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6 de junho de 2013

Alegoria

Ilustração de Susans Art Loft

Faço um castelo na areia do futuro. Torres
de névoa, ameias de fumo, pontes levadiças
de indecisão. Vejo a areia a escoar-se
na ampulheta dos séculos; e um exército
de ondas rompe a linha do infinito,
derrubando os muros da manhã.

Nuno Júdice, in Pedro lembrando Inês, D. Quixote, 2001, p. 24

4 de junho de 2013

E tudo era possível

Ilustração de Horacio Gatto

Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido
Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido
E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer
Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer

Ruy  Belo, in Todos os Poemas (2000), Assírio & Alvim, p.241

2 de junho de 2013

Preparativos de viagem

Ilustração de Katsuo



Ao fazer a mala, tenho de pensar em tudo o que lá
vou meter para não me esquecer de nada. Vou ao
dicionário e tiro as palavras que me servirão
de passaporte: uma linha
de horizonte, a altitude e a latitude,
um lugar de passageiro insistente. Dizem-me
que não preciso de mais nada; mas continuo
a encher o saco. Um pôr-do-sol para que
a noite não caia tão depressa, o toque dos teus
cabelos para que a minha mão os não esqueça,
e aquele pássaro num jardim que nasceu
nas traseiras da casa, e canta sem saber
porquê. E outras coisas que poderiam
parecer inúteis, mas de que vou precisar: uma frase
indecisa a meio da noite, a constelação
dos teus olhos quando os abres, e algumas
folhas de papel onde irei escrever o que a tua ausência
me vem ditar. E se me disserem que tenho
excesso de peso, deixarei tudo isto em terra,
e ficarei só com a tua imagem, a estrela
de um sorriso triste, e o eco melancólico
de um adeus.

Nuno Júdice, in JL Jornal de Letras, Artes e Ideias, nº 1113, 
de 19 de maio a 11 de junho de 2013, p.11

1 de junho de 2013

Algumas proposições com crianças

Ilustração de Cécile Bercé-Busson

A criança está completamente imersa na infância
a criança não sabe que há-de fazer da infância
a criança coincide com a infância
a criança deixa-se invadir pela infância como pelo sono
deixa cair a cabeça e voga na infância
a criança mergulha na infância como no mar
a infância é o elemento da criança como a água
é o elemento próprio do peixe
a criança não sabe que pertence à terra
a sabedoria da criança é não saber que morre

a criança morre na adolescência
Se foste criança diz-me a cor do teu país
Eu te digo que o meu era da cor do bibe
e tinha o tamanho de um pau de giz
Naquele tempo tudo acontecia pela primeira vez
Ainda hoje trago os cheiros no nariz
Senhor que a minha vida seja permitir a infância
embora nunca mais eu saiba como ela se diz


Ruy Belo, in Todos os Poemas (2000), Assírio & Alvim, p.209

A rua é das crianças


Ilustração de Kaatje Vermiere

Ninguém sabe andar na rua como as crianças. Para elas é sempre uma novidade, é uma constante festa transpor umbrais. Sair à rua é para elas muito mais do que sair à rua. Vão com o vento. Não vão a nenhum sítio determinado, não se defendem dos olhares das outras pessoas e nem sequer, em dias escuros, a tempestade se reduz, como para a gente crescida, a um obstáculo que se opõe ao guarda-chuva. Abrem-se à aragem. Não projectam sobre as pedras, sobre as árvores, sobre as outras pessoas que passam, cuidados que não têm. Vão com a mãe à loja, mas apesar disso vão sempre muito mais longe. E nem sequer sabem que são a alegria de quem as vê passar e desaparecer.

Ruy Belo, in Todos os Poemas (2000), Assírio & Alvim, p.264

Manhã de infância

Ilustração de Blue


O céu tinha o tom branco de uma manhã de infância.


Nuno Júdice, "A Viagem", in A Árvore dos Milagres, Quetzal, 2000, p. 145

31 de maio de 2013

As músicas do verso

Ilustração de Eva Vázquez

ele que tinha ouvido absoluto para as músicas sumptuosas     
                                                                         do verso livre  
ouvia a cada nó de sílaba
um silêncio de morte

Herberto Helder, in Servidões, Assírio & Alvim

29 de maio de 2013

nada pode ser mais complexo que um poema

Ilustração de Marten Tonnis

nada pode ser mais complexo que um poema,
organismo superlativo absoluto vivo,
apenas com palavras,
apenas com palavras despropositadas,
movimentos milagrosos de míseras vogais e consoantes,
nada mais que isso,
música,
e o silêncio por ela fora


Herberto Helder (2013), in Servidões, Assírio & Alvim, p. 62

28 de maio de 2013

Conta-me um conto



Vídeo produzido a partir da recriação de um conto popular por alunos do Curso Profissional de Turismo da Escola Secundária Fernão Mendes Pinto, em Almada (2012-2013). A produção textual que originou este vídeo resulta do trabalho colaborativo da disciplina de Português com a Biblioteca Escolar, na promoção da leitura e da escrita criativa.

27 de maio de 2013

A água da paróquia

Em Santarcangelo ao poço da Paróquia já não vai beber ninguém. Era a água benta que deitavam na cabeça das crianças para as baptizar e lavava as mãos de quem as metia dentro da pia.

E entretanto continuavam a andar para baixo e para cima os baldes da gente que morava ali à volta.

Ilustração de Nicolas Gouny

Depois puxava-a para cima um camponês para regar as alcachofras, até que fecharam o poço com uma chapa e na borda puseram uma placa a dizer assim: «Cá de baixo a água da Paróquia olha para o alto».


Tonino Guerra, in O Livro das Igrejas Abandonadas

26 de maio de 2013

As folhas da cerejeira

A André Tarkovsky


Por cima de Casteldeci há uma igreja sem tecto e as paredes têm entre os braços uma cerejeira que cresceu no chão e cujos ramos tocam o céu.

Em Abril floresce e a brancura desliza da árvore até ao fundo do vale, depois nascem os frutos e comem-nos os melros e os pássaros bravos; entretanto as folhas ficam vermelhas e uma de cada vez caem ao chão.

Ilustração de Rudi Hurzlmeier

Se alguém assoma àquelas paredes com o desejo de pedir um milagre e há uma folha que cai nesse momento é sinal que de lá de cima terá uma resposta boa. 

Tarkovsky passou lá em Novembro e precisava de fazer um pedido grande, mas as folhas já tinham caído todas e serviam de cama a duas ovelhas que dormiam.

Tonino Guerra, in O Livro das igrejas abandonadas

25 de maio de 2013

Gritos corcundas


Decidi criar gritos dentro de mim. Abro a boca
e engulo todos os sons que consigo.
Ilustração de Robin Heighway-Bury

Depois, não os deixo sair.

Afonso Cruz, "5 de Agosto" in O livro do Ano



Tinha gritos fechados há tanto tempo no meu
peito que, quando os soltei, saíram corcundas.  

Afonso Cruz, "6 de Agosto" in O livro do Ano



Fui até às montanhas junto ao mar. Lá em cima,
abri a boca para soltar um grito que tinha
ficado esquecido.

                                              Afonso Cruz, "12 de Agosto" in O livro do Ano

23 de maio de 2013

Sempre gostei de gatos

Sempre gostei de gatos. Gosto de todos os animais, mas com os gatos tenho uma relação especial. 

Ilustração de Paulo Galindro
Há muitos anos, conheci um astrólogo chinês e, embora não creia nos que preveem o futuro, porque sei que cada pessoa é responsável pelo seu destino e cada destino está cheio de surpresas, aceitei que fizesse o meu mapa astral. Depois de me perguntar o local de nascimento, a hora e o dia, desenhou um estranho mapa cheio de símbolos e cálculos misteriosos, ficou meditativo durante algum tempo, e disse finalmente: "Numa das tuas vidas passadas foste um gato feliz, porque eras o gato de um mandarim".

Luis Sepúlveda, prefácio de História de um gato e de um rato que se tornaram amigos, Porto Editora

21 de maio de 2013

O que é a vida?

Ilustração de Gentiane Magnan

O poeta grego que comparou o homem às folhas que não duram,
quando o inverno lhes roubou a esperança de viver de acordo com
os seus desejos, não saiu esta tarde para o campo, nem viu o
corpo que se interpôs entre o sol e os arbustos, ofuscando
o céu com a sua brancura de nuvem primaveril. Perguntou,
no entanto, de que serve a vida, e para que serve a alegria,
se não existe, para além delas, o horizonte dourado do amor;
e afastou da sua frente o crepúsculo, dizendo que preferia
a madrugada, logo que o galo canta, para despertar com
o próprio dia. Esse poeta, que o pó dos séculos sepultou,
e não chegou a encontrar qualquer resposta para as suas
dúvidas, aconselhou os que o liam a que se divertissem,
antes que a morte os surpreendesse. E lembro-me, por
vezes, deste pedido, ao pensar que a memória de alguém
se pode limitar a uma pequena frase, nem que seja a mais
banal das sentenças, que nos vem à cabeça numa ou noutra
circunstância. Então, o poeta grego continua vivo; e esta
tarde, por trás dos arbustos, ouvi a sua voz no vento que
por instantes soprou, trazendo com a sua frescura o sentimento
que sobrevive a todas as estações de uma vida humana.

Nuno Júdice, in As Coisas Mais Simples,D. Quixote, 2ªed., p. 67

19 de maio de 2013

O dia a dia

Ilustração de Madalena Matoso

...le quotidien, c'est ce qu'il y a de plus difficile à partager.

Philippe DELERM, in Il avait plu tout le dimanche, ed. Mercure de France, col. Folio

18 de maio de 2013

Noite e dia

Ilustração de Kim Amate

E então a noite caiu, para que não se falasse
do cair da noite. A noite caiu tão fria como as
últimas noites que caíram, neste princípio de
Inverno, e ninguém pôs um colchão por baixo
dela para que a noite não se magoasse, ao cair.
A noite limitou-se a cair, e com ela caiu o céu
sem lua, com todas as estrelas do universo a
caírem com ela. Só os olhos não caíram, porque
para verem o céu e as estrelas que o enchiam
tiveram de se levantar. E foi preciso falar
do cair da noite para que os olhos tomassem
a direcção do céu, e descobrissem tudo o que
havia no céu sem lua. «Deixem cair a noite»,
disse alguém. E logo alguém pediu que o
dia se levantasse, como se uma coisa estivesse
ligada a outra. Então, o dia levantou-se da
noite que caiu; e a noite caiu sobre o dia
que se levantava, para que a sua queda fosse
amparada pelo colchão do dia, e as estrelas
tivessem onde pousar, à medida que caíam.

Nuno Júdice, in As coisas mais simples

16 de maio de 2013

Gramática: o verbo

Ilustração de Lena Ralston

Principal ou auxiliar, é o verbo que faz mover
o discurso, dando à existência a sua qualidade
activa, e transformando-a no ser idêntico
que reúne em cada sujeito e estado, sem
distinguir uma ideia de outra. Porém, a
conjugação dos tempos e modos multiplica
o que dizemos por nós, por vós e por eles,
desde o passado ao futuro; e no presente
em que o enunciamos, o verbo é ser o que
é, sem ter sido o que será, na definição
conjugada das pessoas que agem, sem
que o saibam, e das que sabem, sem agir.

Nuno Júdice, in A matéria do poema

15 de maio de 2013

Doença dos telemóveis

Almoçar ali, assim, é uma forma de descansar das longas horas de viagem, e é possível abstrair do cansaço aproveitando uma vista, que quando se está do lado de fora da janela, nos oferece a natureza, os pássaros, a igreja, o monte, dando uma sensação de paz que nos coloca num intervalo do mundo em que até apeteceria ficar para sempre se não houvesse, na mesa do lado, um telemóvel a tocar. 

Ilustração de Thalita Dol
"Até aqui isto chega", pensamos, como se alguém que vive no mundo contemporâneo pudesse ficar imune a essa doença da comunicação a todo o preço que nos impede cada vez mais de sair da realidade e da pressão do mundo e dos outros com quem não nos interessa conviver mas que, desse modo, têm acesso imediato à nossa privacidade.

                                                                                                 Nuno Júdice, in A Árvore dos Milagres, p. 84

14 de maio de 2013

Aguenta, aguenta...


Ilustração de Mariana Kalacheva


...tudo o que tinha uma utilidade possível o Homem metia em cima do burro, carregando-o até este parecer que não aguentava mais, mas aguentava, e se por acaso fazia o gesto de protestar, parando no início de alguma subida do caminho, o Homem pegava num pau e não descansava enquanto o burro não voltasse a andar, mesmo que o pêlo lhe ficasse em sangue.

Nuno Júdice, "O Homem e o Burro", in A Árvore dos Milagres, p. 27

13 de maio de 2013

Como quase todos os burros...

Ilustração de Cesar Samaniego

Era um burro que tinha um ar pacífico, como quase todos os burros...

Nuno Júdice, "O Homem e o Burro", in A Árvore dos Milagres, p. 27