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4 de março de 2015

A neta do Senhor Linh

Na aldeia só havia uma rua. Uma única. O chão era de terra batida. Quando a chuva caía, violenta e a prumo, a rua tornava-se um ribeiro em fúria pelo qual as crianças nuas corriam rindo às gargalhadas. 

Ilustração de_Iwasaki Chihiro
Durante o tempo seco, os porcos dormiam na rua espojando-se na poeira, enquanto os cães se perseguiam, ladrando. Na aldeia, toda a gente se conhecia e se cumprimentava quando se via. Havia ao todo doze famílias, e cada uma delas sabia a história das outras, era capaz de nomear os avós, os antepassados, os primos, conhecia os bens que cada um possuía. Em resumo, a aldeia era uma grande e única família, repartida por casas erguidas sobre estacas, e debaixo das quais as galinhas e os patos esgravatavam o chão e cacarejavam.

Ilustração de Flor Opazo
O velho apercebe-se de que, quando pensa na aldeia, pensa em termos de passado. O que lhe provoca um aperto no coração. É realmente um verdadeiro aperto que sente quando pousa a mão livre sobre o peito, no sítio do coração, para pôr termo ao aperto.

Philippe Claudel, in A Neta do Senhor Lihn, ed. Asa, 2006, 1ª ed., p. 14

1 de março de 2015

O perfume

Ilustração de Silvia Álvarez Castellar

De facto, como acontece com a moda, o perfume aproxima os iguais, distinguindo os diferentes.


José Machado Pais, in Lufa-lufa quotidiana, 
Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana
Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª ed., p. 60

28 de fevereiro de 2015

Ver claro

Ilustração de Deborah Dewit


Toda a poesia é luminosa, até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.


Eugénio de Andrade

É assim a música

Ilustração de Liese Chavez

A música é assim: pergunta, 
insiste na demorada interrogação
- sobre o amor?, o mundo?, a vida?
Não sabemos, e nunca
nunca o saberemos.
Como se nada dissesse vai
afinal dizendo tudo.
Assim: fluindo, ardendo até ser
fulguração – por fim
o branco silêncio do deserto.
Antes porém, como sílaba trémula,
volta a romper, ferir,
acariciar a mais longínqua das estrelas.

Eugénio de Andrade
 


27 de fevereiro de 2015

O tempo e as histórias

Ilustração de Deborah Dewit

Hoje, com o apressuramento da vida, as orelhas moucas fogem dos contadores de histórias, não há tempo para as memorizar nem para as recriar nos confins da recordação. 


José Machado Pais, in Lufa-lufa quotidiana, 
Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana
Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª ed., p. 48

26 de fevereiro de 2015

O tempo do caracol

Ilustração de Amber Alexander

Um caracol japonês subia lentamente ao longo de um tronco de cerejeira. Estava-se em Fevereiro ou Março. O caracol encontrou um insecto que lhe disse:

 - Onde vais? Não está na época! Não há cerejas nesta árvore!

 - Haverá quando eu chegar - respondeu o caracol sem parar.


Jean-Claude Carrière, "O insecto e o caracol", 
in Tertúlia de mentirosos - Contos filosóficos do mundo inteiro,
Teorema, 2000, p. 348

25 de fevereiro de 2015

A era do numérico

Entrámos na época do império numérico. Tudo se conta. Do dinheiro aos segundos, dos metros aos quilogramas, das calorias aos cafés bebidos diariamente. 


José Machado Pais, in Lufa-lufa quotidiana, 
Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana
Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª ed., p. 58

Ilustração de Delphine Doreau


23 de fevereiro de 2015

Nem todos os minutos são iguais

Ilustração de Selda Marlin Soganci

A neurose urbana existe porque vivemos algemados a relógios, havendo uma tendência para subjugar a vida ao poder da cronometria. Todavia, a vida flui através de várias dimensões temporais. Desde logo, podem contrastar-se as temporalidades subjectivas e as objectivas. No primeiro caso, nem todos os minutos são iguais. No relógio são iguais mas não na forma como são vividos ou sentidos. No universo das nossas próprias recordações, há longos pedaços das nossas vidas que a memória esquece enquanto que outros breves acontecimentos se tornam eternos.


José Machado Pais, in Lufa-lufa quotidiana, 
Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana
Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª ed., p. 66 

22 de fevereiro de 2015

Todas as coisas têm o seu tempo

Ilustração de Annie Stegg

Há tempo para nascer, e tempo para morrer; 
tempo para plantar, e tempo para arrancar o que se plantou;
tempo para matar, e tempo para dar vida;

tempo para destruir, e tempo de edificar;
Tempo para chorar, e tempo para rir; 

tempo para se afligir, e tempo para dançar;
Tempo para espalhar pedras, e tempo para as juntar;

tempo para dar abraços, e tempo para se afastar deles;
tempo para adquirir e tempo para perder;

tempo para guardar, e tempo para atirar fora;
tempo para rasgar, e tempo de coser;
tempo para  calar  e tempo para falar;
tempo para amar, e tempo para odiar;
tempo para a guerra, e tempo para a paz.

Eclesiastes 3:2-8

17 de fevereiro de 2015

Doutor, eu?


Ilustração de Sergey Ivchenko

- Você é mesmo tanso. Estava a gozar consigo. Na minha arte até posso ser considerado um catedrático da investigação criminal. Mas não sou doutor nenhum. Corte lá essa palermice do doutor e diga ao que vem.


Miguel Miranda, in Dai-lhes, Senhor, o eterno repousoPorto Editora, 2011, 1ª ed., p. 20

Doutores

Ilustração de Annie Stegg
Há uma espécie característica de gente que faz questão em se fazer anunciar por "doutor" isto ou aquilo. Destes autoproclamados "doutores", alguns ainda não acabaram curso nenhum, outros tiraram uma licenciatura crepuscular em algum instituto de vão de escada, apenas para obrigarem os outros a tratarem-nos por doutores. O homem que estava perante mim fazia parte dos seguidores dessa seita do culto da aparência. Só para verificar a sua lealdade à seita, perguntei:

- Então você é o Brandão?

O homem, outrora céreo, ganhou cor no rosto, de raiva incontida, e proferiu, martelando as sílabas:

- Doutor. Doutor Brandão. 

Ilustração de Dilka Bear

(...)
- Doutor será, quando acabar o curso. Sente-se.


Ele obedeceu, siderado. Derrubou os ombros, como se lhe tivesse caído um prédio em cima. 








Miguel Miranda, in Dai-lhes, Senhor, o eterno repousoPorto Editora, 2011, 1ª ed., p. 19




13 de fevereiro de 2015

Porque

Ilustração de Elena Trupak


Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Mar Novo,  Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 341

12 de fevereiro de 2015

Scanners corporais e privacidade

O achatamento da realidade significa que cada vez mas raramente se vê o que se olha. Ver é tornar visível o que se esquiva a uma apropriação visual. A poluição visual tende a provocar uma cegueira, da mesma forma que a poluição sonora tende a provocar a surdez. Por outro lado, olhamos à nossa volta e o que vemos é que acabamos por ser comidos por esse olho devorador que, através de circuitos de videovigilância, nos espia, à socapa. Em qualquer shopping ou esquina da rua: "Sorria, está a ser filmado".(...) 

Ilustração de Diane Duda

O Parlamento  Europeu tem debatido, de forma acalorada, o uso de scanners corporais de raios X nos aeroportos. O projecto não é pacífico, pois as mais ocultas intimidades dos passageiros ficarão expostas a usos indevidos. (...) O uso dos scanners permitiria enfrentar as bichas dos aeroportos mas, em contrapartida, nos arquivos dessas máquinas ficariam cópias de imagens explícitas dos nossos órgãos genitais e detalhes médicos íntimos, como implantes mamários ou bolsas de colostomia. 


José Machado Pais, in Lufa-lufa quotidiana, Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana
Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª ed. p.36

10 de fevereiro de 2015

O pranto branco

il. Sonia MariaLuce Possentini 

Foi pelo pranto que te reconheci

Foi pelo branco da praia que te reconheci


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Poemas Dispersos, Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 860

8 de fevereiro de 2015

Pranto pelo dia de hoje

Ilustração de Sonia MariaLuce Possentini


Nunca choraremos bastante quando vemos 
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem descritas 


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Livro Sexto, Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 431


7 de fevereiro de 2015

O sol e o dia brilham mas sem ti

O sol e o dia brilham mas sem ti
Talvez não sejam mais o sol e o dia.
O sol e o dia agora
Estão lá onde o teu sorriso mora
E não aqui.


Lua e sol, de Matazo Kayama

Como quem colhe flores tu serena
Vais colhendo sem chorar a nossa pena
Olhas por nós sem mágoa nem saudade
E o céu azul, a luz, as Primaveras
Habitam na perfeita claridade
Em que nos esperas.


Sophia de Mello Breyner Andresen, in No Tempo Dividido, Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p.291 

6 de fevereiro de 2015

O flanneur e a lufa-lufa da cidade

Ilustração de May Ann Licudine

Quanto mais rápido o movimento menos profundidade se tem das coisas, mais chapadas elas se nos mostram. As cidades tradicionais, pelo contrário, eram feitas para serem vistas de perto, com detalhe. O flanneur, de Baudelaire, vivia na rua como se estivesse em casa, fazendo do café a sua sala de visitas e da banca de jornais a sua biblioteca.



José Machado Pais, in Lufa-lufa quotidiana, 
Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana,
Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª ed., p. 35

Hiperatividade ou má educação?

Ilustrações de Anna Lisk



A hiperactividade das crianças esconde, na verdade, um problema maior: a sua má educação. A hiperactividade é apenas um efeito psicológico de um fenómeno social que decorre do "paradigma do encontrão".


José Machado Pais, in Lufa-lufa quotidiana, Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana, Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª ed. p. 42

5 de fevereiro de 2015

Máscaras sociais


Ilustração de Magalie Bucher 

...a cortesia [aparece] como máscara de uma indiferença que Goffman (...) identificava como "desatenção cortês": de sorrisos falsos, de palavras de circunstância, de "obrigados" que nada obrigam, enfim, de uma teatralização que tem levado a que a cidade seja lida como um palco de representações, fazendo o esplendor das análises dramaturgas da vida quotidiana.


José Machado Pais, in Lufa-lufa quotidiana, Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana, Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª ed. p. 28

4 de fevereiro de 2015

Lentidão vs. encontrão

Ilustração deLisa Falzon

O paradigma da lentidão deu lugar ao do encontrão - sagazmente identificado por E. A. Poe (...) quando se deu conta de que, entre a multidão, os transeuntes rasgavam caminho à custa da cotovelada e do inevitável empurrão. 


José Machado Pais, in Lufa-lufa quotidiana, Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana, Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª ed. p. 28

3 de fevereiro de 2015

...até no amor

Os tempos mudaram. As saudações outrora tão cheias de vénias simplificaram-se, consumando-se num simples "Oi!" ou "Olá, que tal?" Como se a vida se pudesse resumir a tal. E qual.

Ilustração de Alice De Page


Há que ser rápido em tudo, até no amor. 

José Machado Pais, in Lufa-lufa quotidiana, Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana, Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª ed. p. 28

2 de fevereiro de 2015

O elogio da lentidão

Em filosofia, o vencedor da corrida é aquele que consegue correr mais devagar.

Wittegenstein 

Ilustração de 度薇年 

apud José Machado Pais, Lufa-lufa quotidiana, Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana, Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª ed. p. 28

1 de fevereiro de 2015

Deserto

Ilustração de Fabio Rex

O deserto é uma praia que, por melancolia, se afastou do mar.

(Malgorzata Zajac)


Afonso Cruz, in Enciclopédia da Estória Universal - Mar, Alfaguara, 2014, 1ª ed., p.

31 de janeiro de 2015

Vento de primavera

Ilustração de Tititi


Vento de primavera na costa:

As lapas agarram-se às rochas.

As gaivotas agarram-se ao vento

(Masamitsu Ito, Haikus)

Afonso Cruz, in Enciclopédia da Estória Universal - Mar, Alfaguara, 2014, 1ª ed., p. 176

30 de janeiro de 2015

Búzios

Ilustração de Redmer Hoekstra



Encosto o ouvido ao mar para ouvir o barulho dos búzios.

(Piotr Korzhev)

Afonso Cruz, in Enciclopédia da Estória Universal - Mar, Alfaguara, 2014, 1ª ed., p. 77


29 de janeiro de 2015

Vida

Ilustração de Bobby Chiu

A coisa mais difícil de navegar é a vida.
Não é o mar.

(Malgorzata Zajac)


Afonso Cruz, in Enciclopédia da Estória Universal - Mar, Alfaguara, 2014, 1ª ed., p. 177

27 de janeiro de 2015

É muito difícil para elas, para as palavras...

7 Ando pela casa em silêncio, porque as palavras, com a tristeza, ficam sozinhas, a deambular pela nossa cabeça, perdidas, sem saber para onde ir, as palavras emagrecem, definham, já não sabem o que significam, a palavra exultar pode transformar-se na palavra unhas, a palavra vida pode transformar-se na palavra rato, a palavra riqueza pode transformar-se na palavra sobras, a palavra felicidade pode transformar-se na palavra longe, a palavra infelicidade pode transformar-se na palavra costume. 

Ilustração de John Lendis

8 É muito difícil para elas, para as palavras, quando há muita aflição e ranger de dentes.

Afonso Cruz, in Enciclopédia da Estória Universal - Mar, Alfaguara, 2014, 1ª ed., p. 22

26 de janeiro de 2015

Velhos livros e ninguém

Era uma porta estreita, ao lado de uma montra onde se amontoavam livros em segunda mão, numa grande desordem. Do outro lado uma sala comprida e escura, enormes prateleiras que cobriam inteiramente as paredes. Velhos livros e ninguém. Nunca vira uma pessoa lá dentro. Cliente ou empregado. Aquela porta aberta, a penumbra da sala, de que não se via o fundo, lembravam vagamente uma armadilha.

Ilustração de Santiago Caruso
        
                Ana Teresa Pereira, "A rapariga da Pont Neuf", in As velas da noite, Relógio d'Água, 2014, p. 35

25 de janeiro de 2015

A livraria do Pont Neuf

Ilustração de Wonil Suh


Àquela hora havia uma ou outra espelunca ainda aberta, o que não tinha nada de surpreendente. O que a intrigava era a livraria, a porta enigmaticamente aberta da livraria.

Ana Teresa Pereira, "A rapariga da Pont Neuf", in As velas da noite, Relógio d'Água, 2014, p. 35

24 de janeiro de 2015

As velas da noite II

Ilustração de Pinwheel Bunny


A certa altura levantou-se e aproximou-se do quadro. A casa tornara-se ainda mais acolhedora, todos nós precisamos de um lugar tranquilo. Puxou uma cadeira e subiu para ela, levando consigo o candeeiro. Aproximou-o o mais possível do quadro. Sim, aqueles pontos mais claros eram estrelas. Havia mesmo estrelas no lugar onde ele estava. As abençoadas velas da noite.


Ana Teresa Pereira, "As velas da noite", in As velas da noite, Relógio d'Água, 2014, p. 54

As velas da noite I

Ilustração de Pinwheel Bunny 



E não há estrelas? perguntara Emma.
Sim, há estrelas.
As velas da noite.
O motivo por que as sete estrelas não são mais do que sete...Porque não são oito.

Ana Teresa Pereira, "As velas da noite", in As velas da noite, Relógio d'Água, 2014, p. 52

23 de janeiro de 2015

Um pouco como dançar...



Ilustração de Sonia MariaLuce Possentini


Um pouco como dançar, um pouco como fazer de conta...isso era representar. 


Ana Teresa Pereira, "If I should wake before I die", in As velas da noite, Relógio d'Água, 2014, p. 43

22 de janeiro de 2015

Dança...

Ilustração de Yao Xiong -Y. Nana


Não era difícil acreditar em contos de fadas. Cathy estava habituada a um palco, desde os cinco anos que estudava Dança, e o palco agora era uma velha casa, um longo jardim, um lago de águas imóveis. Antes de ela aparecer no filme, via-se o seu reflexo na água. E quase no final dançava sozinha no pavilhão junto ao lago, ao som da melodia da caixa de música, Oh, Willow Waly.



Ana Teresa Pereira, "If I should wake before I die", in As velas da noite, Relógio d'Água, 2014, p. 43

21 de janeiro de 2015

Uma biblioteca é um labirinto







Uma biblioteca é um labirinto. Não é a primeira vez que me perco numa.



Afonso Cruz, in Os livros que devoraram o meu pai, Caminho, 2010, p. 27

19 de janeiro de 2015

O mundo e o amor


Ilustração de Saré Evgenia



O mundo inteiro puxa-nos para baixo, mas as mãos de quem gosta de nós atiram-nos para o alto. Sem se cansarem.



Afonso Cruz, in O pintor debaixo do lava-loiças, Caminho, 2011, 1ª ed., p. 36

17 de janeiro de 2015

O estômago da cabeça

Ilustração de Sandrine Kao

- Há muitos tipos de comida - disse o coronel Möller enquanto abanava o filho. - Um homem possui três estômagos: um na barriga, outro no peito e outro na cabeça. O da barriga toda a gente sabe para que serve; o do peito mastiga a respiração, que é a nossa comida mais urgente. Uma pessoa morre sem ar muito mais depressa do que sem água e pão. 

Ilustração de Lirios Bou

E por fim há o estômago da cabeça, que se alimenta de palavras e de letras.

Afonso Cruz, in O pintor debaixo do lava-loiças, Caminho, 2011, 1ª ed., p. 20

14 de janeiro de 2015

Homero

Ilustração de Asako Eguchi


Escrever o poema como um boi lavra o campo 

Sem que tropece no metro o pensamento 


Sem que nada seja reduzido ou exilado 


Sem que nada separe o homem do vivido




                  Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Búzio de Cós e Outros Poemas, Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 815

11 de janeiro de 2015

Oásis

Ilustração de Richolly Rosazza


Penetraremos no palmar
A água será clara o leite doce
O calor será leve o linho branco e fresco
O silêncio estará nu – o canto
Da flauta será nítido no liso
Da penumbra


Lavaremos nossas mãos de desencontro e poeira


Sophia de Mello Breyner Andresen, in O nome das coisas Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 643

Não te chamo para te conhecer

Ilustração de Jing Jing Tsong


Não te chamo para te conhecer      
Eu quero abrir os braços e sentir-te
       Como a vela de um barco sente o vento


Não te chamo para te conhecer 

Conheço tudo à força de não ser


Peço-te que venhas e me dês   

            Um pouco de ti mesmo onde eu habite


Sophia de Mello Breyner Andresen, "Poemas de um livro destruído", VIII, in No Tempo Dividido, Obra PoéticaCaminho, 2011, 2ª ed., p. 270 

10 de janeiro de 2015

Guitarra

Ilustração de Raija Nokkala



Na voz de oiro e de sombra da guitarra

Algo de mim a si próprio renuncia






Sophia de Mello Breyner Andresen, in Ilhas Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 747

8 de janeiro de 2015

Senhor

Ilustração de Asako Eguchi

Senhor sempre te adiei

Embora sempre soubesse que me vias 

Quis ver o mundo em si e não em ti 

E embora nunca te negasse te apartei

                             1987


                              Sophia de Mello Breyner Andresen, in Ilhas Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 753

7 de janeiro de 2015

Exílio

Ilustração de Сержантова Олеся
Exilámos os deuses e fomos

Exilados da nossa inteireza

Sophia de Mello Breyner Andresen, in O nome das coisas Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 642

6 de janeiro de 2015

Os três reis do Oriente

Ilustração de Noemí Villamuza


E foi para seguir essa estrela que Gaspar abandonou o seu palácio.



 Sophia de Mello Breyner Andresen, "Os três reis do Oriente"in Contos Exemplares, Figueirinhas, 2006, 36ª ed., pp. 147-148

5 de janeiro de 2015

Palavra ou estrela?

ilustração de Eugen Sopko


Primeiro pareceu a Gaspar que a estrela era uma palavra, uma palavra de repente dita na muda atenção do céu. 


Mas depois o seu olhar habituou-se ao novo brilho e ele viu que era uma estrela, uma nova estrela, semelhante às outras, mas um pouco mais próxima e mais clara e que, muito devagar, deslizava para o Ocidente. 




Sophia de Mello Breyner Andresen, "Os três reis do Oriente"in Contos Exemplares, Figueirinhas, 2006, 36ª ed., pp. 147-148

4 de janeiro de 2015

Reis Magos

Ajoelhado no terraço Gaspar olhava o céu da noite. Olhava a alta e vasta abóbada nocturna, escura e luminosa, que simultaneamente mostrava e escondia.

Ilustração de Maarit Ailio

E disse: 


— Senhor, como estás longe e oculto e presente! Oiço apenas o ressoar do teu silêncio que avança para mim e a minha vida apenas toca a franja límpida da tua ausência. Fito em meu redor a solenidade das coisas como quem tenta decifrar uma escrita difícil. Mas és tu que me lês e me conheces. Faz que nada do meu ser se esconda. Chama à tua claridade a totalidade do meu ser para que o meu pensamento se torne transparente e possa escutar a palavra que desde sempre me dizes.



                        Sophia de Mello Breyner Andresen, "Os três reis do Oriente"in Contos Exemplares, Figueirinhas, 2006, 36ª ed., pp. 147-148

3 de janeiro de 2015

Noite

Ilustração de Friedrich Hechelmann


Noite. Noite em nossa roda. Noite aberta.
E encontramos um silêncio imenso,
Um silêncio perfeito que nos esperava desde sempre.
E uma solidão que era a nossa imagem,
E uma profunda esperança,
Como se a noite tremesse
De tocar a aurora.



Sophia de Mello Breyner Andresen, in Poemas Dispersos, Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 856