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7 de julho de 2015

Entraste numa tarde, por engano

Nunca soube o teu nome. Entraste numa tarde,
por engano, a perguntar se eu era outra pessoa -
um sol que de repente acrescentava cal aos muros,
um incêndio capaz de devorar o coração do mundo.



Ilustração de Mariana Kalacheva

Não te menti; levantei-me e fui levar-te à porta certa
como um veleiro arrasta os sonhos para o mar; mas,
antes de te deixar, disse-te ainda que nessa tarde
bem teria gostado de chamar-me outra coisa - ou
de ser gato, para poder ter mais do que uma vida.



           Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p. 157

5 de julho de 2015

Se ainda não sabias...

Ilustração de Aurélie Blanz

Não tenho planos, nem promessas, nem
filhos que nos convidem para almoços
de domingo – a minha ideia de família
resume-se a um retrato velho preso numa
gaveta; e do amor possível sei tão-só

o que li nos romances que nos salvaram
da desordem quando o meu tempo
andava de ferida em cicatriz. Mas guardo
ainda muitos por estrear para essa estante

que ergueste no corredor como uma casa
nova. E trago portas abertas no coração:



se ainda não sabias, és muito bem-vindo.


 Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p. 239

2 de julho de 2015

Muda de vida ou muda de poema

Ilustração de Dinara Mirtalipova
Um poema não é uma coisa que se coloca sobre o teu dia como um condimento sobre o teu almoço.
A vida de uma pessoa não tem material semelhante a nada que conheças. Existir é feito de peças impossíveis de copiar.
E a poesia não entra nesse material único - a vida de uma pessoa - como o avião no ar ou o acidente do avião na terra dura. Um poema não é manso nem meigo, não é mau nem ilegal.
Os homens não se medem pelos poemas que leram, mas talvez fosse melhor.
O que é a fita métrica comparada com algo intenso?
Há poemas que explicam trinta graus de uma vida e poemas que são um ofício de demolição completa: o edifício é trocado por outro, como se um edifício fosse uma camisa.  
Muda de vida ou, claro, muda de poema.

Gonçalo M. Tavares, in A Perna Esquerda de Paris

1 de julho de 2015

Recette pour faire le bleu



Van Gogh

 
Si tu veux faire du bleu,

prends un morceau de ciel et mets-le dans une grande marmite,

que tu puisses porter au feu de l'horizon;

puis mélange-le avec un reste du rouge

de l'aube, jusqu'à ce qu'il ait fondu;

verse le tout dans une bassine bien propre,

pour qu'il ne reste rien des impuretés de l'après-midi.

Pour finir, tamise un reste d'or du sable

de midi, jusqu'à ce que la couleur attache au fond métallique.

Si tu veux, pour que les couleurs ne passent pas

avec le temps, jette dans le liquide un noyau de pêche brûlé.

Tu le verras fondre, sans laisser la moindre trace comme si

tu ne l'y avais mis; et le noir de cendre ne laissera pas même un reste d'ocre

sur la surface dorée. Tu pourras, alors, porter la couleur

à hauteur des yeux, et la comparer avec le bleu authentique.

Les deux couleurs te paraîtront semblables, sans qu'il

te soit possible de les distinguer l'une de l'autre.

Voilà comment j'ai procédé - moi, Abraham ben Juda Ibn Haïm,

enlumineur de Loulé - et comment j'ai laissé la recette à qui voudrait,

un jour, imiter le ciel.

Nuno, JUDICE, inédit, traduction faite par les élèves du séminaire de

Michèle Gindicelli à l'université de Lyon




29 de junho de 2015

Dios quiso que la tierra fuese toda una

Ilustração de Raffaele Conte
 

Dios quiere, el hombre sueña, la obra nace. 
Dios quiso que la tierra fuese toda una,
que el mar uniese, ya no separase.

Consagróte, y fuiste desvelando la espuma,


y la orla blanca fue de isla en continente,
clareó, corriendo, hasta el fin del mundo,
y vióse la tierra entera, de repente,
surgir, redonda, del azul profundo.


Quien te consagró te creó portugués.
Del mar y de nosotros en ti nos dio señal.
Cumplióse el Mar, y el Imperio se deshizo.
¿Señor, falta por cumplirse Portugal!



Fernando Pessoa, "El Infante" in Mensagem (trad.)

28 de junho de 2015

Dieu veut, l’homme rêve, l’oeuvre naît

Ilustração de Raffaele Conte

Dieu veut, l’homme rêve, l’oeuvre naît,

Dieu voulu que la terre fût une seule

Que la mer unît, qu’elle ne la séparât jamais


Fernando Pessoa, in "L'infant", Mensagem (trad.)

27 de junho de 2015

O Infante

Ilustração de Raffaele Conte


Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.

Deus quis que a terra fosse toda uma,

Que o mar unisse, já não separasse.

Sagrou-te, e foste desvendando a espuma.


E a orla branca foi de ilha em continente,
 

Clareou, correndo, até ao fim do mundo,

E viu-se a terra inteira, de repente,

Surgir, redonda, do azul profundo.


Quem te sagrou criou-te português.

Do mar e nós em ti nos deu sinal.

Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.

Senhor, falta cumprir-se Portugal!


Fernando Pessoa, in Mensagem

23 de junho de 2015

Classificar o inclassificável

Ilustração de Stephanie Graegin

Os classificadores de coisas, que são aqueles homens de ciência cuja ciência é só classificar, ignoram, em geral, que o classificável é infinito e portanto se não pode classificar. Mas o em que vai meu pasmo é que ignorem a existência de classificáveis incógnitos, coisas da alma e da consciência que estão nos interstícios do conhecimento.
                
                                    
                       Bernardo Soares, in Livro do Desassossego, Assírio&Alvim, 2003, 4ª ed., p.341


22 de junho de 2015

Sonho e realidade

Ilustração de Alessandra Vitelli

Talvez porque eu pense de mais ou sonhe de mais, o certo é que não distingo entre a realidade que existe e o sonho, que é a realidade que não existe. E assim intercalo nas minhas meditações do céu e da terra coisas que não brilham de sol ou se pisam com pés - maravilhas fluidas da imaginação.


Bernardo Soares, in Livro do Desassossego, Assírio&Alvim, 2003, 4ª ed., p.341

21 de junho de 2015

Instinto



Van Gogh

...o sagrado instinto de não ter teorias...


Bernardo Soares, in Livro do Desassossego, Assírio&Alvim, 2003, 4ª ed., p.248

18 de junho de 2015

Não ler

Ilustração de Yuri Kuznetsov

Não ler, pensei, era como fechar os olhos, fechar os ouvidos, perder sentidos.

Valter Hugo Mãe, in A desumanização

17 de junho de 2015

Asas libertadoras

Ilustração de Elina Ellis

Que difícil é a vida dos homens. Eles não têm asas para voar por cima das coisas más.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in A Fada Oriana


16 de junho de 2015

Morada

Ilustração de Tamypu
Sozinho na grande cama,
perdido nos seus frios corredores,
ouço, de quartos interiores,
a tua voz que me chama.

Do fundo da noite enorme
onde pouso a cabeça por fora
a tua voz de alguém acorda-me
como num sono insone.

Como se a tua voz agora
antigamente me chamasse
e tudo, menos a tua voz, faltasse
fora da minha memória.


Manuel António Pina, in Poesia, saudade da prosa - uma antologia pessoal, Assírio&Alvim, 2012, 2ª ed., p. 47

14 de junho de 2015

Liberdade



Ilustração de Paulina Góra (Antosz)


Uma gaiola foi à procura de um pássaro.


Franz Kafka, in Aforismos (escritos na localidade histórica de Zürau), Assírio&Alvim, 2008, p. 40