência literária...

Porém, é fundamental para os mais jovens conhecerem o ídolo português de A Canção de Lisboa, O Pai Tirano, O Pátio das Cantigas, da comédia e do teatro portugueses em geral e inclui O Fado do Estudante, aqui reproduzido em várias interpretações musicais.






  

4 de maio de 2015

Eterna juventude

Ilustração de Maria Lavezzi

A voz envelhece muito devagar, é por isso que as estrelas da rádio se aposentam tão tarde.

                     
                                                                 Juan José Millás, in A mulher louca, Planeta, 2014, 1ª ed., p.75 

3 de maio de 2015

A mãe não gostou

Ilustração de Rozalek




Pus um chapéu em cima da flor por causa do sol.

A minha mãe não gostou.


Afonso Cruz, in O livro do ano,  Alfaguara, 2013

Declaração


               Ilustração de Rima Koussa


Eu, abaixo assinado, não sei o que
hei-de declarar.

Mas posso declarar que foi ontem que eu,
abaixo-assinado, declarei que era hoje que
iria declarar o que tinha de declarar.



Ilustração de Rima Koussa



















E declaro hoje que não sei o que declarar no dia 
de hoje enquanto amanhã não chega.

Eu abaixo-assinado declaro que
amanhã terei de declarar tudo o que tenho
de declarar.

Ontem teria declarado e subscrito
o que tinha de declarar.

E amanhã também iria declarar
todas as declarações do mundo se, quando
amanhã chegar, não descobrisse que amanhã
é hoje.

Por isso é que eu, abaixo-assinado,
declaro que não sei declarar hoje, que é o amanhã
de ontem, tudo o que tenho de declarar.

E eu, abaixo-assinado, declaro solenemente
por minha honra que só não declaro nada hoje porque
hoje é o amanhã de ontem,
e também não vou declarar nada amanhã porque
amanhã é o hoje em que irei deixar para depois
de amanhã o que tenho de declarar.


Ilustração de Rima Koussa













E cumpra-se esta declaração que vou datar
de amanhã, sabendo que só a poderei escrever
depois de amanhã, quando ontem for o amanhã
em que a vou adiar para ontem.


Nuno Júdice, in A Matéria do Poema, D. Quixote, 2008, 1ª ed., pp. 49-50

2 de maio de 2015

Frases mentirosas?

- Você é escritor, verdade?
- Sim - diz Millás intimidado.

- Saberia então dizer-me por que a frase "sou uma frase incorrecta" é correcta, enquanto "sou um frase correcto" é incorrecta?

Ilustração de Angela Marchetti
(...)
- Bom, "sou uma frase incorrecta" é correcta, formalmente falando, porque todos os seus elementos concordam. Outra coisa é que minta acerca de si mesma. Em "sou um frase correcto", ao contrário, há problemas de concordância. "Um" deveria ser "uma" e "correcto" deveria ser "correcta".

- Mas também mente - diz Julia.
- Também mente - aceita Millás.


                                          Juan José Millás, in A mulher louca, Planeta, 2014, 1ª ed., pp. 82-83 

29 de abril de 2015

A roupa dos substantivos

Ilustração de Rossana Bossù

...adjectivos são acrescentos ou adornos que pomos ao substantivo para dizer algo dele. O adjectivo é para o substantivo o que a roupa é para um actor. Como os actores vão a muitas festas, a muitos jantares, muitas entregas de prémios, precisam de muitas camisas, de muitos casacos, muitas saias e calças, muitos sapatos. Subiu-lhes a fama à cabeça e não podem vestir o mesmo traje dois dias seguidos. Há substantivos simples, que vão em corpo, mas a maioria gosta de levar por cima um adjectivo.


Juan José Millás, in A mulher louca, Planeta, 2014, 1ª ed., p. 105

28 de abril de 2015

Consultório de frases

Ilustração de Dainius Šukys
Julia não tinha respostas para a maioria das questões que as frases lhe colocavam, mas elas continuavam a acudir ao seu "consultório" e atendia-as a todas, tentando não decepcioná-las nem decepcionar-se, pois ocupava-se do estudo da gramática com uma seriedade com que nunca antes havia abordado projecto algum. Afortunadamente, muitas apresentavam problemas simples de resolver. A O meu cão está zarolha, por exemplo, doíam-lhe as articulações porque, como Julia advertiu logo em seguida, cão e zarolha não concordavam. Explicou à frase que essa falta de concordância acabava por ser como introduzir a peça de um quebra-cabeças num buraco que não lhe correspondesse.

Juan José Millás, in A mulher louca, Planeta, 2014, 1ª ed., p. 21

27 de abril de 2015

Microcirurgia das meias

Após pronunciar estas palavras, Mllás medita uns instantes (...). Quanto à imagem da meia, diz que lhe vem à memória o gesto antigo das mães ao cerzi-las com a ajuda daquele misterioso ovo de madeira que havia em todas as casas. O cerzido era uma arte de costura que consistia em consertar um rompimento de tal modo que não se notasse a reparação. (...) 

Ilustração de Marie Desbons

O cerzido tinha algo de microcirurgia na medida em que era preciso tapar o buraco unindo os fios soltos da rotura como o cirurgião encaixa os capilares desfiados de uma ferida.


Juan José Millás, in A mulher louca, Planeta, 2014, 1ª ed., p. 73

26 de abril de 2015

A psicose e as meias

A verdade, acrescenta Millás, é que nunca chegou a entender, no sentido mais profundo, em que consistia a psicose, que tanto o atraía e perturbava, embora intuísse que se tratava de um buraco aberto na personalidade como uma malha rota numa meia.


Ilustração de Stela Woo

Esse buraco, que era um buraco do eu, devorava tudo o que se acercava das suas bordas num esforço inútil de substituir a ausência de qualidade por toneladas de quantidade.

                                                               Juan José Millás, in A mulher louca, Planeta, 2014, 1ª ed., p. 73



24 de abril de 2015

Uma menina está perdida no seu século à procura do pai


Que século? Que pai? Que menina?
Esta obra de Gonçalo M. Tavares é uma alegoria à cidade da indiferença: à diferença (Hanna, a menina, sofre de trissomia 21) e ao horror.

Ilustração de Paulina Góra (Antosz)


Paradoxalmente, num hotel os quartos não têm números mas nomes: nomes de campos de concentração, não permitindo o esquecimento nem a indiferença face ao holocausto.

Ilustração de Paulina Góra (Antosz)

Marius encontra a menina perdida. Onde a levará? Encontrará ela o pai? Como terminará esta história? 

Ilustração de Paulina Góra (Antosz)

É necessário perdermo-nos e dissolvermo-nos na leitura de Uma menina está perdida no seu século à procura do pai. 

Mª Carla Crespo

23 de abril de 2015

Pesadelo com livros

Ilustração de Tony Diterlizzi
Outro pesadelo.

Vejo o mesmo grupo de adolescentes, com a idade de Hanna (mas a ela não a vi), com catorze, quinze anos, todos com trissomia 21, a deitarem para o fundo de um poço livros em diferentes línguas. Lembro-me perfeitamente de algumas capas, de alguns nomes esquisitos, até de alguns alfabetos absolutamente impenetráveis. As raparigas (a certa altura pareceram-me todas raparigas, com aquela cara semelhante, com saia verde de um uniforme de colégio), as raparigas mandavam para o poço livros em francês, em italiano, em búlgaro, em russo, em inglês, em alemão - e cada livro que chegava lá a baixo, ao fundo do poço, era recebido com o som de uma água enlameada; e eu - que, estranhamente, estava ali, no meio do grupo, a assistir, sem participar, sem fazer nada, aceitando -, eu, então, debruçado sobre o poço, ali estava espantado, era essa a palavra, a ver cada um dos livros primeiro bater com certa força nos pequenos centímetros que ainda restavam de água e, depois, segundo a segundo, a desaparecerem, pelo menos em parte, engolidos pela lama.


Gonçalo M. Tavares, in Uma menina perdida no seu século à procura do pai, Porto Editora, 2014, 1ª ed.,p. 151

20 de abril de 2015

Contra-natura

Ilustração de Liuyi & Shandan


Sempre que os filhos precedem na morte aqueles que os trouxeram ao mundo, a Natureza exige  longo tempo para repor as suas leis.

                                                      Mário Cláudio, in O Fotógrafo e a Rapariga, D. Quixote, 2014, p. 12

19 de abril de 2015

Dom Barómetro e a gulodice

No armazém havia além de mim, do patrão Vasques, e do senhor Soares, que trabalhava como nosso tradutor, o senhor Moreira, o guarda-livros, o senhor Borges, o caixa, os três rapazes, caixeiros de praça, e o moço de recados. Os três rapazes eram o José, o Sérgio e o Vieira, a quem chamávamos o Alfama por morar a Santo Estêvão, e o moço que tinha a graça de António como eu. De quando em quando apareciam os caixeiros-viajantes, o senhor Tomé e o senhor Ernesto, e tínhamos também o gato, o Aladino, constando que fora o senhor Soares quem lhe pusera o nome. 

(...)
Ilustração de Angelo Barile


Embora teoricamente ocupasse o lugar de chefe do tradutor, o senhor Moreira nunca puxava dos galões com ele, nem aliás com ninguém, e apenas censurava a indiferença que o senhor Soares sentia por tudo quanto fosse comida. “Aquilo é uma tristeza”, desabafava o guarda-livros, “o único petisco que lhe passa pelas goelas é uma canja de galinha, e de longe a longe uma postazinha de pescada cozida.” O tradutor parecia não acusar tais brincadeiras, e só muito raramente se divertia a caçoar com o senhor Moreira, alcunhando-o de Dom Barómetro. 


Ilustração de Jennifer Garant

De facto não existia quem como ele se preocupasse com as condições atmosféricas, não porque isso lhe desse qualquer abalo no tocante aos dias da semana, mas porque temia que o almoço dominical, festejo em que depositava as suas alegrias de glutão, se lhe tornasse impossível, devido ao mau tempo.

                                           Mário Cláudio, in Boa noite, senhor Soares, D. Quixote, 2008, 2ª ed., pp.13-15

18 de abril de 2015

Piquenique

Não sei como lanço a vista por cima do pessoal que ali acampava, a merendar, ou a bater a sesta, e que nada tinha a ver com o que quer que fosse que respeitasse ao senhor Soares, e dou com o sujeito, ou com o que se assemelhou ser ele porque as lentes dos óculos redondos chispavam na luz, em mangas de camisa, e encostado a uma manta que entalara entre entre as costas e o tronco de uma oliveira. Diante do senhor Soares alapava-se um cavalheiro, um tipo que eu não conhecia identificar porque a sombra lhe cobria o rosto, e entre ambos distinguiam-se duas garrafas e um embrulho aberto com o que julguei serem figos.

(...)
Ilustração de Alexander Sokht
Ilustração de Philip Giordano 




O que o acompanhava (...) fora um dia, recordei-me então, ao escritório à procura do amigo, e confiara-me um cartão-de-visita (...) que tinha impresso, "Ricardo Reis", e por baixo "Médico", e ainda, escrito à mão, e a tinta preta, "passou por aqui". 





Mário Cláudio, in Boa noite, senhor Soares, D. Quixote, 2008, 2ª ed., pp. 30-31


14 de abril de 2015

Lisboa, aceder a um amanhã

Ilustração de 度薇年 

Lembro-me então daquela Lisboa de cinquenta e dois anos atrás, vista da Graça, ou de São Pedro de Alcântara. Fixo-me nas artérias da Baixa, traçadas a régua e esquadro, e na multidão que se precipita para o Terreiro do Paço, e que se escoa devagar nos barcos que partem para Cacilhas. Está ainda azul o céu, mas paira sobre a cidade um alarme de acabamento, isto como se se houvesse esgotado a esperança que anima as criaturas, e o direito que lhes cabe a aceder a um amanhã.

                           
                 Mário Cláudio, in Boa noite, senhor Soares, D. Quixote, 2008, 2ª ed., pp.47-48