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22 de janeiro de 2013

Como o rumor



Ilustração de Maki Hino
Como o rumor do mar dentro de um búzio                
O divino sussurra no universo

Algo emerge: primordial projecto.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Nome das coisas

21 de janeiro de 2013

A forma justa




Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos — se ninguém atraiçoasse — proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
— Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo

Cidades, de Amy Casey
Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo



Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Nome das coisas

20 de janeiro de 2013

Domingo

Ilustração de Maki Hino

 ...e o domingo terminava, com uma serenidade cansada e triste.



Eça de Queirós, in O Primo Basílio

19 de janeiro de 2013

À sombra de Victor Hugo

Ilustração de Nabhan Abdullatif
A sombra é sempre escura até mesmo 
a dos cisnes.

Eugénio de Andrade, in Pequeno formato

Cultura e vazio

Ilustrações de Alberto Godoy
 












Só pequenas minorias se emancipam da religião substituindo com a cultura o vazio que ela deixa nas suas vidas: a filosofia, a ciência, a literatura e as artes. Mas a cultura que pode cumprir esta função é a alta cultura.

Mario Vargas Llosa (2012), in A civilização do espetáculo, Quetzal, p.40

18 de janeiro de 2013

Escrita e memória

Ilustração de André Letria


O recurso à escrita debilita o poder da memória. Aquilo que fica escrito e que, portanto, pode ser armazenado (...) já não precisa de ser confiado à memória. Cultura oral é aquela que constantemente reactualiza as memórias; um texto, ou uma cultura do livro, autoriza (...) todas as formas de esquecimento.

Georges Steiner, in O silêncio dos livros 

17 de janeiro de 2013

A promessa de um sentido



Ilustração de Aki

O texto escrito implica, entre o autor e o respectivo leitor, a promessa de um sentido.

Georges Steiner, in O silêncio dos livros

16 de janeiro de 2013

Silêncio ou luxo

O silêncio passou a ser um luxo.

A cena do criado ou do empregado doméstico, no alto do seu escadote, a espanejar amorosamente os derradeiros volumes da biblioteca cheira a nostalgia suspeita. O tempo acelerou espantosamente, como Hegel e Kierkegaard foram dos primeiros a fazer notar. Os vários momentos de tempo livre de que depende qualquer leitura séria, silenciosa e responsável tornaram-se apanágio quase exclusivo dos universitários e dos investigadores. Vamos matando o tempo em vez de nos sentirmos à vontade adentro dos seus limites.

Georges Steiner, in O silêncio dos livros
Ilustrações de Vladymyr Lukash

14 de janeiro de 2013

Se quisermos, podemos voar

Ilustração de Kristin Kwan
Em História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar, de Luís Sepúlveda, Zorbas e os restantes gatos do porto, quando se rendem à sua impotência para ensinarem a gaivota a voar, escolhem um humano para os ajudar nessa tarefa. 

Após várias tentativas, decidem-se por um poeta, porque o poeta é alguém que voa com as palavras.

A mensagem da obra é sublime: se quisermos, podemos voar.

13 de janeiro de 2013

Esperança sobre o voo humano



O livro é de grande beleza. As ilustrações a preto e branco são dos mesmos autores do texto, que traduz uma mensagem de esperança sobre o voo humano.


"Um dia, as aves pousaram o seu olhar para lá dos ramos e das folhas, e imaginaram uma vida diferente. Começou assim uma nova era."



 "Felizmente, em algum lugar, há ainda quem deseje estender as asas e aprender a voar."





Aves, dos autores e ilustradores mexicanos María Julia Díaz Garrido e David Daniel Álvarez Hernández, editado pela Kalandraka, foi o livro vencedor do V Prémio Internacional Compostela para álbuns ilustrados.

Ilustrações de María Julia Díaz Garrido e David Daniel Álvarez Hernández

12 de janeiro de 2013

O tempo do inútil



O tempo de ler associa-se ao tempo de lazer mas também ao não tempo, que é o tempo de Deus. O tempo do inútil, do “desútil”, como refere o poeta brasileiro Manoel de Barros, ou seja, de um tempo mais para ser do que para fazer, um tempo por vezes difícil de encontrar e de nos concedermos mas que, quando no-lo concedemos, nos amplia o olhar e o coração, cava o silêncio que germina em nós e nos purifica. Ler é, pois, também ler-nos, ler a nossa própria história, quer por identificação quer por contraste com personagens, vivências, locais, cores, culturas, aromas, civilizações, hábitos e costumes. O tempo e o espaço transportam-nos para outros lugares e para lugar nenhum, para a utopia, o sonho, a irrealidade, um espaço de liberdade e de imaginação, espaço de narrativas que nos oferecem um tempo gratuito, de fruição ou de aprendizagem. De encontro ou de ilusão. De simpatia ou de transporte para outras realidades diferentes das do quotidiano.

Ilustrações de Glenda Sburelin

Os livros são ponte para a “teologia da inutilidade”, de que nos fala Tolentino Mendonça, para o lugar da estética, da poesia, da reflexão, do sem porquê, como a rosa ou o brinquedo.,

Maria Carla Crespo

11 de janeiro de 2013

Ouvido

Ilustração de Fuco Ueda









Um livro é o ouvido que encostamos à terra para escutar o mundo.

 ...Esperamos…que não escutemos apenas o mundo através dos livros, mas que nos escutemos a nós mesmos em todos os quartos que possuímos e cujas portas nunca soubemos abrir.


Robert Louis Stevenson, in O estranho caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde (contra-capa)