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13 de outubro de 2015

Cantiga


 
Ilustração de Yoshinori Mozneko

É pelo teu rosto em que as marés passam,
pelos teus lábios em que voam gaivotas,
pelos teus dedos em que a luz perpassa,
pelos teus olhos que me traçam as rotas,

que este barco encontra o caminho,
que este dia descobre que não é tarde,
que as palavras se bebem como vinho,
e o fogo não queima quando arde.

É no que me dizes quando a noite fala,
no que perdura da manhã que se esquece,
no que é dito em tudo o que se cala,

e não precisa de ser dito quando amanhece. 



Ilustração de Jen Corace
Pode ser o amor tantas vezes sentido,
ou só aquilo que vive no coração,
pode ser o que pensava ter esquecido,
e regressa agora pela tua mão.

Quantas vezes já foi primavera,
e logo aí as flores morreram:
até ao dia em que nada ficou como era,

e todas as folhas mortas reverdeceram.

Nuno Júdice, in A matéria do poema, D. Quixote, 2008, 1ª ed., p. 96

Dedicatória



Ilustração de Kristian Adam
Para ti, de corpo aberto como a taça do
horizonte, onde se derrama o vinho fresco
da madrugada, é o poema que os deuses
esqueceram numa antiga encruzilhada. Leio-te
com a voz do vento cada uma das suas
palavras; e elas soltam-se do verso, como insectos
luminosos, roubando aos teus olhos um
cenário de clareiras e colinas.

No chão, onde a toalha do amor se estende,
nasceram as flores inextinguíveis da manhã. Conto
as suas pétalas num exercício de lenta
matemática, dando cor a cada número; e
os teus dedos tingem-se do seu fulgor,
roubando à terra os verdes que a primavera
declina, e ao céu os tons de azul com que
o verão encheu a tua sombra.

Ilustração de Mrzyk Moriceau

Sacrifico ao rigor da imagem o perfil
que a transparência sonha; e saboreio a água
fresca do ribeiro que corre nos teus lábios,
quando me falas, e todas as aves se juntam
no teu colo de nuvem. Despes, devagar, a túnica
da tarde; e um resto de melancolia envolve
o gesto que amadurece o desejo,
como um fruto, quando os corpos caem.

Ilustração de Necdet Yilmaz
Tu, cujas mãos se libertam do espelho,
desenhando a linha que o sonho atravessa.

Nuno Júdice, in Fórmulas de uma luz inexplicável, D. Quixote, 2012, 2ª ed., p. 26

 

Para ti, de corpo aberto como a taça do
horizonte, onde se derrama o vinho fresco
da madrugada, é o poema que os deuses
esqueceram num antiga encruzilhada. Leio-te
com a voz do vento cada uma das suas
palavras; e elas soltam-se do verso, como insectos
luminosos, roubando aos teus olhos um
cenário de clareiras e colinas.
No chão, onde a toalha do amor se estende,
nasceram as flores inextinguíveis da manhã. Conto
as suas pétalas num exercício de lenta
matemática, dando cor a cada número; e
os teus dedos tingem-se do seu fulgor,
roubando à terra os verdes que a primavera
declina, e ao céu os tons de azul com que
o verão encheu a tua sombra.
Sacrifico au rigor da imagem o perfil
que a transparência sonha; e saboreio a água
fresca do ribeiro que corre nos teus lábios,
quando me falas, e todas as aves se juntam
no teu colo de nuvem. Despes, devagar, a túnica
da tarde; e um resto de melancolia envolve
o gesto que amadurece o desejo,
como um fruto, quando os corpos caem.
Tu, cujas mãos se libertam do espelho,
desenhando a linha que o sonho atravessa. - See more at: http://indigohorizonte.blogspot.pt/2013/11/dedicatoria-nuno-judice.html#sthash.7reqRlWT.dpuf

10 de outubro de 2015

Tempo instável

Ilustração de Lucy Campbell

Logo a seguir ao almoço começa a chover. É
uma sequência que não tem nada de lógico, e também
podia ter dito que, logo antes do almoço começou a chover. A
lógica disto é que foi depois de almoço que fui à janela
e ouvi o ruído da chuva; e quando abri a janela
a chuva caía com toda a força, isto é, com tanta força
que, na casa em frente, os lençóis pendurados a secar
escorriam água. Na realidade, a chuva que cai no outono
também traz a melancolia que atravessa as almas e as
enche de pensamentos obscuros. Ao ver esses lençóis
encharcados, pensei na cama onde estiveram, e nos corpos
que sobre eles se abraçaram, longe da chuva e da monotonia
dos cinzentos outonais. Com tudo isto, nem reparei
que a chuva deixou de cair, um pedaço de sol
despontou de entre as nuvens e os prédios, e os lençóis
ganharam vida, como se ainda sentissem o calor
desses corpos que o amor juntou.

Nuno Júdice, in Fórmulas de uma luz inexplicável, D. Quixote, 2012, 2ª ed., p. 80

3 de outubro de 2015

Um hipnotizador no fio da navalha

Valter sorriu. Apreciar esquilos era uma atividade relaxante. Estava cansado da vida de hipnotizador. Demasiado poder sobre a vida dos outros era um tédio. Habituara-se a dominar as pessoas que o rodeavam através do hipnotismo, o que lhe dava ao início algum gozo, depois tornara-se uma compulsão. Aos poucos, transformara-se numa tortura, a que não conseguia fugir. 

Ilustração de Sara Tyson

Para comer, hipnotizava o empregado do restaurante. Para obter bens, desde roupa até ao mais sofisticado relógio, hipnotizava o funcionário da loja respectiva. Para estacionar num parque cheio, hipnotizava um condutor, que logo retirava  o carro, vagando um lugar. Vivia fascinado com o seu poder, mas ao mesmo tempo a vida parecia-lhe pouco interessante, baça, até dolorosa.


 Miguel Miranda, "Um hinotizador no fio da navalha" in A fome do licantropo e outras histórias
Porto Editora, 2014, 1ª ed., p.54

29 de setembro de 2015

Sissi

Ilustração de Masha Kurbatova

Os soluços fizeram-na estremecer, o corpo apertava-se contra o espartilho, fazendo-a crispar-se de dor e de falta de ar. Agarrando-se ao peito, aceitou a dor. Era uma pequena penitência pelo ato egoísta e inexplicável de se apaixonar pelo noivo da irmã. E, pior ainda, por se sentir feliz com o facto indiscutível de que ele parecia amá-la também. Amá-la a ela, Sissi, embora Helena lhe estivesse prometida, E assim, no meio da escuridão, chorou.


Allison Pataki, in Sissi - Imperatriz por amor, 20/20 Editora,p. 141

22 de setembro de 2015

Amor e protocolo

- Isto é o Beija-mão? - sussurrou Sissi para Francisco enquanto as nobres entravam, com as cabeças enfeitadas com plumas e fruta, e com expressões de avaliação e escrutínio no rosto. - Ou é o Desfile dos Corações Partidos?

Ilustração de Masha Kurbatova
 
Francisco riu-se da piada, mas Sissi reparou que a sogra fez uma careta. Não estava escrito em parte nenhuma do guia do protocolo que era permitido aos recém-casados sussurrar. E não era, certamente, permitido soltar risinhos no dia do casamento.


Allison Pataki, in Sissi - Imperatriz por amor, 20/20 Editora, p. 184

21 de setembro de 2015

Voarei em círculos sem repouso

Ilustração de Samaneh Rahbarnia

Como as tuas próprias aves marinhas,
Voarei em círculos sem repouso.
Para mim a Terra não tem cantos
Para construir um ninho duradouro.

Imperatriz Isabel da Áustria, Sissi


Allison Pataki, in Sissi - Imperatriz por amor, 20/20 Editora

19 de setembro de 2015

O meu amor não cabe num poema

Ilustrações da Mariana Kalacheva

O meu amor não cabe num poema - há coisas assim,
que não se rendem à geometria deste mundo;
são como corpos desencontrados da sua arquitectura
ou quartos que os gestos não preenchem.

O meu amor é maior que as palavras; e daí inútil
a agitação dos dedos na intimidade do texto -
a página não ilustra o zelo do farol que agasalha as baías
nem a candura da mão que protege a chama que estremece.

 



O meu amor não se deixa dizer - é um formigueiro
que acode aos lábios como a urgência de um beijo
ou a matéria efervescente dos segredos; a combustão
laboriosa que evoca, à flor da pele, vestígios
de uma explosão exemplar: a cratera que um corpo,
ao levantar-se, deixa para sempre na vizinhança de outro corpo.

O meu amor anda por dentro do silêncio a formular loucuras
com a nudez do teu nome - é um fantasma que estrebucha
no dédalo das veias e sangra quando o encerram em metáforas.
Um verso que o vestisse definharia sob a roupa
como o esqueleto de uma palavra morta. Nenhum poema
podia ser o chão da sua casa.

               Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p. 94

10 de agosto de 2015

Os meus livros não são livros



Ilustração de Noemí Villamuza



Os meus livros não são livros, mas folhas separadas e caídas por acaso nas estradas da minha vida.

 Chateaubriant

7 de agosto de 2015

creio que o amor tem asas de ouro

Ilustrações de Marie Cardouat


creio nos anjos que andam pelo mundo,
creio na deusa com olhos de diamantes,
creio em amores lunares com piano ao fundo,
creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes;

creio num engenho que falta mais fecundo
de harmonizar as partes dissonantes,
creio que tudo é eterno num segundo,
creio num céu futuro que houve dantes,

creio nos deuses de um astral mais puro,
na flor humilde que se encosta ao muro,
creio na carne que enfeitiça o além,



creio no incrível, nas coisas assombrosas,
na ocupação do mundo pelas rosas,
creio que o amor tem asas de ouro. amém.


Natália Correia

4 de agosto de 2015

Os amigos


 
Ilustração de Angela Morgan

Voltar ali onde

 A verde rebentação da vaga

 A espuma o nevoeiro o horizonte a praia

 Guardam intacta a impetuosa

 Juventude antiga -

 Mas como sem os amigos

 Sem a partilha o abraço a comunhão

 Respirar o cheiro a alga da maresia

 E colher a estrela do mar em minha mão



Sophia de Mello Breyner Andresen, in Musa