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7 de setembro de 2012

Autoestrada global

Ilustração de Andreas M. Wiese
O comércio global é como uma auto-estrada de uma centena de pistas que cruza o mundo. Se esta auto-estrada não tiver portagens, nem semáforos, nem limites de velocidade, nem restrições de tonelagem, nem, sequer, separadores, ela acabará por ser ocupada pelos camiões gigantes das economias mais poderosas do mundo.  Pequenos veículos - a camioneta de um agricultor ou as carroças puxadas por búfalos e os riquexós do Bangladesh - serão obrigados a abandonar a auto-estrada.
 
  
Muhamad Yunus*, in Criar um mundo sem pobreza (2008: 88)

*Prémio Nobel da Paz 2006

6 de setembro de 2012

Pessoas bonsai

Ilustração de Simona Dimitri


As pessoas pobres são pessoas bonsai. Não existe nada de errado com as sementes. A sociedade é que nunca lhes deu uma base adequada para crescerem. Tudo o que é necessário para tirar os pobres da pobreza é que criemos um ambiente favorável em volta deles. Quando os pobres forem autorizados a libertar a sua energia e criatividade, a pobreza desaparecerá rapidamente.
 
Muhamad Yunus*, in Criar um mundo sem pobreza (2008: 88)


*Prémio Nobel da Paz 2006

5 de setembro de 2012

Orfandade de amor


Ilustração de Berk Özturk





...agora reparava que os pais nos dão algo mais do que coisas úteis e que, quando se vão, nos deixam órfãos, tenhamos nove ou noventa anos.




Juan José Millás, in A Ordem Alfabética

4 de setembro de 2012

Linguagem

Ilustração de Anna Lisk
A linguagem é um excelente indício a respeito das pessoas.
Zoran Zivkovic, in O Escritor-Fantasma

3 de setembro de 2012

Escrita e literatura

René Magritte

Hoje em dia, as pessoas pensam que a mera alfabetização é garantia suficiente para tentarem escrever. É o mesmo que pensar que para ser pintor bastam os materiais de arte. Apenas aqueles que estudaram meticulosamente a literatura podem sonhar em criar algo.

Zoran Zivkovic, in O Escritor-fantasma

Liberdade humana

A vida do homem não pode "ser vivida" repetindo os padrões da espécie; é ele próprio - cada um de nós - quem deve viver. O homem é o único animal que pode estar aborrecido, que pode estar enojado, que pode sentir-se expulso do paraíso.
Erich Fromm, in Ética e Psicanálise, apud Savater, Ética para um jovem

2 de setembro de 2012

Sim ou Não

Ilustração de Anna Silivonchik
 
A liberdade não é uma filosofia e nem sequer é uma ideia: é um movimento da consciência que nos leva, em certos momentos, a proferir dois monossílabos: Sim ou Não. Na sua brevidade instantânea,  como a luz do relâmpago, desenha-se assim o sinal contraditório da natureza humana.
 
Octavio Paz, in A Outra Voz, apud Savater, Ética para um jovem
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

31 de agosto de 2012

O sol o muro o mar

Ilustração de Brenda Montes
No quadrado aberto da janela o mar cintila coberto de
escamas e brilhos como na infância.
O mar ergue o seu radioso sorrir de estátua arcaica.
Toda a luz se azula.
Reconhecemos nossa inata  alegria: a evidência do lugar
sagrado.


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Ilhas  

29 de agosto de 2012

Tanto de meu estado me acho incerto


Ilustração de Catrin Welz-Stein
Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa, juntamente choro e rio;
O mundo todo abarco e nada aperto.

É tudo quanto sinto um desconcerto;
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio,
Agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao Céu voando;
Nua hora acho mil anos, e é de jeito
Que em mil anos não posso achar ua hora.

Se me pergunta alguém porque assim ando,
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora.

                               Luís de Camões

28 de agosto de 2012

A bailarina russa

Ilustração de Emzar Kiknavelidze
Uma bailarina russa que tinha setenta anos e ensinava dança pelas escolas, foi seguida por um jovem, seduzido por sua figura esguia e arrebatadora.
Para não ser alcançada, correu até casa e, ofegante, fechou-se no apartamento. A filha jovem interrogou-a sobre o sucedido.
«Uma coisa extraordinária», responde a velha mãe. «Um rapaz seguiu-me e eu não quis que descobrisse meu rosto para não o desiludir com a minha idade. Vê pela janela se ainda está
no passeio».
A filha foi à janela e, sobre a estrada, depara com um velho que olhava para cima.

         Tonino Guerra, in Histórias para uma noite de calmaria

27 de agosto de 2012

Sul

Ilustração de Simona Dimitri
Era por agosto, há muitos anos.
O cheiro da sombra
das oliveiras subia ao ar. Vista de baixo
aquela folhagem parecia um mar,
um mar de vidro,
quando o sol oblíquo lhe caía em cima.
Eram dois cães raivosos, eram duas
cobras enroscadas, eram dois rapazes
rolando pelo chão; lutavam,
mordiam-se, abraçavam-se.
Deviam amar-se muito, para se baterem
com tal ardor. Um sol verde
lambia agora a terra.
Eram muito novos, há muitos anos,
no pino do verão, debaixo de uma oliveira,
onde só as cigarras monotonamente
consentiam.


Eugénio de Andrade, in Os Lugares do Lume

26 de agosto de 2012

A figueira

Ilustração de Nerida de Jong
Este poema começa no verão,
os ramos da figueira a rasar
a terra convidam a estender-me
à sua sombra. Nela
me refugiava como num rio.
A mãe ralhava: A sombra
da figueira é maligna, dizia.
Eu não acreditava, bem sabia
como cintilavam maduros e abertos
seus frutos aos dentes matinais.
Ali esperei por essas coisas
reservadas aos sonhos. Uma flauta
longínqua tocava numa écloga
apenas lida. A poesia roçava-
-me o corpo desperto até ao osso,
procurava-me com tal evidência
que eu sofria por não poder dar-lhe
figura: pernas, braços, olhos, boca.
Mas naquele céu verde de agosto
apenas me roçava, e partia.



Eugénio de Andrade, in Os Lugares do Lume

24 de agosto de 2012

Texto para uso didáctico


Assim, o que um poeta
faz com as palavras, ao
tocá-las com os dedos,
não é só
Ilustração de Joysuke Wong
o que o músico faz com os sons   
ou o pintor com as cores.
As palavras,
cuja composição espessa cimenta
o cérebro e lhe dá peso,
não se reduzem às matérias visual
e acústica respectiva-
mente da cor e do som.
A queda desamparada
do sentido para dentro de um
pequeno espaço de escrita,
assim como a súbita relação
estabelecida entre esse facto
e a minha consciência dele, desde logo
ampliam o horizonte expressivo
do poema.
E se o raciocínio e o gesto, em parte,
não entram nele,
não quer isto dizer que uma (outra)
razão, talvez mais profunda,
o inspire e penetre.
É que ela não se manifesta
expressamente pois, pelo contrário,
só no seu aspecto oculto
e “longínquo” se revela
- imediatamente -
o Poético.       
Nuno Júdice

23 de agosto de 2012

Sobre a mudança

Ilustração de Limeunhee
Talvez se tivesse dito, ao vê-la, que nada
poderia destruir a sua beleza. Nem vénus a perdeu, quando
lhe partiram os braços, ou de quantas outras estátuas
não restaram senão fragmentos, e ainda é possível
sonhar o todo a partir da parte. Mas pouco importa o que
se diz: a beleza, apesar daquilo que o tempo fez
ao corpo, pertence-lhe, e basta um breve olhar,
o gesto que repete o movimento de outrora,
a suave inflexão de uma frase, para trazer de volta
tudo o que parecia desaparecido. Por isso,
quando me cruzo com as mulheres que parecem
perdidas, num cruzamento, à espera de poderem
passar para o outro lado, ou quando as vejo
numa indecisão de pedir alguma coisa ao empregado
que se aproxima, com a carteira ao colo,
apago as sombras que as rodeiam, e devolvo-lhes
a luz de uma longínqua adolescência, o brilho
de rostos em que o amor ainda vivia, e um sorriso
a nascer no canto dos lábios, dissipando
a amargura do presente.

Nuno Júdice, in Fórmulas de uma luz inexplicável

22 de agosto de 2012

Manual do viajante


Ilustração de Catherine Samuel
Deixe que o conduzam pela berma do passeio, sem
tirar os pés dessa faixa mais larga entre a calçada e o alcatrão.
Faça com que os carros se desviem, à sua passagem, e
não tire os olhos do chão, como se andasse à procura
de moedas. Sim, à direita fica o muro do jardim, a igreja
lá para trás, talvez seja uma catedral, com os seus vitrais.
Mais à frente pode estar um museu, mas não se
preocupe e ande sempre em frente, seguindo essa linha de
separação entre o passeio e a estrada. Por vezes, sentirá a sombra
de uma árvore rara, cujas folhas são únicas no país.
Talvez sinta o seu perfume que, dizem os botânicos, enfurece
as fêmeas e desperta os machos. Mas nem isso o deverá
desviar. À esquerda, uma bela paisagem: o rio a transformar-se
em mar. Que importa se o chão continua ao longo da estrada,
e já tem carros a apitar para que se desvie, agora que vai
sair da cidade. Mas o seu destino ainda está longe, e
quando a tarde começa a cair não sabe se o irá alcançar.
Se houvesse um banco, poderia sentar-se; e ali está um,
ao lado do caminho, mas passou por ele e nem o viu. É
possível, diria o vagabundo que o viu passar, que fosse
esse o seu destino. Sentar-se-ia ao seu lado, pedir-lhe-ia
lume para o cigarro, sem se lembrar que há muito deixou
de fumar, e falar-lhe-ia na sua língua, que ele não
percebe, revelando o que há muito procura, enquanto a noite
cai e o caminho de volta se fecha.   

Nuno Júdice, in Fórmulas de uma luz inexplicável



21 de agosto de 2012

Almoço cosmopolita


Almocei, num país da américa do sul,
ao lado de um casal a falar francês;
todas as paredes tinham uma risca azul
e os clientes sentavam-se, um de cada vez.

Sabendo a língua deles, não precisei de tradutor
para saber o que diziam, alto para que eu ouvisse:
ela estava ali por acaso, ele era doutor,
sei que se amavam, pelo menos foi ela que o disse.
 
Ilustração de Mariana Kalacheva
Não me lembro já o que comi nesse almoço,
talvez não tivesse fome, e a conversa distraía-me.
O que eles diziam caía em mim como num poço,
e o seu silêncio, quando me olhavam, entristecia-me.

E hoje, quando almoço, bem a norte,
ninguém ao meu lado fala estrangeiro.
Pode ser que isto seja uma sorte,
ou será apenas um acaso passageiro.

Gosto destas histórias que acabam mal,
comigo a sair do restaurante, sozinho.
Então tenho a certeza de estar em portugal,
e depois do café, apetece-me um copo de vinho.


Nuno Júdice, in Fórmulas de uma luz inexplicável

20 de agosto de 2012

Descobrimento

Ilustração de Vladimir Olenberg

Saudavam com alvoroço as coisas
Novas
O mundo parecia criado nessa mesma
Manhã

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Ilhas

19 de agosto de 2012

A pressão dos mercados



Ilustração de Paulo Galindro

Emprestem-me as palavras do poema; ou dêem-me
sílabas ao desbarato, para que as ponha a render 
no mercado. Mas sobem-me a cotação da metáfora,
para que me limite a imagens simples, as mais
baratas, as que ninguém quer: uma flor? Um perfume
do campo? Aquelas ondas que rebentam, umas
atrás das outras, sem pedir juros a quem as vê?


É que as palavras estão caras. Folheio dicionários
em busca de palavras pequenas, as que custem
menos a pagar, para que não exijam reembolsos
se as meter, ao desbarato, no fim do verso. O
problema é que as rimas me irão custar o dobro,
e por muito que corra os mercados o que me
propõem está acima das minhas posses, sem recobro.

E quando me vierem pedir o que tenho de pagar,
a quantos por cento o terei de dar? Abro a carteira,
esvazio os bolsos, vou às contas, e tudo vazio: símbolos,
a zero; alegorias, esgotadas; metáforas, nem uma.
A quem recorrer? Que fundo de emergência poética
me irá salvar? Então, no fim, resta-me uma sílaba - o ar -
ao menos com ela ninguém me impedirá de respirar.


Nuno Júdice, in Fórmulas de uma luz inexplicável

18 de agosto de 2012

Dança


Quero gritar ao vento que sufoco nesta inércia das cidades solitárias
onde o outro se enrola em si próprio e se esquece de si e do mundo


Quero subir às estrelas qual pássaro vadio explorando a liberdade
em rotas nunca sonhadas mas doces e ternas
como a descoberta de um segredo que nos (in)quieta e nos renova por dentro

 
 
Ilustração de Danguole Jokubaitiene

Quero ultrapassar-me a mim mesma dançando / voando
num lugar sem tempo e sem espaço onde me reconheço
 e me reencontro com o indizível
 ouvindo músicas ainda por compor e sentir

Quero tocar os outros como quem se redescobre e sabe
 como os poetas e os anjos que só assim será possível alcançar a plenitude

Marina Baltar, 2009

Receita para fazer o azul


Ilustração de Irena Shklover

Se quiseres fazer azul,
pega num pedaço de céu e mete-o numa panela grande,
que possas levar ao lume do horizonte;
depois mexe o azul com um resto de vermelho
da madrugada, até que ele se desfaça;
despeja tudo num bacio bem limpo,
para que nada reste das impurezas da tarde.
Por fim, peneira um resto de ouro da areia
do meio-dia, até que a cor pegue ao fundo de metal.
Se quiseres, para que as cores se não desprendam
com o tempo, deita no líquido um caroço de pêssego queimado.
Vê-lo-ás desfazer-se, sem deixar sinais de que alguma vez
ali o puseste; e nem o negro da cinza deixará um resto de ocre
na superfície dourada. Podes, então, levantar a cor
até à altura dos olhos, e compará-la com o azul autêntico.
Ambas as cores te parecerão semelhantes, sem que
possas distinguir entre uma e outra.
Assim o fiz – eu, Abraão ben Judá Ibn Haim,
iluminador de Loulé – e deixei a receita a quem quiser,
algum dia, imitar o céu.
Nuno Júdice