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11 de novembro de 2012

Imprevisíveis

Ilustrações de Asako Eguchi
Nós somos imprevisíveis. Às vezes olhamo-nos ao espelho e, mesmo sem dizer, recuperamos aquele verso de Rimbaud, "eu sou um outro". Quem é que me olha no espelho? Olhamos para nós e há uma estranheza de ser que nunca se cura: mas sou assim? que caminho é este? que tempos são estes que me habitam? Somos também um segredo para nós mesmos e temos de aceitar-nos assim. Somos um enigma, uma pergunta e temos de aceitar isso. Caso contrário não teremos paz. Habitaremos sempre a divisão e o conflito. Há, portanto, um momento em que é preciso dizer: "está bem, é assim; eu não explico, eu não concebo, eu não programo, mas é assim, e vou fazer alguma coisa com isso." 

Tolentino Mendonça, "Aceitar o enigma" in Nenhum caminho será longo, Para uma teologia da amizade

10 de novembro de 2012

A delicadeza do mundo (2)

Ilustração de Mozeko
"A delicadeza do mundo chega-nos
através de frases interrompidas
de sementes que nos dispersam
de paralelas pintadas..."

Tolentino Mendonça



A delicadeza do mundo, o belo e o inefável chegam-nos pela arte, pela literatura, pelas palavras conjugadas com sabedoria e sabor inesperado  pelos poetas e escritores, pelos artistas maiores, pelos ilustradores e ensaístas.
O belo e o horrível tornam-se arte e humanizam-nos e, humanizando-nos, divinizam-nos, tornam-nos mais inefáveis, mais densos, mais perto do centro do transcendente que nos engrandece.


PORTEFÓLIO DE LEITURAS tem criado, ao longo deste 1º aniversário que hoje celebramos, um  percurso pela arte literária, divulgando escritores e ilustradores. Porque de um portefólio digital se trata, vamos nele depositando sementes dispersas de poesia e de outras formas de literariedade, já por si eloquentes. Pontualmente, uma reflexão; outras vezes textos não literários, eleitos pela densidade da sua mensagem, como, a título de exemplo, as palavras de Muhammad Yunus, Prémio Nobel da Paz 2006.


Ilustrações de Miyuki
São referências muito usuais os poetas Nuno Júdice, José Tolentino Mendonça, Eugénio de Andrade, Sophia de Mello Breyner Andresen, Manuel António Pina, Maria Gabriela Llansol, mas também a prosa de Gonçalo M. Tavares, José Saramago, Hermann Hesse, Tonino Guerra ou Juan José Millás, a par de outros clássicos da literatura portuguesa e universal.

São leituras lidas, leituras amadas, leituras partilhadas. Pleonasticamente.
                                                                                          Maria Carla Crespo

 

A delicadeza do mundo (1)

Ilustração de Akitaka Ito



A delicadeza do mundo chega-nos
através de frases interrompidas
de sementes que nos dispersam
de paralelas pintadas
com uma faca ou uma corda
a mudar com o vento
mesmo aqui, mesmo neste instante
as paredes do mundo não são muralhas
de altura inusitada
mas escadas suaves como fumo


Pudéssemos acordar uma manhã
e descobrir na poça castanha
entre gravetos, folhas apodrecidas
e ramos
que fazemos parte da sua solidão

Tolentino Mendonça, in Estação central

Personagens de papel?

Ilustração de Fabiola Solano
As personagens convivem com o leitor e tornam-se tão reais como afirma Jacques Bonnet:

"amam, enganam, assassinam, culpam, roubam, fogem, traem, deliram, sacrificam-se, são cobardes, afundam-se na loucura, vingam-se ou acabam por suicidar-se, mas, mais uma vez, mesmo nestes actos específicos, as personagens inventadas são mais reais". Temos a certeza de que Carlos e Maria Eduarda, os amantes de Os Maias, de Eça de Queirós, viveram - sem que pelo menos um deles ignorasse completamente o que fazia - um amor incestuoso..."

Ilustração de Kike de la Rubia
Personagens fictícias e personagens reais são "farinha do mesmo saco", que povoam as nossas bibliotecas e se cruzam nas nossas vidas com igual realismo - segundo o citado especialista em bibliofilia e teoria da leitura.


Segredinhos literários



Jacques Bonnet, o bibliófilo francês que inspirou a criação deste blogue, afirma que o autor nunca nos diz tudo acerca das personagens. E exemplifica: "Em nenhum lado, na história de Moby Dick, se esclarece qual a perna do capitão Ahab que é de madeira, consequência do seu combate com a baleia (uma ignorância que, como assinalou Umberto Eco, John Huston não pôde respeitar na sua adaptação cinematográfica, ao ter de se decidir por uma em vez da outra, chegada a altura de preparar Gregory Peck para as suas cenas). Como Melville não nos explica, nós nunca o saberemos. A mesma incerteza paira sobre o pé torto de lorde Byron..."

E parodia continuamente, em Bibliotecas cheias de fantasmas, sobre o efeito máscara que o autor exerce sobre o leitor: "A arte romanesca é em grande medida a das coisas não ditas, mas há certos segredinhos que não se podem esconder dos leitores!"  



Ilustrações de Sonja Wimmer

8 de novembro de 2012

Algodão do céu



... parece Lisboa que é feita de algodão, agora pingando.

Ilustração de Rebeca Luciani

José Saramago, in O Ano da morte de Ricardo Reis

7 de novembro de 2012

Os livros querem ser gozados e amados

Ilustração de Lina Dudaite

Para determinar o valor que um livro pode ter para mim, o facto de o mesmo ser famoso ou de estar na moda não tem praticamente nenhum relevo. Os livros não existem para que todos os leiam e encontrem neles um tema de conversas mundanas durante um certo tempo e depois os esqueçam, como se faz com a última notícia desportiva ou de crónica policial: os livros querem ser gozados e amados com calma e serenidade. Só então nos revelarão as suas íntimas belezas e virtudes.


Hermann Hesse, in Uma biblioteca da literatura universal

6 de novembro de 2012

Da relação com os livros

Ilustração de Ester Garcia Cortes
Um elenco de livros cuja leitura seja absolutamente necessária e sem os quais não haja saúde nem cultura, não existe. Em vez disso, há para cada homem um notável número de livros nos quais precisamente ele, o indivíduo, pode encontrar satisfação e prazer. Descobrir gradualmente estes livros, entabular uma relação duradoura com os mesmos, possivelmente apropriarmo-nos deles a pouco e pouco, até os tornarmos uma posse extrínseca e intrínseca estável, constitui uma tarefa específica e pessoal de cada indivíduo, que ele não pode descurar sem restringir substancialmente o âmbito da sua própria cultura e das suas próprias alegras e, com isso, o valor da sua própria existência.


                                                                                         Hermann Hesse, in Uma biblioteca da literatura universal




5 de novembro de 2012

Escrita

Ilustração de Simon Corry
Se uma vez por outra escrevo é porque certas coisas não se querem separar de mim tal como eu não quero separar-me delas. No acto de escrevê-las elas penetram em mim para sempre - através da caneta e da mão - como por osmose.

Cristina Campo, in Os imperdoáveis

4 de novembro de 2012

Quando é que o Monstro se transforma em Príncipe?

Ilustração de Claude Theberge


Quando o portento se tornou supérfluo, quando a metamorfose já se realizou insensivelmente em Belinda: lavando-a de toda a saudade adolescente, de toda a ferrugem da fantasia, dela não deixando senão a atenta alma nua ("já não me parece um Monstro e mesmo que o fosse desposá-lo-ia na mesma porque é perfeitamente bom e eu só poderei amá-lo a ele").

Cristina Campo, in Os imperdoáveis

Perceção

Ilustração de Claude Theberge

Perceber é reconhecer apenas o que tem valor, apenas o que existe realmente.

Cristina Campo, in Os imperdoáveis

2 de novembro de 2012

Amor, hoje teu nome

Ilustração de Claude Theberge
Amor, hoje teu nome
a meus lábios escapou
como ao pé o último degrau...

Espalhou-se a água da vida                                          
e toda a longa escada
é para recomeçar.

Desbaratei-te, amor, com palavras.

Escuro mel que cheiras
nos diáfanos vasos
sob mil e seiscentos anos de lava -

Hei-de reconhecer-te pelo imortal
silêncio.

Cristina Campo, in O Passo do Adeus (trad. José Tolentino Mendonça)

No cemitério

Ilustração de Jennifer Woodburn



Perguntamo-nos que viemos cá fazer, que lágrima foi que guardámos para verter aqui, e porquê, se as não chorámos em tempo próprio, talvez por ter sido então menor a dor que o espanto, só depois é que ela veio, surda, como se todo o corpo fosse um único músculo pisado por dentro, sem nódoa negra que de nós mostrasse o lugar do luto.


José Saramago, in O Ano da morte de Ricardo Reis




1 de novembro de 2012

Não há ninguém à entrada de novembro


Não há ninguém à entrada de novembro.
Vem como se não fora nada.
A porta estava aberta,
entrou quase sem pisar o chão.

Não olhou o pão, não provou o vinho.
Não desatou o nó cego do frio.
Só na luz das violetas se demora
sorrindo à criança da casa.

Essa boca, esse olhar. Essa mão
de ninguém. Vai-se embora,
tem a sua música, o seu rigor, o seu segredo.
Antes porém acaricia a terra.

 
Ilustração de Sandra Bierman
 Como se fora sua mãe.  


Eugénio de Andrade, in Branco no Branco

30 de outubro de 2012

Velhice

Ilustração de Lisa Nanni

...o caminho não é para o esquecimento, como haveria de querer a lei do tempo, mas sim para a memória. Todo o conhecimento adquirido antes de se tocar esse ponto - no meio do céu - parece então dirigir-se para a infância, para a casa, para a primeira terra, para o mistério das raízes, que dia após dia vai adquirindo eloquência.


Cristina Campo, in Os imperdoáveis

29 de outubro de 2012

Ler e escrever não é privilégio de alguns

Os livros deixaram de valer como segredos, são abertos a todos: assim parece. 

Ilustração de Fernando Casado Mora

Não nos deixaremos privar da reconfortante certeza de ter havido um efectivo progresso e não podemos senão comprazer-nos com o facto de ler e escrever já não serem o privilégio de uma casta ou corporação e, pelo contrário, desde a invenção dos caracteres de imprensa, de o livro se ter tornado um objecto de uso e de luxo difuso em larguíssima escala, d[e] as grandes tiragens lhe consentirem ser vendido a baixo preço e de todos os povos poderem, deste modo, tornar acessíveis os seus melhores livros (os chamados "clássicos") mesmo para as pessoas com menos posses. Nem nos afligiremos excessivamente por causa da ideia de o livro estar agora quase inteiramente despido do seu antigo carácter sublime...

Herman Hesse, in Uma biblioteca da literatura universal

28 de outubro de 2012

Os justos

Ilustração de Alberto Godoy
 
Começam o dia louvando o imperfeito:
O tempo que se inclina para o lado partido
as escassas laranjas que se tornam 
amarelas no meio da palha 
as talhas sem vinho 
 
Olham por dentro a brancura da manhã
e em tudo quanto auxilia um homem no seu ofício
louvam o vulnerável e o inacabado
 
Estão sentados à soleira dos espaços 
trabalhados devagar pelo silêncio 
 
Quando Deus voltar 
não terá de arrombar todas as portas
 
para José Mattoso
 
Tolentino Mendonça, in Estação Central

27 de outubro de 2012

O relógio da vida


Ilustração de Laimonas Smergelis


 - Nunca reparaste que há certas coisas que nós já vimos muitas vezes e que de vez em quando é como se fosse a primeira?
- Nunca reparei – disse a rapariga.
- Nunca ficaste a olhar o mar muito tempo?
- Sim, já fiquei.
- Ou o lume de um fogão? – disse o rapaz.
- E que queres dizer com isso?
- Ou uma flor. Ou ouvir um pássaro cantar.
- Sim, sim.
- Não há nada mais igual do que o mar ou o lume ou uma flor. Ou um pássaro. E a gente não se cansa de os ver ou ouvir. Só é preciso que se esteja disposto para achar diferença nessa igualdade. Posso olhar o mar e não reparar nele, porque já o vi. Mas posso estar horas a olhar e não me cansar da sua monotonia.
O rapaz tinha o olhar absorto na extensão das águas e permaneceu calado algum tempo. As águas brilhavam com o reflexo do sol na agitação breve das ondas. A rapariga calava-se também, fitando o rapaz, porque percebia que ele não acabara de falar. Mas o rapaz calou-se como se não tivesse mais nada a dizer e ela perguntou:
- Mas que é que querias dizer-me?
- Mesmo as coisas mais banais são diferentes se alguma coisa importante se passou em nós.

(...)
Ilustração de Laimonas Smergelis
 

- O médico foi claro. Havia um relógio na secretária e olhei as horas. Eram cinco precisas. Estava calmo e reparei. Tenho dois ou três meses no máximo. O tempo contado dia a dia. E é extraordinário como tudo agora me parece diferente. Mais belo talvez. Creio que vou viver agora mais intensamente. Dia a dia. E três meses no máximo.
- Espera! Três meses como? – disse a rapariga, subitamente iluminada.
Pôs-lhe a mão no braço e olhava-o fixamente. Ele olhou-a também e ambos ficaram a tentar entender-se em silêncio. (...)

Estava uma tarde cheia de sol. As águas brilhavam até ao limite do horizonte, um barco à vela ia passando pela estrada de lume. O ar estava quente. E a brisa do mar quase não chegava ali.

Vergílio Ferreira, "Uma esplanada sobre o mar", in Contos