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7 de maio de 2014

A sombra quieta

Ilustração de Young Ju Choi


Era uma vez uma sombra
que não parava de estar quieta.
Quanto mais quieta estava
mais o pobre corpo
se mexia
e saltava,
esbracejava, corria.
Tomado pelo medo,o corpo acabou por fugir
daquele sinistro lugar.
Nunca mais ninguém o viu.
E a sombra?
Ainda lá está.
Ali, naquele lugar.


João Pedro Mésseder, in Pequeno Livro das Coisas, Caminho, 2012, p. 9

6 de maio de 2014

Poema da Auto-estrada

Voando vai para a praia
Leonor na estrada preta.
Vai na brasa, de lambreta.

Leva calções de pirata,
vermelho de alizarina,
modelando a coxa fina,
de impaciente nervura.
como guache lustroso,
amarelo de idantreno,
blusinha de terileno
desfraldada na cintura.

Fuge, fuge, Leonoreta:
Vai na brasa, de lambreta.
 
Ilustração de Paula Dominguez Romeo

Agarrada ao companheiro
na volúpia da escapada
pincha no banco traseiro
em cada volta da estrada.
Grita de medo fingido,
que o receio não é com ela,
mas por amor e cautela
abraça-o pela cintura.
Vai ditosa e bem segura.

Com um rasgão na paisagem
corta a lambreta afiada,
engole as bermas da estrada
e a rumorosa folhagem.
Urrando, estremece a terra,
bramir de rinoceronte,
enfia pelo horizonte
como um punhal que se enterra.
Tudo foge à sua volta,
o céu, as nuvens, as casas,
e com os bramidos que solta,
lembra um demónio com asas.

Na confusão dos sentidos
já nem percebe Leonor
se o que lhe chega aos ouvidos
são ecos de amor perdidos
se os rugidos do motor.

Fuge, fuge, Leonoreta
Vai na brasa, de lambreta.

António Gedeão, in Poesias Completas

4 de maio de 2014

Saberás que não te amo e que te amo

Ilustração de Claudia Tremblay


Saberás que não te amo e que te amo
porquanto que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem sua metade fria.

Eu te amo para começar a te amar,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de te amar nunca:
por isso mesmo é que ainda não te amo.

Te amo e não te amo como se tivesse
em minhas mãos a chave da ventura
e um incerto destino desditado.

Meu amor tem duas vidas para amar-te. 

Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo.


Pablo Neruda, Cien sonetos de amor, in Presentes de um poeta, Arte Plural ed., 2003, pp. 26-27

3 de maio de 2014

A terra

Ilustração de Sonia MariaLuce Possentini

Quando estamos longe da pátria
nunca a recordamos em seus invernos.


Pablo Neruda, Confesso que he vivido, in Presentes de um poeta, Arte Plural ed., 2003, pp. 26-27

2 de maio de 2014

A poesia é indestrutível

Ilustração de Sonia MariaLuce Possentini


Minha fé em todas as colheitas do futuro


se afirma no presente. E declaro, por muito


que se saiba, que a poesia é indestrutível.



Pablo Neruda, Discurso en Chile, in Presentes de um poeta, Arte Plural ed., 2003, p. 73

1 de maio de 2014

O poeta

Ilustração de Moony Khoa Le 

O poeta é igual ao jardim das estátuas


Ao perfume do Verão que se perde no vento



Veio sem que os outros nunca o vissem



E as suas palavras devoraram o tempo.




Sophia de Mello Breyner Andresen, "No Tempo Dividido", in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 302

30 de abril de 2014

O que é um poeta na terra?

Ilustração de Sonia MariaLuce Possentini 

O que é um poeta na terra? É alguém que ensina a ver. Alguém que não se conforma que o olhar dos homens fique capturado pelo breu, pela desesperança ou pelo medo. É alguém que nos infernos e purgatórios da história rasga saídas criativas, fendas para olhar mais longe, miradouros debruçados sobre um futuro outro, capaz de estilhaçar a fatalidade. Claro que a matéria de trabalho de um poeta é a palavra. Mas a palavra não é só palavra: é sede, é desejo de comunicar, é mergulho na realidade para a compreender melhor, é a sabedoria de perceber que o visível é também um signo do invisível e que não se pode separar o audível do inaudível, a palavra do silêncio.


José Tolentino Mendonça, "Em memória de Vasco Graça Moura: Um poeta é alguém que ensina a ver", in
SNPC | 29.04.14

28 de abril de 2014

blues da morte de amor


Ilustração de Toshiyuki Enoki


já ninguém morre de amor, eu uma vez 
andei lá perto, estive mesmo quase,
era um tempo de humores bem sacudidos,
depressões sincopadas, bem graves, minha querida,
mas afinal não morri, como se vê, ah, não,
passava o tempo a ouvir deus e música de jazz,
emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes,
ah, sim, pela noite dentro, minha querida.

a gente sopra e não atina, há um aperto
no coração, uma tensão no clarinete e
tão desgraçado o que senti, mas realmente,
mas realmente eu nunca tive jeito, ah, não,
eu nunca tive queda para kamikaze,
é tudo uma questão de swing, de swing, minha querida,
saber sair a tempo, saber sair, é claro, mas saber,
e eu não me arrependi, minha querida, ah, não, ah, sim.

há ritmos na rua que vêm de casa em casa,
ao acender das luzes, uma aqui, outra ali.
mas pode ser que o vendaval um qualquer dia venha
no lusco-fusco da canção parar à minha casa,
o que eu nunca pedi, ah, não, manda calar a gente,
minha querida, toda a gente do bairro,
e então murmurarei, a ver fugir a escala
do clarinete: — morrer ou não morrer, darling, ah, sim.


                                         
                                         Vasco Graça Moura, in Antologia dos Sessenta Anos

insinceridade

Ilustração de Carlotta Castelnovi
quis-nos aos dois enlaçados 
meu amor ao lusco-fusco
mas sem saber o que busco:
há poentes desolados
e o vento às vezes é brusco

nem o cheiro a maresia
a rebate nas marés
na costa de lés a lés
mais tempo nos duraria
do que a espuma a nossos pés

a vida no sol-poente
fica assim num triste enleio
entre melindre e receio
de que a sombra se acrescente
e nós perdidos no meio

sem perdão e sem disfarce,                                                                
sem deixar uma pegada
por sobre a areia molhada,
a ver o dia apagar-se
e a noite feita de nada

por isso afinal não quero
ir contigo ao lusco-fusco,
meu amor, nem é sincero
fingir eu que assim te espero,
sem saber bem o que busco.

Vasco Graça Moura, in Antologia dos Sessenta Anos

27 de abril de 2014

soneto do amor e da morte

quando eu morrer murmura esta canção 
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão. 

Ilustração de Jenny Meilihove
quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não

tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.

Vasco Graça Moura, in Antologia dos Sessenta Anos

Vasco Graça Moura

Ilustração de Bella Sinclaire


A poesia é a minha forma verbal de estar no mundo.


Vasco Graça Moura

25 de abril de 2014

Promessa

Ilustração de Amélie Fléchais


Na clara paisagem essencial e pobre


Viverei segundo a lei da liberdade


Segundo a lei da exacta eternidade.


Sophia de Mello Breyner Andresen, "No Tempo Dividido", in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 288

Eu falo da primeira liberdade

Ilustração de Oliver Flores


Eu falo da primeira liberdade

Do primeiro dia que era mar e luz

Dança, brisa, ramagens e segredos

E um primeiro amor morto tão cedo

Que em tudo que era vivo se encarnava.



Sophia de Mello Breyner Andresen, "No Tempo Dividido", in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 281

23 de abril de 2014

Das coisas que competem aos poetas

Ilustração de Helen Dardik


Nas terras onde os sinos andam pelas ruas

há horas surdas sós e sem cuidados

há mar condicionado ao possível verão

e vendem-se manhãs e mães por três ideias

Nas terras onde a música é o fogo de artifício

a camioneta curva a carga sob os plátanos

e à sombra dos lacrimejantes carros

o gato dorme a trepadeira sobe

o soba grita nunca ninguém sabe

a erva cresce e as crianças morrem

O mar aceita chão a mão do sol

Que plural deplorável o da magna agência mogno

E nas tílias há riscos dos vestidos de retintas raparigas

e o dente resistente número quarenta cheira a Pepsodent



Ruy Belo, in Todos os poemas, Assírio&Alvim, 2000, p. 155

A poesia revela o poeta

Ilustração de Laimonas Smergelis

Para mim, a poesia não é instrumental. Eu não levo um programa de ideias para expressar na poesia. A poesia é que me revela. O poema é que me mostra o que eu ando a dizer. E daí talvez uma intensidade. Porque o poema não se faz de ideias, não se faz só de palavras, faz-se de uma experiência e, nessa experiência, está o que somos.


Tolentino Mendonça, in "Estante", Fnac, nº 1, primavera 2014, p. 23

22 de abril de 2014

A poesia é uma atenção ao real

Ilustração de Anne Cresci

As musas visitam-nos e, quando elas nos visitam, têm um caráter de imponderabilidade, de coisa que não se pode adiar. Aí, a escrita e a poesia acontecem de uma forma mais intensa. Nos outros momentos, ou seja, na maior parte do tempo, a poesia é uma atenção ao real, é um pequeno caderno que trago no bolso, onde vou anotando imagens, palavras, frases, todos os dias, a todas as horas.


                                                      Tolentino Mendonça, in "Estante", Fnac, nº 1, primavera 2014, p. 22

21 de abril de 2014

A vida e a escrita

Ilustração de Laimonas Smergelis




A vida não nos chama de uma maneira só, chama-nos com vozes diferentes que são no fundo a única voz. A escrita é uma espécie de ponte, funciona como uma espécie de resíduo, um lugar, por onde tudo passa e algumas coisas ficam.


Tolentino Mendonça, in "Estante", Fnac, nº 1, primavera 2014, p. 20

20 de abril de 2014

Páscoa Feliz

Ilustração de Ercan Baysal 

Que os nossos olhos, feitos para olhar as estrelas, não morram a olhar para os nossos sapatos.

Tolentino Mendonça, in O tesouro escondido

Pudesse eu não ter laços nem limites



Ilustração de Laimonas Smergelis



Pudesse eu não ter laços nem limites

Ó vida de mil faces transbordantes

Pra poder responder aos teus convites

Suspensos na surpresa dos instantes.


Sophia de Mello Breyner Andresen,  "Poesia II" in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p.33




19 de abril de 2014

Jardim perdido

Ilustração de Laimonas Smergelis

Jardim em flor, jardim da impossessão, 
Transbordante de imagens mas informe, 

Em ti se dissolveu o mundo enorme, 
Carregado de amor e solidão. 

A verdura das árvores ardia, 
O vermelho das rosas transbordava, 
Alucinado cada ser subia 
Num tumulto em que tudo germinava. 

A luz trazia em si a agitação 
De paraísos, deuses e de infernos, 
E os instantes em ti eram eternos 
De possibilidade e suspensão.


Mas cada gesto em ti se quebrou, denso 
Dum gesto mais profundo em si contido, 
Pois trazias em ti sempre suspenso 
Outro jardim possível e perdido.



Sophia de Mello Breyner Andresen,  "Poesia II" in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 45