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15 de novembro de 2012





Por vezes quando saímos de cena é que sabemos que papel representámos.
Staninslaw Jerzylec, poeta polaco

Ilustrações de Alice Vilhena

14 de novembro de 2012

Desvegetar


Ilustração de Alice Vilhena


Assim passeio lentamente a minha inconsciência consciente, no meu tronco de árvore do usual. Assim passeio o meu destino que anda, pois eu não ando; o meu tempo que segue, pois eu não sigo. Nem me salva da monotonia senão estes breves comentários que faço a propósito dela.

Contento-me com a minha cela ter vidraças por dentro das grades, e escrevo nos vidros, no pó do necessário, o meu nome em letras grandes, assinatura quotidiana da minha escritura com a morte.Com a morte? Não, nem com a morte. Quem vive como eu não morre: acaba, murcha, desvegeta-se. O lugar onde esteve fica sem ele ali estar, a rua por onde andava fica sem ele lá ser visto, a casa onde morava é habitada por não-ele. É tudo, e chamamos-lhe o nada; mas nem essa tragédia da negação podemos representar com aplauso, pois nem ao certo sabemos se é nada, vegetais da verdade como da vida, pó que tanto está por dentro como por fora das vidraças, netos do Destino e enteados de Deus, que casou com a Noite Eterna quando ela enviuvou do Caos que nos procriou. 

Bernardo Soares, in Livro do Desassossego

13 de novembro de 2012

Deserto


Ilustração de Ford Smith
 
São horas talvez de eu fazer o único esforço de eu olhar para a minha vida. Vejo-me no meio de um deserto imenso. Digo do que ontem literariamente fui, procuro explicar a mim próprio como cheguei aqui.

Bernardo Soares, in Livro do Desassossego

12 de novembro de 2012

Viver é ser outro


Ilustração de Asako Eguchi

Viver é ser outro. Nem sentir é possível se hoje se sente como ontem se sentiu: sentir hoje o mesmo que ontem não é sentir - é lembrar hoje o que se sentiu ontem, ser hoje o cadáver vivo do que ontem foi a vida perdida.

Apagar tudo do quadro de um dia para o outro, ser novo com cada nova madrugada, numa revirgindade perpétua da emoção - isto, e só isto, vale a pena ser ou ter, para ser ou ter o que imperfeitamente somos. Esta madrugada é a primeira do mundo. Nunca esta cor rosa amarelecendo para branco quente pousou assim na face com que a casaria de oeste encara cheia de olhos vidrados o silêncio que vem na luz crescente. Nunca houve esta hora, nem esta luz, nem este meu ser. Amanhã o que for será outra coisa, e o que eu vir será visto por olhos recompostos, cheios de uma nova visão.

                                                                             Bernardo Soares, in Livro do Desassossego

11 de novembro de 2012

Imprevisíveis

Ilustrações de Asako Eguchi
Nós somos imprevisíveis. Às vezes olhamo-nos ao espelho e, mesmo sem dizer, recuperamos aquele verso de Rimbaud, "eu sou um outro". Quem é que me olha no espelho? Olhamos para nós e há uma estranheza de ser que nunca se cura: mas sou assim? que caminho é este? que tempos são estes que me habitam? Somos também um segredo para nós mesmos e temos de aceitar-nos assim. Somos um enigma, uma pergunta e temos de aceitar isso. Caso contrário não teremos paz. Habitaremos sempre a divisão e o conflito. Há, portanto, um momento em que é preciso dizer: "está bem, é assim; eu não explico, eu não concebo, eu não programo, mas é assim, e vou fazer alguma coisa com isso." 

Tolentino Mendonça, "Aceitar o enigma" in Nenhum caminho será longo, Para uma teologia da amizade

10 de novembro de 2012

A delicadeza do mundo (2)

Ilustração de Mozeko
"A delicadeza do mundo chega-nos
através de frases interrompidas
de sementes que nos dispersam
de paralelas pintadas..."

Tolentino Mendonça



A delicadeza do mundo, o belo e o inefável chegam-nos pela arte, pela literatura, pelas palavras conjugadas com sabedoria e sabor inesperado  pelos poetas e escritores, pelos artistas maiores, pelos ilustradores e ensaístas.
O belo e o horrível tornam-se arte e humanizam-nos e, humanizando-nos, divinizam-nos, tornam-nos mais inefáveis, mais densos, mais perto do centro do transcendente que nos engrandece.


PORTEFÓLIO DE LEITURAS tem criado, ao longo deste 1º aniversário que hoje celebramos, um  percurso pela arte literária, divulgando escritores e ilustradores. Porque de um portefólio digital se trata, vamos nele depositando sementes dispersas de poesia e de outras formas de literariedade, já por si eloquentes. Pontualmente, uma reflexão; outras vezes textos não literários, eleitos pela densidade da sua mensagem, como, a título de exemplo, as palavras de Muhammad Yunus, Prémio Nobel da Paz 2006.


Ilustrações de Miyuki
São referências muito usuais os poetas Nuno Júdice, José Tolentino Mendonça, Eugénio de Andrade, Sophia de Mello Breyner Andresen, Manuel António Pina, Maria Gabriela Llansol, mas também a prosa de Gonçalo M. Tavares, José Saramago, Hermann Hesse, Tonino Guerra ou Juan José Millás, a par de outros clássicos da literatura portuguesa e universal.

São leituras lidas, leituras amadas, leituras partilhadas. Pleonasticamente.
                                                                                          Maria Carla Crespo

 

A delicadeza do mundo (1)

Ilustração de Akitaka Ito



A delicadeza do mundo chega-nos
através de frases interrompidas
de sementes que nos dispersam
de paralelas pintadas
com uma faca ou uma corda
a mudar com o vento
mesmo aqui, mesmo neste instante
as paredes do mundo não são muralhas
de altura inusitada
mas escadas suaves como fumo


Pudéssemos acordar uma manhã
e descobrir na poça castanha
entre gravetos, folhas apodrecidas
e ramos
que fazemos parte da sua solidão

Tolentino Mendonça, in Estação central

Personagens de papel?

Ilustração de Fabiola Solano
As personagens convivem com o leitor e tornam-se tão reais como afirma Jacques Bonnet:

"amam, enganam, assassinam, culpam, roubam, fogem, traem, deliram, sacrificam-se, são cobardes, afundam-se na loucura, vingam-se ou acabam por suicidar-se, mas, mais uma vez, mesmo nestes actos específicos, as personagens inventadas são mais reais". Temos a certeza de que Carlos e Maria Eduarda, os amantes de Os Maias, de Eça de Queirós, viveram - sem que pelo menos um deles ignorasse completamente o que fazia - um amor incestuoso..."

Ilustração de Kike de la Rubia
Personagens fictícias e personagens reais são "farinha do mesmo saco", que povoam as nossas bibliotecas e se cruzam nas nossas vidas com igual realismo - segundo o citado especialista em bibliofilia e teoria da leitura.


Segredinhos literários



Jacques Bonnet, o bibliófilo francês que inspirou a criação deste blogue, afirma que o autor nunca nos diz tudo acerca das personagens. E exemplifica: "Em nenhum lado, na história de Moby Dick, se esclarece qual a perna do capitão Ahab que é de madeira, consequência do seu combate com a baleia (uma ignorância que, como assinalou Umberto Eco, John Huston não pôde respeitar na sua adaptação cinematográfica, ao ter de se decidir por uma em vez da outra, chegada a altura de preparar Gregory Peck para as suas cenas). Como Melville não nos explica, nós nunca o saberemos. A mesma incerteza paira sobre o pé torto de lorde Byron..."

E parodia continuamente, em Bibliotecas cheias de fantasmas, sobre o efeito máscara que o autor exerce sobre o leitor: "A arte romanesca é em grande medida a das coisas não ditas, mas há certos segredinhos que não se podem esconder dos leitores!"  



Ilustrações de Sonja Wimmer

8 de novembro de 2012

Algodão do céu



... parece Lisboa que é feita de algodão, agora pingando.

Ilustração de Rebeca Luciani

José Saramago, in O Ano da morte de Ricardo Reis

7 de novembro de 2012

Os livros querem ser gozados e amados

Ilustração de Lina Dudaite

Para determinar o valor que um livro pode ter para mim, o facto de o mesmo ser famoso ou de estar na moda não tem praticamente nenhum relevo. Os livros não existem para que todos os leiam e encontrem neles um tema de conversas mundanas durante um certo tempo e depois os esqueçam, como se faz com a última notícia desportiva ou de crónica policial: os livros querem ser gozados e amados com calma e serenidade. Só então nos revelarão as suas íntimas belezas e virtudes.


Hermann Hesse, in Uma biblioteca da literatura universal

6 de novembro de 2012

Da relação com os livros

Ilustração de Ester Garcia Cortes
Um elenco de livros cuja leitura seja absolutamente necessária e sem os quais não haja saúde nem cultura, não existe. Em vez disso, há para cada homem um notável número de livros nos quais precisamente ele, o indivíduo, pode encontrar satisfação e prazer. Descobrir gradualmente estes livros, entabular uma relação duradoura com os mesmos, possivelmente apropriarmo-nos deles a pouco e pouco, até os tornarmos uma posse extrínseca e intrínseca estável, constitui uma tarefa específica e pessoal de cada indivíduo, que ele não pode descurar sem restringir substancialmente o âmbito da sua própria cultura e das suas próprias alegras e, com isso, o valor da sua própria existência.


                                                                                         Hermann Hesse, in Uma biblioteca da literatura universal




5 de novembro de 2012

Escrita

Ilustração de Simon Corry
Se uma vez por outra escrevo é porque certas coisas não se querem separar de mim tal como eu não quero separar-me delas. No acto de escrevê-las elas penetram em mim para sempre - através da caneta e da mão - como por osmose.

Cristina Campo, in Os imperdoáveis

4 de novembro de 2012

Quando é que o Monstro se transforma em Príncipe?

Ilustração de Claude Theberge


Quando o portento se tornou supérfluo, quando a metamorfose já se realizou insensivelmente em Belinda: lavando-a de toda a saudade adolescente, de toda a ferrugem da fantasia, dela não deixando senão a atenta alma nua ("já não me parece um Monstro e mesmo que o fosse desposá-lo-ia na mesma porque é perfeitamente bom e eu só poderei amá-lo a ele").

Cristina Campo, in Os imperdoáveis

Perceção

Ilustração de Claude Theberge

Perceber é reconhecer apenas o que tem valor, apenas o que existe realmente.

Cristina Campo, in Os imperdoáveis