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7 de dezembro de 2014

A lentidão

Ilustração de Aaron Ayumi Piland 



Quando as coisas acontecem depressa demais, ninguém pode ter certeza de nada, de coisa nenhuma, nem de si mesmo.




Milan Kundera, in A lentidão

6 de dezembro de 2014

A experiência do amor


Ilustração de Aaron Ayumi Piland 


Não é a culpa ou a autoflagelação que nos converte. Transforma-nos, sim, a experiência do amor (...). É no confronto com esse amor que mudamos. E por isso a única solidão na qual podemos confiar é a solidão que nos encaminha devagarinho para uma fonte.

Tolentino Mendonça, in A mística do instante – O tempo e a promessa, Paulinas, 2014, col. Poéticas do viver crente , p. 109

5 de dezembro de 2014

Devagarinho até à fonte

Ilustração de Ann Ernández
- Bom dia - disse o principezinho.
- Bom dia - disse o comerciante.
Era um comerciante de pílulas para matar a sede. Toma-se uma por semana e não se tem necessidade de beber.
- Por que vendes isso? - perguntou o principezinho.

- É uma grande economia de tempo - respondeu o comerciante. - Os peritos fizeram cálculos. Poupam-se cinquenta e três minutos por semana.
- E que se faz com cinquenta e três minutos?
- Faz-se o que se quiser...

Ilustração de Kim Minji

- Eu - disse o principezinho, de si para si -, se tivesse cinquenta e três minutos à minha disposição, ia a pé, devagarinho, até alguma fonte... 


Antoine de Saint-Exupéry, in O Principezinho


3 de dezembro de 2014

A vida é o que permanece

Ilustração de Chris Van Allsburg

Há um trabalho a fazer para passar do apego narcisista a uma idealização da vida, à hospitalidade da vida como ela nos assoma, sem mentira e sem ilusão, o que requer de nós um amor muito mais rico e difícil. Esse que é, em grande medida, um trabalho de luto, um caminho de depuração, sem renunciar à complexidade da própria existência, mas aceitando que não se pode demonstrá-la inteiramente.



Ilustração de Mika Nitta


A vida é o que permanece, apesar de tudo: a vida embaciada, minúscula, imprecisa e preciosa como nenhuma outra coisa. A sabedoria é a vida mesma: o real do viver, a existência não como trégua, mas como pacto, conhecido e aceite na sua fascinante e dolorosa totalidade.

                                             Tolentino Mendonça, in A mística do instante – O tempo e a promessa, Paulinas, 2014, col. Poéticas do viver crente , pp. 112-113

2 de dezembro de 2014

O que é um abraço?

Ilustração de Bella Sinclair
     
Se calhar, a primeira forma do primeiro abraço que demos era apenas um agarrar-se para não cair. Porém, pouco a pouco, num processo paciente onde os corpos fazem a aprendizagem de si (e do amor), o abraço deixa de ser uma coisa que tu me dás ou que eu te dou, e surge como um lugar novo, um lugar que ainda não existia no mundo e que juntos encontramos.



Tolentino Mendonça, in A mística do instante – O tempo e a promessa, Paulinas, 2014, col. Poéticas do viver crente , p. 82

1 de dezembro de 2014

Anorexia de afetos

Ilustração de Shinya Okayama

Há um filme de Ingmar Bergman em que uma das personagens é uma rapariga anoréxica - e sabemos como a anorexia é um tipo de desinvestimento vital, que podemos tomar como símbolo de tantos outros. A rapariga vai falar com um médico e ele diz-lhe mais ou menos isto, que também vale para nós: "Olha, há só um remédio para ti, só vejo um caminho: em cada dia, deixa-te tocar por alguém ou por alguma coisa".


Tolentino Mendonça, "Deixa-te tocar"in A mística do instante – O tempo e a promessa, Paulinas, 2014, col. Poéticas do viver crente , pp. 67-68

24 de novembro de 2014

Secretária desarrumada



Gosto de ter a secretária desarrumada. Recortes de jornais, contas por pagar, cartas, papéis com recados, notas, relatórios, fotografias formam um padrão que me desenvolve o raciocínio.

Ilustrações de Juri Romanov

Miguel Miranda, in Dai-lhes, Senhor, o eterno repouso, Porto Editora, 2011, 1ª ed., p. 12

22 de novembro de 2014

A pantera e o oftalmologista

Ilustração de Lim Heng Swee
- O seu caso não é para operar.

(...)

- Mas vai passar a ser. Quero um transplante de olhos. Pago o que for preciso.
Ela era doida, não havia dúvida nenhuma.

- Não. Para quê? É perfeitamente normal. Estas coisas não funcionam assim, há uma ética médica. O dinheiro não compra tudo.

- Ora, ora. Deixe-se de tretas. Se eu quiser uma cara, um nariz, umas mamas novas, isso é aceitável. Uns olhos novos não, porquê?

(...)

- E não quero uns olhos quaisquer. Quero que me transplante olhos de pantera.

                           
Miguel Miranda, "A pantera e o Oftalmologista", in A fome do licantropo e outras histórias, 
Porto Editora, 2014, 1ª ed., p. 99

12 de novembro de 2014

Andar acalma

Andar acalma. A marcha possui uma virtude salutar.

Ilustração de Alberto Ruggieri

O ato de colocar regularmente um pé à frente do outro, acompanhado pelo balançar cadenciado dos braços, a aceleração do ritmo respiratório, a ligeira estimulação do pulso, as atividades da vista e do ouvido necessárias à manutenção do equilíbrio - são ações que impelem o corpo e o espírito para uma convergência irresistível, permitindo que a alma, por muito atrofiada e traumatizada que esteja, cresça e se expanda.

                                                                    Patrick Süskind, in A pomba, Ed. Presença, 2014, 9ª ed., p. 81

9 de novembro de 2014

A pomba

Ilustração de Greg Becker

Quando lhe aconteceu isto da pomba, que de um dia para o outro mudou radicalmente a sua existência, já Jonathan Noel estava com mais de cinquenta anos, havia uns bons vinte anos que levava uma vida igual e sem incidentes e nunca lhe teria passado pela cabeça que ainda lhe pudesse vir a acontecer qualquer coisa de importante senão morrer. E dava-se por muito satisfeito com a sua sorte, pois não gostava de acontecimentos e detestava em particular aqueles que lhe abalavam o equilíbrio interior e perturbavam a ordem externa da vida.

Patrick Süskind, in A pomba, Ed. Presença, 2014, 9ª ed.,p.7

8 de novembro de 2014

O doutor queijo

Ilustração de Kristian Adam


Ela apreciou o especialista. O doutor Roquefort era um homem minúsculo, de cabeça rapada e olhos em fenda, como um monge budista. Tinham-lhe dito que era o melhor, porém, a sua figura era tudo menos impressionante. Se ao menos tivesse cabelos brancos, talvez irradiasse mais sabedoria e incutisse mais confiança. Uma dúvida insidiosa instalava-se nela, seria ele mesmo bom? Gostava de confiar, mas o primeiro impacto não era impressionante. Um médico com nome de queijo, era o que ele era.



             Miguel Miranda, "A pantera e o Oftalmologista", in A fome do licantropo e outras histórias, Porto Editora, 2014, 1ª ed., p. 95

6 de novembro de 2014

O penetra

- Olha a fila, ó penetra!
- É preciso ter lata!
- Entrar assim de calçadeira, à frente de todos!
- Penetra! Seu penetra!


Ilustração de Ellie Horie
O autocarro arrancou e ele sorriu, o dia começava bem.
Saiu duas paragens adiante, sem pagar bilhete. Aplicou o mesmo golpe mais duas vezes e foi andando, sem gastar uma moeda e passando à frente de todos os cordatos passageiros em espera nas paragens.
- Penetra!


Miguel Miranda, "O Penetra compulsivo", in A fome do licantropo e outras histórias, Porto Editora, 2014, 1ª ed., p. 104 


4 de novembro de 2014

Privacidade

O que é o privado nos nossos dias? 


Uma das involuntárias consequências da revolução informática é ter volatilizado as fronteiras que o separavam do público e ter confundido ambos num happening em que todos somos ao mesmo tempo espectadores e atores, no qual nos mostramos reciprocamente exibindo a nossa vida privada e nos divertimos observando a alheia, num strip tease generalizado em que nada já ficou a salvo da mórbida curiosidade de um público depravado pela idiotice.



Ilustração de Daria Petrilli

O desaparecimento do privado, o facto de ninguém respeitar a intimidade alheia, ela ter-se convertido numa paródia que excita o interesse geral e haver uma indústria informativa que alimenta sem tréguas e sem limites esse voyeurismo universal, é uma manifestação de barbárie. Pois com o desaparecimento do domínio do privado muitas das melhores criações e funções do humano deterioram-se e aviltam-se, começando por tudo aquilo que está subordinado ao cuidado de certas formas, como o erotismo, o amor, a amizade, o pudor, as maneiras, a criação artística, o sagrado e a moral.

Mario Vargas Llosa (2012), in A civilização do espetáculo, Quetzal, pp. 150-151

3 de novembro de 2014

O tamanho da mala

Podemos estar a viajar vida fora com uma mala pequena ou uma mala grande. Não conta o tamanho das malas. Se elas estão cheias, porque são realmente pequenas ou porque nós a tornamos assim, teremos de retirar delas alguma coisa se quisermos colocar outras novas no seu lugar. E acontece passarmos a vida nisso: acumulando, esvaziando, acumulando. 

Ilustração de Wonil Suh

A frugalidade não depende do tamanho da mala. 


Ilustração de Jacek Yerka


O viajante frugal é aquele que tomou a decisão prévia de transportar consigo o essencial, deixando sempre na sua bagagem um espaço disponível.   


José Tolentino Mendonça, in A mística do Instante - o tempo e a promessa, Ed. Paulinas, 2014, 
1ª ed., pp. 99-100

2 de novembro de 2014

Os amigos morrem-nos


Os amigos não morrem simplesmente:



morrem-nos, uma força atroz mutila-nos da sua companhia e continuamos a viver com esses vazios entre os ossos.




Luis Sepúlveda, "Jantar com poetas mortos" in A Lâmpada de Aladino e outras histórias para vencer o esquecimento, Porto Editora, 2008, 1ª ed., p. 29

1 de novembro de 2014

O que é a frugalidade?

...a frugalidade não se confunde com a pobreza. 

Ilustração de Abigail Halpin








O que é então a frugalidade? É a escolha do pouco, de viver com pouco, procurando encontrar aí, ou retirar daí, o máximo sentido. 








Ilustração de Marc Potts

A frugalidade desprende-se, distancia-se, ganha consciência crítica, não abdica da sua liberdade. A frugalidade é um estilo. Há uma frase de Henry David Thoreau que a ilumina especialmente. E ela diz: "A riqueza de um homem é proporcional não ao número de bens que ele pode possuir, mas ao número de coisas a que ele pode renunciar".


José Tolentino Mendonça, in A mística do Instante - o tempo e a promessa, Ed. Paulinas, 2014, 1ª ed., pp. 98-99

31 de outubro de 2014

Romeu e Julieta

Ilustração de Gabriela Andrade

Romeu da Baviera era duque; Julieta apenas bela. Como muitas vezes, o poder ajoelhou-se frente à beleza; como sempre, a beleza fingiu resistir, mas logo se rendeu.

Gonçalo M. Tavares, A História de Julieta, a santa da Baviera, in Histórias Falsas, Caminho, 2014, 7ª ed., p. 15

28 de outubro de 2014

A Bíblia é para comer

Ilustração de Fabián Rivas

Literalmente, a Bíblia é para comer.


José Tolentino Mendonça, in A mística do Instante - o tempo e a promessa, Ed. Paulinas, 2014, 1ª ed., p. 85

25 de outubro de 2014

São piores os homens que os corvos

Ilustração de Debi Hubbs

São piores os homens que os corvos. O triste que foi à forca, não o comem os corvos senão depois de executado e morto; e o que anda em juízo, ainda não está executado nem sentenciado e já está comido. 


Pe. António Vieira, Sermão de Santo António aos peixes

24 de outubro de 2014

Corvos

Ilustração de Debi Hubbs




Eu gosto de corvos. São pássaros anunciadores, transmitem-me premonições. Já não aprecio homens-corvo, não sei bem porquê. São arautos de desgraça.



Miguel Miranda, in Dai-lhes, Senhor, o eterno repouso, Porto Editora, 2011, 1ª ed., p. 30

23 de outubro de 2014

Cabeça em ovo de avestruz

Ilustração de Victoria Kirdy


O senhor Ruela, o vendedor e putativo dono do estabelecimento, era um homem com cabeça em ovo de avestruz, que falava sem mover os lábios, como um ventríloquo.




Miguel Miranda, in Dai-lhes, Senhor, o eterno repouso, Porto Editora, 2011, 1ª ed., p. 12-13

22 de outubro de 2014

Bilhete de identidade


Ilustração de Patrick Gonzales 

Os dedos da mão fornecem mais informações do que o bilhete de identidade, podendo revelar a idade, a profissão, a saúde ou doença do portador.

Miguel Miranda, in Dai-lhes, Senhor, o eterno repouso, Porto Editora, 2011, 1ª ed., p. 31

O maravilhoso não escurece

Ilustração de Andy Kehoe



Quando a noite chega o maravilhoso não escurece.



Gonçalo M. Tavares, in 1, Relógio d' Água, 20122, 2ª ed., p. 192

21 de outubro de 2014

Arquitecto

Ilustração de Regina Lukk-Toompere 

Depois da arquitectura


           
                Deslocou-se para o invulgar:



fundou um poema


        
Gonçalo M. Tavares, in 1, Relógio d' Água, 20122, 2ª ed., p. 82

20 de outubro de 2014

Dois mundos

Ilustração de Regina Lukk-Toompere



Repara, são dois mundos:

Não é possível atirar água

à matemática.




Gonçalo M. Tavares, in 1, Relógio d' Água, 20122, 2ª ed., p. 73

19 de outubro de 2014

Braille

Ilustração de Keiko Shibata 



Leio o amor no livro
da tua pele; demoro-me em cada
sílaba, no sulco macio
das vogais, num breve obstáculo
de consoantes, em que os meus dedos
penetram, até chegarem
ao fundo dos sentidos. Desfolho
as páginas que o teu desejo me abre,
ouvindo o murmúrio de um roçar

de palavras que se
juntam, como corpos,
no abraço

de cada frase. E chego ao fim 
para voltar ao princípio, decorando
o que já sei, e é sempre novo
quando o leio na tua pele.


Nuno Júdice, in Geometria variável, D. Quixote, 2005, 1ª ed., p. 79

16 de outubro de 2014

Gritar a rotina


Ilustração de Fabio Rex

A rotina não basta ao coração do homem.


José Tolentino Mendonça, "Do lado do aprisionamento da vida pela rotina" in A mística do Instante - o tempo e a promessa, Ed. Paulinas, 2014, 1ª ed., p. 22

15 de outubro de 2014

Da rotina à surpresa

Ilustração de Julie Paschkis

As rotinas têm um efeito saudável: tornando o quotidiano um encadeado de situações expectáveis, permitem-nos habitar com confiança o tempo. Mas (...) quando tudo se torna óbvio e regulado, deixa de haver lugar para a surpresa. (...) Os nossos olhos sonolentos veem tudo como repetido.

José Tolentino Mendonça, "Do lado do aprisionamento da vida pela rotina" in A mística do Instante - o tempo e a promessa, Ed. Paulinas, 2014, 1ª ed., pp. 21-22

14 de outubro de 2014

Catedral de aromas

Ilustração de Dani Torrent

Por mais que isso seja dez mil vezes mais prático, passar pela frutaria do inodoro hipermercado não é a mesma coisa que atravessar a catedral de aromas de um pomar.

José Tolentino Mendonça, "Do lado do excesso de comunicação" in A mística do Instante - o tempo e a promessa, Ed. Paulinas, 2014, 1ª ed., p. 23

13 de outubro de 2014

Arte do desejo

Ilustração de Alicia Arlandis


O excelente pedagogo que foi Rubem Alves costumava dizer que , "para entrar numa escola, alunos e professores deveriam passar antes por uma cozinha" e aprender que a sabedoria, tal como o paladar, é uma arte do desejo.


José Tolentino Mendonça, "Regressar ao paladar" in A mística do Instante - o tempo e a promessa, Ed. Paulinas, 2014, 1ª ed., pp. 27-28

12 de outubro de 2014

Regressar ao paladar

Ilustração de Amber Alexander

Não é de estranhar a ligação essencial que se costura entre saber e sabor, que a própria etimologia latina confirma (sapere, sapore).

José Tolentino Mendonça, "Regressar ao paladar" in A mística do Instante - o tempo e a promessa, Ed. Paulinas, 2014, 1ª ed., p. 27

10 de outubro de 2014

Fotografia branca

Ilustração de Patrícia Metola


Vejo esta situação, com a nitidez do fotógrafo:
a cabeça pousada na mão direita, um cigarro
preso aos dedos, o olhar perdido em quase
nada. Invento a imagem que se forma
na tua cabeça, a partir desse nada: uma
nuvem; e por dentro dessa nuvem, todas
as formas do sonho. Porém, o céu não
te perturba o pensamento; nem os ventos
que trazem e levam as nuvens, como
barcos, no oceano da tua memória. E
volto à situação inicial: tu, sentada à
mesa, para que eu te pudesse fixar
com a nitidez do fotógrafo, olhas-me,
como se eu estivesse à tua frente; e
o teu olhar apaga o tempo e a distância,
desfocando a imagem, como se o fumo
do cigarro te envolvesse o rosto, e
te trouxesse de volta a mim, como
nuvem, ou sonho, que o vento dissipa.


Nuno Júdice, in As coisas mais simples, D. Quixote, 2007, 2ª ed.,p. 27

8 de outubro de 2014

Chuva ou choro?


Ilustração de Iwasaki Chihiro


Não consigo chorar. Bendita chuva, que chora por mim.


Miguel Miranda, in A paixão de K, Porto Editora, 2013, 1ª ed., p. 42

6 de outubro de 2014

Lágrimas em autogestão

Ilustração de Eun Young Choi

A chuva são lágrimas em autogestão.

Miguel Miranda, in A paixão de K, Porto Editora, 2013, 1ª ed., p. 42







4 de outubro de 2014

Quando o tempo pára


Ilustração de Ofra Amit



Todos os relógios de Havana devem ter parado enquanto durou o beijo abocanhado dos amantes.


Miguel Miranda, in A paixão de K, Porto Editora, 2013, 1ª ed., p.49

A respiração dos bosques

Ilustração de Teagan White


A respiração dos bosques tinha algo de feminino, espraiando-se lânguida sobre os campos. Os murmúrios de pássaros e folhagens eram suaves promessas incumpridas roçagando na pele e o som da água nas levadas era um riso cristalino de mulher.



Miguel Miranda, in A paixão de K, Porto Editora, 2013, 1ª ed., p. 133


2 de outubro de 2014

Livro e personalidade

Ilustração de Cosei Kawa 


Uma mão é um livro aberto sobre a personalidade do portador. 


Miguel Miranda, in Dai-lhes, Senhor, o eterno repouso, Porto Editora, 2011, 1ª ed., p.31

14 de setembro de 2014

Os Maias, um livro filmado



Ilustração de Claude Theberge
Não é o livro que deu um excelente filme, é um filme que glorifica a excelência do livro.


O filme cria mesmo um artefacto, teatral ou operático, para destacar a palavra. Os painéis de João de Queirós da cidade de Lisboa, mas também de Santa Olávia e de Sintra, são um fabuloso detalhe artístico, que confere a todo o filme um ambiente onírico. Além disso, coloca-nos perante um palco, o que permite uma certa teatralidade e nos transporta mais facilmente para a época. Marcando também o plano literário com a narração possante de Jorge Vaz de Carvalho, Os Maias, de João Botelho, é cinema, teatro, ópera, política e literatura. Está lá tudo.

Manuel Halpern, in JL nº 1146, de 3 a 16 de setembro de 2014, p. 9




7 de setembro de 2014

O adorno das metáforas

Ilustração de Jennifer Lambein

As flores ficam bem nas metáforas.

Ricardo Marques, in 1914 - Portugal no ano da Grande Guerra, Oficina do Livro, 2014, 1ª ed., p. 49


22 de agosto de 2014

Veneza

Ilustração de Sernur Isik



Que música serias

se não fosses água?




Eugénio de Andrade, in Escrita da terra


Ilustração de Pascal Campion