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24 de outubro de 2013

O belo e o interior

...já me aconteceu doer-me o soma e afinal ser da psique. (...)


Barbie, de Ron Griswold

...abundam casos onde a beleza física traz dentro dela uma grande estupidez ou mesmo uma miss universo inteira.


Ari Caldeira, Sobre o interior e o avesso 

apud Afonso Cruz, in A Boneca de Kokoschka, Quetzal, 2010, pp. 143-144

23 de outubro de 2013

Dádiva

Ilustração de Judith Clay
O Paraíso cheira a leite, pensava Elahi, pois é a bebida que nos diz que não é preciso trabalhar para comer, o leite é uma dádiva como a chuva e como dormir na areia das praias.


Afonso Cruz, in Para onde vão os guarda-chuvas, Alfaguara, 2013, p. 81

22 de outubro de 2013

Sinestesia

Ilustração de Miyuki Sakai


...um cheiro doce e quente e redondo...

Afonso Cruz, in Para onde vão os guarda-chuvas, Alfaguara, 2013, p. 81

20 de outubro de 2013

Silêncio pela boca

Ilustração de Nicona

Fazal Elahi pensava no equilíbrio do mundo, que era uma equação extremamente desequilibrada, mas que, apesar disso, exigia uma espécie de harmonia. Se um homem fala, entra-lhe silêncio pela boca...


Afonso Cruz, in Para onde vão os guarda-chuvas, Alfaguara, 2013, pp. 86-87

19 de outubro de 2013

O sábio e a fome

Ilustração de Helmut Dohle

Sábio - É então isto a fome...Que coisa estranha, não é nada parecido com o que vem nos livros...

Manuel António Pina, in História do sábio fechado na sua biblioteca, Assírio & Alvim, 2009, p. 30

18 de outubro de 2013

Compaixão

Ilustração de Patrice Barton
Nunca antes tinha tocado a mão de outro homem. A mão do homem apertou a mão do Sábio com toda a força, e o Sábio sentiu uma impressão estranha no coração, como se o seu coração tivesse ficado de repente mais pequeno. E então recordou que lera há muito tempo, num velho livro, algo sobre um sentimento confuso e angustiante, chamado compaixão, e percebeu que o seu coração estava cheio de compaixão. Apertou também ele a mão do homem e disse-lhe:

SÁBIO – Tem coragem. Conheço todos os segredos da Medicina e tentarei minorar o teu sofrimento. 

Manuel António Pina, in História do sábio fechado na sua biblioteca, Assírio & Alvim, 2009, p. 34

17 de outubro de 2013

A fome nos livros

Ilustração de Enoki Toshiyuki

O Sábio estremeceu. Nos seus livros, fechado na sua Biblioteca, tinha muitas vezes lido coisas sobre a fome. Mas nunca tinha sentido fome. E agora, de repente, tudo o que aprendera nos livros parecia-lhe pouco.

Manuel António Pina, in História do sábio fechado na sua biblioteca, Assírio & Alvim, 2009, p. 26

16 de outubro de 2013

Da biblioteca para a vida

Ilustração de Olimpia Zagnoli

Como eu gostaria de sair da minha Biblioteca, mas, para isso, teria que sair de mim, porque eu próprio sou a Biblioteca. Como ela, não estou vivo nem estou morto, estou fechado dentro de mim como num labirinto ou como se fosse um livro antigo escrito numa língua desconhecida, que ninguém, nem mesmo a Morte é capaz de ler.


Manuel António Pina, in História do sábio fechado na sua biblioteca, Assírio & Alvim, 2009, p. 25

15 de outubro de 2013

Floração

Ilustração de Rene Rickabaugh

A floração é o símbolo do mistério do nosso espírito.

in Fragmentos de Novalis (seleção, tradução e desenhos de Rui Chafes), 


Assírio & Alvim, 2000, 2ª ed., p.115




14 de outubro de 2013

Ser e conhecer

Ilustração de Rene Rickabaugh

Onde existe um ser deve existir também um conhecer.

in Fragmentos de Novalis (seleção, tradução e desenhos de Rui Chafes), 


Assírio & Alvim, 2000, 2ª ed., p.21



13 de outubro de 2013

Escrevo pela paixão de te inventar de um nada




Escrevo pela paixão de te inventar de um nada,
um filamento apenas e logo outro sinal,
um tecido febril e temos um cavalo
inteiro com o som e a exactidão do nome.

Não sei a tua cor, mas tens em ti o campo,
a liberdade e a força que experimento em ti.
Para onde vais, cavalo, tão veloz, violento
ou na paz do teu trote, sem sela e livre, livre!


Percorro esta terra como um seio amoroso,
corres já no meu corpo com a vida do fogo,
tua paixão me cega e me ilumina a terra.

És tu que me crias com as palavras justas
que da tua elegância e ritmo se libertam
e me erguem a uma vida pura e vertical.


António Ramos Rosa, Ciclo do Cavalo, in A Palavra e o Lugar, D. Quixote


12 de outubro de 2013

Autenticidade



Tudo o que é autêntico dura eternamente - toda a verdade - tudo o que é pessoal.


in Fragmentos de Novalis (seleção, tradução e desenhos de Rui Chafes), 

Assírio & Alvim, 2000, 2ª ed., p.21

O desejo e o acidental

O que amas, verdadeiramente, fica para ti.
Não se sabe o que se deseja, quando se quer fixar o acidental - sobre o amor.
O acidental deseja-se acidentalmente.



Ilustração de Daniela Tieni 


in Fragmentos de Novalis (seleção, tradução e desenhos de Rui Chafes), 


Assírio & Alvim, 2000, 2ª ed., p.21

10 de outubro de 2013

Que dupla!

Ilustração de Yusuke Yonezu


O que nós gostávamos de o assustar, para ter o prazer de o consolar! E como ele exigia esse pavor! Não era nada tolo, e no entanto tremia. Era esta a dupla que então formávamos: ele, o leitor - espertalhão! -, e nós, o livro - muito cúmplice!


Daniel Pennac, in Como um romance, Asa

9 de outubro de 2013

Médicos meteorologistas?




Ilustração de Angela Muss

Ilustração de Young Ju Choi













Um médico é como um meteorologista: nunca acerta no tempo.


Afonso Cruz, in A Boneca de Kokoschka, Quetzal, 2010, p.98

7 de outubro de 2013

Crescem árvores nos pássaros


Ilustração de Марися Рудськ

Os pássaros comem sementes - disse Bonifaz Vogel quando entrou na cozinha. - Não percebo porque não crescem árvores dentro deles.

                                                             
                                                                       Afonso Cruz, in A Boneca de Kokoschka, Quetzal, 2010, p.87

5 de outubro de 2013

Almas canoras

Ilustração  de Cori Dantini
Os trinados de uma ave canora ouvem-se dentro de nós. As pessoas mal informadas julgam que é o canário a fazê-los, mas é a nossa alma que treme ao ouvir um pássaro a cantar. É assim que se fazem os trinados. De almas a tremer.

Afonso Cruz, in A Boneca de Kokoschka, Quetzal, 2010, p.91

4 de outubro de 2013

Gaiolas por dentro



Ilustração de Afonso Cruz
Numa loja de pássaros é onde se concentram mais gaiolas. Não há lugar nenhum no mundo construído com tantas restrições como uma loja de pássaros. São gaiolas por todo o lado. 


Ilustração de Liz Pulido



E algumas estão dentro dos pássaros e não por fora como as pessoas imaginam.


Ilustração de Kristina Swarne

Porque Bonifaz Vogel, muitas vezes, abrira as portas das gaiolas sem que os canários fugissem. Os pássaros ficavam encolhidos a um canto, tentando evitar olhar para aquela porta aberta, desviavam os olhos da liberdade, que é uma das portas mais assustadoras. Só se sentiam livres dentro da prisão. A gaiola estava dentro deles. A outra, a de metal ou madeira, era apenas uma metáfora. Bonifaz Vogel vivia no meio de metáforas.

Afonso Cruz, in A Boneca de Kokoschka, Quetzal, 2010, p.29

2 de outubro de 2013

Nuvens sem fralda

Ilustração de Maddalena Gerli

O céu estava carregado de nuvens que pareciam incontinentes, mas que acabaram por se afastar, indo chover para outras grandes capitais europeias.

Afonso Cruz, in A Boneca de Kokoschka, Quetzal, 2010,p. 76

1 de outubro de 2013

Terra prometida


Ilustração de Gaëlle Boissonnard

E porque é que Moisés levou quarenta anos a atravessar uma região que não demoraria mais do que uma semana a ser atravessada? Porque a Terra Prometida não era um lugar no espaço e Moisés queria que eles compreendessem que a Terra Prometida é um caminho, é uma terra que está onde está um homem que a deseja. Os hebreus a caminhar levaram a Terra dentro de si...


Afonso Cruz, in A Boneca de KokoschkaQuetzal, 2010,p. 35

29 de setembro de 2013

Animalescos

A lógica que serve a loucura e o despotismo / manipulação das massas subjaz à maioria dos episódios de Animalescos, de Gonçalo M. Tavares.



(...) trata-se de um novo programa do governo que quer não apenas médicos físicos a
Ilustrações de  Alyona Krutogolova
invadir as pequenas aldeias e os pobres, não apenas operações cirúrgicas e medicamentos para a tremura das mãos, quer também  - o bom 
do governo - ordenar a cabeça desorientada dos desgraçados e, por isso, manda psicanalistas a sítios inacessíveis às máquinas que só sabem andar em linha recta (...) a esses sítios inteligentes e sítios parvos, mas a esses sítios inteligentes só os cavalos ou os burros podem chegar (...)

Gonçalo M. Tavares, in Animalescos

Relógio d' Água, 2013, p. 121

28 de setembro de 2013

Eleições

Antonio José Bolívar sabia ler, mas não escrever.
O mais que conseguia era garatujar o nome quando tinha que assinar qualquer papel oficial, por exemplo, na época das eleições, mas, como tais acontecimentos ocorriam muito esporadicamente, já quase se tinha esquecido.
Lia lentamente, juntando as sílabas, murmurando-as a meia voz como se as saboreasse, e, quando tinha a palavra inteira dominada, repetia-a de uma só vez. Depois fazia o mesmo com a frase completa, e dessa maneira se apropriava dos sentimentos e ideias plasmados nas páginas.
Quando havia uma passagem que lhe agradava especialmente, repetia-a muitas vezes,  todas as que achasse necessárias para descobrir como a linguagem humana também podia ser bela.

Ilustração de Sophie Blackal

Lia com o auxílio de uma lupa, o segundo dos seus pertences mais queridos. O primeiro era a dentadura postiça.

                                Luis Sepúlveda, in O velho que lia romances de amor, Asa, 2000, 17ª ed., p.28

27 de setembro de 2013

Compreender um escritor


Ilustração de Deborah Dewit 


Só mostro que compreendi um escritor quando puder actuar dentro do seu espírito, quando o conseguir traduzir e alterar de diversas maneiras, sem reduzir a sua individualidade.


in Fragmentos de Novalis (seleção, tradução e desenhos de Rui Chafes), 

Assírio & Alvim, 2000, 2ª ed., p. 31

26 de setembro de 2013

Artista

Ilustração de Vladimir Kryloff

Apenas um artista é capaz de adivinhar o sentido da vida.


in Fragmentos de Novalis (seleção, tradução e desenhos de Rui Chafes), 

Assírio & Alvim, 2000, 2ª ed., p. 49

25 de setembro de 2013

A infinita potencialidade da linguagem

O verbo é o senhor absoluto: as forças condutoras do poema já não obedecem às relações gramaticais, mas condensam em si as múltiplas virtualidades significativas. 





Ilustrações de Vesa Sammalisto

A palavra desvincula-se assim de todo o preciso significado para passar a ser apenas a expressão do silêncio e do nada, uma pura vibração. Mas mesmo aqui a significação não foi anulada. O que desapareceu foi a univocidade significativa que passou a ser substituída pela "infinita potencialidade da linguagem".

António Ramos Rosa, in Poesia, Liberdade Livre, Liv. Moraes Editores, 1962

24 de setembro de 2013

Poesia e humanização







Ilustrações de Lauren Mills



A poesia é para o poeta e para quantos o acompanham o modo mais imediato de se humanizar, de ser imaginariamente e realmente esse outro que somos e não somos e para o qual, homens e poetas, tendemos todos os nossos esforços.




António Ramos Rosa, in Poesia, Liberdade Livre, Liv. Moraes Editores, 1962





23 de setembro de 2013

Perto do acordar

Ilustração de Ina Doncheva



Estamos perto do acordar, quando sonhamos que sonhamos.




in Fragmentos de Novalis (seleção, tradução e desenhos de Rui Chafes), Assírio & Alvim, 2000, 2ªed., p.29

22 de setembro de 2013

Dormir bem


Ilustração de Rose Wong

Faça do sono uma coisa boa da sua vida. Não o maltrate! 

Dormir bem é uma bênção.



                          Teresa Paiva, in Bom sono, boa vida, Oficina do Livro, 2008, 2ª ed. p. 40

21 de setembro de 2013

Bom sono, boa vida

Ilustração de Alberto Ruggieri


Se dormir bem, viverá melhor.

Teresa Paiva, in Bom sono, boa vida, Oficina do Livro, 2008, 2ª ed. p. 73

20 de setembro de 2013

Sentido para um sentido

Ilustração de Vladimir Kryloff



Qualquer sentido interior é um sentido para um sentido.





in Fragmentos de Novalis (seleção, tradução e desenhos de Rui Chafes), Assírio & Alvim, 2000, 2ªed., p.133

19 de setembro de 2013

Os novos Maias, por José Luís Peixoto

Em Os novos Maias, editado pelo jornal Expresso (1ª parte), o prefácio,  intitulado "Profecias d' Os Maias", é uma clara e bastante útil análise das personagens dos episódios da vida romântica. Espelha de modo fidedigno os temas e a crítica social da obra magistral queirosiana, o que a torna tão atual. É um bom retrato das personagens-tipo, do seu significado e da sua intemporalidade.


Ilustração de Saja, Sabine Jeannot
O texto de José Luís Peixoto, que retomou o romance desde o último episódio, com Carlos da Maia e João da Ega a correrem para apanharem "o americano", revela que o autor conhece bem o universo da obra que o inspirou e a relação entre estas duas personagens. As descrições são vivas, polvilhadas de humor, e Carlos, Ega e Dâmaso Salcede readquiriram a sua densidade psicológica. Com mais ou menos surpresa, a diegese prossegue, sob a curiosidade do leitor, até que este tropeça em anacronismos. Em "Apesar da pressa, não caminharam demasiado rápido",  a substituição do advérbio "depressa" pelo adjetivo "rápido" denuncia a linguagem do século XXI (ou mesmo de finais do século XX). 

Ilustração de David de Ramon

Porém, o maior sobressalto do leitor surge quando o silêncio de 1900 é "interrompido pela estridência de uma mensagem de telemóvel". Em 1900? Quando o propósito da narrativa é fixá-la entre 1887 e 1910, como é anunciado na "Nota prévia" da edição do jornal Expresso? É de se lhe tirar o chapéu, José Luís Peixoto!





18 de setembro de 2013

O velho que lia romances de amor (2)


Ilustração de André Letria

O velho recebeu os livros, examinou as capas e declarou que gostava. 


Luis Sepúlveda, in O velho que lia romances de amor, Asa, 2000, 17ª ed., p. 26

17 de setembro de 2013

O velho que lia romances de amor (1)





- Olha, com toda a confusão do morto já quase me esquecia. Trouxe-te dois livros.

Os olhos do velho iluminaram-se.

- De amor?

O dentista fez que sim.

Antonio José Bolívar Proaño lia romances de amor, e em cada uma das suas viagens o dentista abastecia-o de leitura.

- São tristes? - perguntava o velho.

- De chorar rios de lágrimas - garantia o dentista.

- Com pessoas que se amam mesmo?
 
- Como ninguém nunca amou.

- Sofrem muito?

- Eu quase não consegui suportar - respondia o dentista.

Mas o doutor Rubicundo Loachamín não lia os romances.

Quando o velho Lhe pediu o favor de lhe trazer leitura, indicando muito claramente as suas preferências - sofrimentos, amores infelizes e desfechos felizes -, o dentista sentiu que estava perante um encargo difícil de cumprir.

Luis Sepúlveda, in O velho que lia romances de amor, Asa, 2000, 17ª ed., pp. 24-25 

16 de setembro de 2013

Mar...


Ilustração de Monica Armiño


Agora o mar lambia a areia mesmo em frente da esplanada.


Lídia Jorge, "Espuma da tarde", in Marido e outros contos, D. Quixote, 2008, 5ª ed., p.65