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26 de fevereiro de 2012

Arte poética


Ilustração de Dennis Wojkiewicz

Se o poema não serve para dar o nome às coisas
outro nome e ao seu silêncio outro silêncio,
se não serve para abrir o dia
em duas metades como dois dias resplandecentes
e para dizer o que cada um quer e precisa
ou o que a si mesmo nunca disse.

Se o poema não serve para que o amigo ou a amiga
entrem nele como numa ampla esplanada
e se sentem a conversar longamente com um copo de vinho na mão
sobre as raízes do tempo ou o sabor da coragem
ou como tarda a chegar o tempo frio.


Ilustração de Duy Huynh


Se o poema não serve para tirar o sono a um canalha
ou ajudar a dormir o inocente
se é inútil para o desejo e o assombro,
para a memória e para o esquecimento.


Se o poema não serve para tornar quem o lê
num fanático
que o poeta então se cale.

                                                                         António Ramos Rosa, in Sílex, 1980

Agora as palavras

Ilustração de Salvia
Obedecem-me agora muito menos,
As palavras. A propósito
de nada resmungam, não fazem
caso do que lhes digo,
não respeitam a minha idade.
Provavelmente fartaram-se de rédea,
Não me perdoam
a mão rigorosa, a indiferença
pelo fogo de artifício.
Eu gosto delas, nunca tive outra
paixão. E elas durante muitos anos
também gostaram de mim: dançavam
à minha roda quando as encontrava.

Eugénio de Andrade, in O Sal da Língua

25 de fevereiro de 2012

Para um amigo tenho sempre um relógio


Ilustração de Aki
Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-íris de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.

António Ramos Rosa, in Viagem através duma Nebulosa, 1960

A festa do silêncio

Ilustração de Gabriela Herrera

Escuto na palavra a festa do silêncio.
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas.
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma.




Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia,
o ar prolonga. A brancura é o caminho.
Surpresa e não supresa: a simples respiração.
Relações, variações, nada mais. Nada se cria.
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.

Ilustração de Alexander Grishkevich


Nada é inacessível no silêncio ou no poema.
É aqui a abóbada transparente, o vento principia.
No centro do dia há uma fonte de água clara.
Se digo árvore a árvore em mim respira.
Vivo na delícia nua da inocência aberta.



António Ramos Rosa, in Volante Verde

21 de fevereiro de 2012

Do conto à realidade

"Argine", de Julia Simeón, consubstancia o pensamento de Bachelard de que se sonha antes de se compreender. É a passagem do conto, do sonho à realidade. Um filme de animação muito terno.





20 de fevereiro de 2012

O ornitorrinco


Ilustração de Bobby Chiu & Kei Acedera
Umberto Eco, na obra Kant e o ornitorrinco, analisa o problema das categorias de interpretação a partir dos juízos teorizados pelo filósofo alemão, que se depara com "um animal que tem um pouco de toupeira, um pouco de lontra, um pouco de pato, um pouco de castor. É um "ornitorrinco", mas ele não o sabe".

É este o exemplo que Granieri (2006) dá, em Geração Blogue, ao explicar que a internet e os blogues em particular nos colocam perante "o problema do ornitorrinco", que nos obriga a "readaptar continuamente as nossas categorias de interpretação".

Ilustração de António João Santos
e João Rodrigues
A experiência de recém-bloguista, em Portefólio de Leituras, foi moldando também as minhas categorias de interpretação do mundo tecnológico. Várias ferramentas aqui têm tido expressão, ao longo de cerca de 3 meses e mais de 2000 cliques!

Ultrapassado o medo (quase pânico!) de manejar tanto inaudito artefacto tecnológico, tornei-me sua aliada. 

Na verdade, tentei responder a um repto. O desafio de partida - a que não podia escapar! - tornou-se um prazer quotidiano, quase um vício, na vontade de me superar e de ultrapassar os constrangimentos e desaires informáticos que sempre vão surgindo.


Ilustração de Sam Hyuen Kim

Deste abraço (ao blogue, ao Popplet, ao Slideshare, ao Facebook, à incorporação de vídeos, etc.) fica um rasto. Um rasto com chama de futuro.

O Portefólio de Leituras vai continuar, com os seus amáveis e fiéis seguidores e o recurso inestimável a Pinzellades al món, blogue de ilustradores de livros internacionais, que na sua omnipresença tem procurado criar um fio condutor ao longo deste diário digital sobre livros e leituras!

19 de fevereiro de 2012

A opulência rota


Ilustração de Jacqui Faye

Elegância necessita-se, a aparência é essencial e criar uma imagem credível, que fica bem, que impressiona, que tem impacto e nos faz passar por pessoas admiráveis, com dinheiro, bem falantes e bem posicionadas socialmente é o objetivo da farsa social em que nos envolvemos.


Ilustração de Carl Cneut




Em cada época, porém, ressurgem vozes que gritam; espreitam os bastidores da opulência visível e desvendam sótãos degradados; voltam do avesso os fatos dos fidalgos e descobrem os bolsos rotos; coscuvilham os dividendos dos milionários e encontram onzeneiros usurários, a viver à custa do povo, do seu suor e miséria.

Ilustração de Sonya Wimmer


O teatro vicentino, tal como as suas personagens-tipo, é universal e intemporal. O cómico serve a crítica social. A fazer rir, ridiculariza-se e moraliza-se a sociedade: a pelintrice, as conveniências, a preguiça apaixonada por um marido rico, a fidalguia com os sapatos rotos e tantos e tantos outros tipos sociais e psicológicos a saírem de baixo do guarda-roupa. 

Eis uma síntese esquemática da crítica vicentina. Qualquer transposição para a atualidade é um exercício de lucidez!


18 de fevereiro de 2012

Mestre Gil e o Carnaval



Carnaval, de Simona Valentino

Gil Vicente foi mestre e ímpar na crítica a partir do ridículo e do burlesco. Provocando o riso, criticava as práticas, os hábitos, a moral vigente, os usos e costumes: "ridendo castigat mores".

Ler ou reler Mestre Gil é torná-lo atual neste Carnaval. Os paralelismos podem surpreender-nos!...



14 de fevereiro de 2012

A verdade do amor

Ilustração de Lauraballa
Não conheço outra verdade nesta terra
tão certa como a que diz o amor,
e que no peito o coração encerra
quanto mais o faz bater o calor.

Nuno Júdice, Geometria Variável

O que é o amor

Ilustração de Jiri Borski

Pergunto-te o que é o amor? E tu
dizes-me que o amor é perguntar-se por ele, e é
a dúvida que entra nessa pergunta"

Nuno Júdice, Cartografia de Emoções

Medir a voz do amor

Ilustração de Beatrice Alemagna
Há dias e acontecimentos que despertam as palavras, num sopro anímico, ao encontro de realidades indizíveis, inexprimíveis como o amor.

Alguns ousam deixar-se encaminhar, suster pelo fulgor de um arrebatamento de paixão ou íntima e nobre expressão de amor. Escrevem, escrevinham, ditam o que o coração pressente e as palavras leem.

Poesia, porém, só nos lábios dos poetas... Só eles sabem medir a voz do amor...

Maria Carla Crespo

12 de fevereiro de 2012

TIC e Literatura Portuguesa

Como apresentar projetos pessoais de literatura? Como traduzir o gosto pela pesquisa, o prazer da procura, do processo e do resultado? Como promover engenho e arte, num processo construtivo, em portefólio?
Autopsicanálise, de Nigel Buchanan
Esta reflexão tem por base bibliografia na área das TIC, mas aplica-se sobretudo à prática pedagógica em  Literatura Portuguesa, disciplina de opção em escolas que promovem as humanidades. Este esquema é, pois, quase um exercício de autopsicanálise, realizado no Popplet.

11 de fevereiro de 2012

Cenário com os pés de fora

Neve, de Virginia Lee
Deitamo-nos com a cama por fazer.
Uma pilha de blusas cai. Chão de verão.
Amor à tardinha com a vida desarrumada,
as coisas a meio. Até o silêncio está desarrumado.
Gosto deste cenário.
Há nele uma verdade que nem mesmo sei.
O meu quarto antigo sempre em desalinho
com os livros no chão ao pé da cama. Sentir
que a vida não é uma coisa útil e a horas,
e tu menos ainda, sem dobra no lençol
e os pés de fora. Foi isto que quis
na minha vida. Sem buracos de ozono,
sem buracos de fome ou de balas
atravessando os lençóis do mundo.

 Rosa Alice Branco

9 de fevereiro de 2012

A janela

Biblioteca, de Mihay Bodo

Uma das janelas de Calvino, a com melhor vista para a rua, era tapada por duas cortinas que, no meio, quando se juntavam, podiam ser abotoadas. Uma das cortinas, a do lado direito, tinha botões e a outra, as respectivas casas.

Calvino, para espreitar por essa janela, tinha primeiro de desabotoar os sete botões, um a um. Depois sim, afastava com as mãos as cortinas e podia olhar, observar o mundo. No fim, depois de ver, puxava as cortinas para a frente da janela, e fechava cada um dos botões. Era uma janela de abotoar. (...)

Daquela janela o mundo não era igual.
Gonçalo M. Tavares, in O Senhor Calvino

4 de fevereiro de 2012

Para que poema e vida coincidam


Inverno, de Alexander Grishkevich
Use o poema para elaborar uma estratégia

de sobrevivência no mapa da sua vida. Recorra
aos dispositivos da imagem, sabendo que
ela lhe dará um acesso rápido aos recursos
da sua alma. Evite os atolamentos
da tristeza, e acenda a luz que lhe irá trazer
uma futura manhã quando o seu tempo
se estiver a esgotar. Se precisar de
substituir os sentimentos cansados
da existência, reinstale o desejo
no painel do corpo, e imprima os sentidos
em cada nova palavra. Não precisa
de dominar todos os requisitos do sistema:
limite-se a avançar pelo visor da memória,
procurando a ajuda que lhe permita sair
do bloqueio. Escolha uma superfície
plana: e deslize o seu olhar pelo
estuário da estrofe, para que ele empurre
a corrente das emoções até à foz. Verifique
então se todas as opções estão disponíveis: e
descubra a data e a hora em que o sonho
se converte em realidade, para que poema
e vida coincidam.

Nuno Júdice, in Guia de Conceitos Básicos

28 de janeiro de 2012

O indizível

Ilustração de Vladimir Olenberg

Não é fácil anunciar a partida de alguém que amamos. Só os poetas sabem traduzir o indizível e são capazes de nos substituir quando andamos um dia inteiro às voltas, entre sentimentos, recordações, factos e vivências, para escrever duas linhas e comunicar uma vida.

Esta manhã fui surpreendida com a notícia da morte de uma amiga. Não sei se teve ou não consciência da sua partida; pode ter descansado “ignorante da morte”, mas sem dúvida “certa da sua ressurreição”, como diria Eugénio de Andrade, poeta que elegi para dar voz ao meu balbuciar de palavras contidas. 

Maria Carla Crespo





27 de janeiro de 2012

Uma espera em desassossego



Mesmo quando os livros se empilham na mesa de cabeceira, esperando a possibilidade de me entregar a cada um de um fôlego, sem conseguir encontrar uns dias inteiros plenos de leitura exclusiva, mesmo assim, Deus vem a público, de António Marujo, é para mim uma curiosidade que não resisto a juntar  brevemente aos outros volumes.

A personalidade de Abbé Pierre desassossega-me a espreitar as páginas da sua entrevista e a, com ele, parar os ponteiros do relógio...

23 de janeiro de 2012

O néctar da literatura

"Para se chegar a boas leituras é necessário ler de tudo até que a experiência leitora deixe a sua marca".

FERNÁNDEZ, Juan José Lage, in Animar a leer desde la biblioteca


Jeong Jong Hae
Esta é uma postura de leitura válida para quem começa a desbravar as letras ou para quem se obriga a gostar de determinado livro, autor ou estilo. Se a escola não instituísse um cânone literário, muitos perderiam na vida a oportunidade de se cruzarem com Cesário Verde, Pessoa, Vergílio Ferreira, Sophia ou Saramago, entre muitos outros nomes maiores da literatura portuguesa. O mesmo é verdade para os autores dos cancioneiros medievais, para as crónicas de Fernão Lopes..., para tantas e tantas páginas de literatura, sem esquecer o magistral Eça, que tiveram o intuito de nos deixar provar o que é literatura, mesmo que pontualmente a possamos abandonar.

Genevieve Despres (pormenor)
Tenho as minhas dúvidas sobre se é preciso ler de tudo, aí compreendendo o banal, o fútil, o óbvio. Não será a literatura um alimento do espírito? Entender-se-ia que numa degustação de vinho se provasse todo o tipo de vinho, sem o cuidado prévio de dar a saborear os melhores aromas e sabores do precioso néctar? Assim na literatura.

21 de janeiro de 2012

Leitor perfeito


Ilustração de Rafael Mendoza de Gyves



"A aprendizagem da leitura é progressiva. Cada vez que lemos, aprendemos a ler melhor, enriquecemos o nosso conhecimento de leitura.

O leitor nunca é perfeito."

                                                        Smith, 1986
                                                                                                    

                            
                                               

20 de janeiro de 2012

Bibliotecas íntimas


Ilustração de Mary Blair
Ler em voz alta, ler em silêncio, ser capaz de transportar na mente bibliotecas íntimas de palavras lembradas são capacidades extraordinárias que adquirimos através de métodos incertos.

     Manguel
                                                                                                                         

17 de janeiro de 2012

O Beijo


Essai, de Sandrine Kao


Poema de José Luís Peixoto, pela voz de Margarida Cardeal.



Redes sociais, política e pensamento

Assisti há umas horas a uma sessão sobre o tema proposto pela Assembleia da República para debate nas escolas neste ano letivo, a saber "Redes Sociais: Participação e Cidadania".

Ilustração de Pinzellades al món
Ilustração de Pinzellades al món
Ora, estando a refletir ultimamente sobre a Web 2.0 em geral, que obviamente engloba as redes sociais, dei por mim a identificar as posturas dos emigrantes e dos nativos digitais e, curiosamente, apercebi-me do quanto aqueles se mostraram mais à vontade para debater o tema do que estes, apesar de imersos diariamente no Twitter e no Facebook. Porém, talvez este fenómeno não seja de todo estranho, mas antes um sinal do que um dos oradores expunha, após se ter apresentado mais como um membro do mundo dos livros do que do universo das redes sociais, sem deixar de reconhecer a sua importância  na subscrição de causas humanitárias ou no combate à violência ou à injustiça, dimensões da vida política e de intervenção cívica.


Ilustração de Tesa Gonzalez
Contudo, Gabriel Mithá Ribeiro  assumia claramente a postura de quem se aproxima dos fenómenos tecnológicos e sociais com prudência, como quem os investiga e sobre eles reflete (e inflete o seu percurso), identificando com facilidade os constrangimentos do imediatismo, do clique rápido e fácil e da permitida opinião infundada e imatura, o que contraria a necessária ponderação e preparação dos assuntos antes de sobre eles nos pronunciarmos publicamente (opinião que subscrevo).

O conferencista, investigador e autor de inúmeros artigos na imprensa sobre política educativa Mithá Ribeiro alertava ainda para o facto de ser "mais difícil criar correntes de pensamento que correntes de pressão nas redes sociais".

Ilustração de Valentí Gubianas
E o que sobre isto pensam os jovens? Que contra-argumentos propõem?

O tempo é um escultor fugaz quando as questões nos interessam deveras. Ficou-me, pois, a vontade de continuar o debate, não na perspetiva política (ainda que sempre presente no sentido amplo de polis) mas na articulação e na aplicação das redes sociais à educação, à escola, às Bibliotecas Escolares. Até lá!


Maria Carla Crespo

12 de janeiro de 2012

Um filme que é arte

Este é um filme que proporciona uma leitura da vida diferente da maioria das nossas experiências pessoais, que infelizmente atravessa uma parte significativa da nossa vida profissional quando lidamos com alunos e com as famílias.


Um filme violento, no qual as relações se tecem em diálogos cruzados ou na ausência deles (frente a um ecrã de televisão, por exemplo), na cumplicidade de ligações perigosas (humanas, a meios e substâncias). Um filme violento, que perturba pelo realismo dos diálogos e das situações, pela dádiva presente nos laços familiares. Um filme que sobretudo é arte, pois o fascínio que desperta ultrapassa em muito a história narrada.

Esta é a diferença entre filme e arte. "Sangue do meu sangue" é arte.

9 de janeiro de 2012

A semente

Ilustração de Valentí Gubianas
Portefólio de Leituras conquistou mais de 1 150 cliques em apenas dois meses de existência. A semente continua a crescer.

Obrigada a todos os adeptos das letras e do digital que seguem este portefólio.





Alice no país da leitura

Ilustração de Scott Gustafson
"Para quem não sabe para onde ir, qualquer caminho serve". Esta conhecida afirmação, de Alice no País das Maravilhas, não pode aplicar-se ao papel da Biblioteca Escolar na formação de leitores.

Formar leitores implica, em primeiro lugar, conhecê-los. Depois, importa deslocar o olhar da obrigação para o prazer de ler. A organização do espaço e da coleção da BE há de atrair os mais novos e os menos jovens para esse encontro único que se dá particularmente entre a obra literária e o leitor. A definição de estratégias de leitura contraria o percurso errante evocado por Lewis Carroll.  

5 de janeiro de 2012

Eva sabia

Amor, de Miss Miza
"Eva sabia que estava a nascer nos olhos dele, mais concretamente nas íris cor de sépia, onde começava a ver a dupla pequena imagem da sua figura e da sua identidade. Eva disse-lhe: "Vamos chegar atrasados. Eu marquei com o construtor estarmos lá por volta do meio-dia. Temos de ir." Ele respondeu: "Mas ainda não acabei de engendrar-te."

"É doce estar espelhada nos olhos do amor. E, risonha como sempre, disse alto: É amor, isto? Vou ser tua? (...)"

"Estou a ver se imprimo a tua face na minha" [disse ele].


Ilustração de Özturk
                                 

"Eva sentia ali, de súbito, numa rua de Lisboa, o seu sangue e o dele, à superfície. Sabia que estava a ser criada no sangue dele, e que esse é um dos movimentos do amor, feito de movimento cada vez mais próximo. Ele gritou: "Está ali um táxi." E correram, como dois corpos que começam a querer ser um só."

"Se assim for", disse Eva, já sentada no táxi, "se somos dois corpos que vão ser um, é a Criação ao contrário." 



Excertos do conto "Eva sabia", de Fiama Hasse Pais Brandão,
in Contos da Imagem, Assírio & Alvim

Hoje descobri esta pérola de Fiama Hasse Pais Brandão. Os dias que a literatura tece são sempre mais profundos e luminosos.

Meteorologia bibliotecária

Chovem letras, de James Fryer


2 de janeiro de 2012

A chave dos sonhos


A chave dos sonhos, de Yoko Tanji

Um ano com livros é sempre um bom ano.

Como será viver sem livros?

31 de dezembro de 2011

FELIZ ANO NOVO!


Pierna, de Ester García

   Um salto qualitativo em 2012!

Um salto de solidariedade,

de humanismo...

Até adormecer... um percurso pela literacia digital...

Ilustração de Mae Besom


Em cada ano que passa só a abertura à surpresa, ao inesperado, ao desconhecido abre o coração e a mente para receber o novo. Cada ano é um processo de aprendizagens.

Este blogue pretende ser pessoal, um portefólio de leituras que vou realizando, sugerindo, auspiciando. Insere-se num conceito alargado de literacia. A literacia digital é uma dessas vertentes, que aqui tem sido ensaiada, experimentada, com ferramentas como o Photostory, o Slideshare ou o Glogster Edu.

Esta última ferramenta permite inserir e apresentar imagens, sons, caixas de texto, tanto pré-definidos como editados, criados pelo utilizador, como a ilustração de Smergelis Laimonas Jono apresentada em série. Este é um dos muitos efeitos desta tecnologia, que acabei de explorar e aplicar aqui.

Gostaria de ter inscrito, no longo e vermelho cabelo do anjo, os votos de Feliz Ano Novo, mas a minha intuição informática não mo permitiu. Consegui, sim, editar o tamanho das imagens, para que assumissem um porte que não excedesse o do blogue (com a ajuda da videoconferência com a Drª Helena Felizardo no Cisco), o que já me deixou orgulhosa.

Que novas tecnologias a descobrir me revelará 2012? Estou curiosa... Saberei quando despertar no novo ano. Agora durmo.

30 de dezembro de 2011

Inéditos quase de Natal

A época de Natal não se resume a um dia, mas amplifica-se desde a sua preparação (Advento) até à Epifania, Dia de Reis.

Por isso, aqui fica mais uma história. Esta é de Hélia Correia, ao JL, nº 1075, de dezembro de 2011.

A ilustração é de Afonso Cruz, que também escreveu um conto, mas com um final menos natalício e deveras surpreendente...

Do meio para trás

Ilustração de Afonso Cruz

Havia um espelho perto da saída e ele olhou-o distraidamente. Avançou mas depois voltou atrás. Ia apressado mas a imagem de si mesmo, por razões pouco claras, atraiu-o. Tratava-se de um velho mas um velho sempre ele fora, não era uma surpresa. Cabelo e barba brancos, a figura avolumada na barriga, as rugas, misto de bonomia e desidratação. O casaco vermelho com os seus debruns de pele clara parecia iluminar de uma luz própria o rosto sorridente. O que o chamara, então? Os olhos tristes. Os olhos mergulhados numa sombra. A cara estava como dividida por uma linha reta horizontal. Na metade de baixo desenhava-se o movimento da satisfação, com os cantos dos lábios ascendendo. A metade de cima descaía com um inesperado abatimento.
(...)
Pegou no saco dos presentes, pô-lo ao ombro e alguma coisa lhe doeu. (...)

 
Hélia Correia, JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias



29 de dezembro de 2011

Os textos, as histórias, a poesia aconchegam-nos no lazer e são bálsamo nos tempos de trabalho e de stress, de prazos a cumprir.

Esta é uma história de infância, uma narrativa que evoca um imaginário inocente, afável, dos primeiros textos lidos. Ainda assim...

Ilustração de Yihang Pan

Todos os anos, quando os velhos Reis Magos acabam de atravessar a pequena estrada de areia que se esboça entre caminhos de musgo e lagos feitos de bocados de espelho partido; quando a estrela de prata que se suspende entre os dois exemplares de “A Paleta e o Mundo” de Mário Dionísio se recolhe para regressar à velha caixa de papelão, com trinta anos de viagens, cheia de bocados de jornal amachucados que ainda guardam notícias de dias que já foram e onde se embrulham os cordeirinhos, os pastores, as oferendas várias que o Menino Jesus recebeu, apesar de já lhe faltar a mãozinha direita que alguém partiu em excesso de limpeza; todos os anos, dizia, recordo a história que o Fernando Midões me contou, certa tarde em que misturámos poemas com lágrimas.

27 de dezembro de 2011

Carlos C. Lainez, The sofa cat

A leitura é acto tipicamente humano (o animal não lê - mas ele também não veste, ainda que se associe gregariamente para buscar alimento ou para defesa). Tal acto deve ser assumido sobretudo como profundamente regenerador do homem (conferindo à sua interioridade a dimensão dos demais naquilo que eles de melhor podem oferecer); é fundamentalmente um acto intenso e assumi-lo como hábito consolidado levará a produzir integração social.

Aires A. Nascimento

26 de dezembro de 2011

Memória de infância


"O nome de um livro lido (conquistado?) já nada tem a ver com o que ele representava antes. O livro prepara-se para viver a sua própria vida na nossa memória."

BONNET, Bibliotecas cheias de fantasmas (2010:69)





Aqui fica a memória de uma história de infância, de Hans Christian Andersen, para os dias frios e mágicos de Natal.



Estava tanto frio! A neve não parava de cair e a noite aproximava-se. Aquela era a última noite de Dezembro, véspera do dia de Ano Novo. Perdida no meio do frio intenso e da escuridão, uma pobre rapariguinha seguia pela rua fora, com a cabeça descoberta e os pés descalços. É certo que ao sair de casa trazia um par de chinelos, mas não duraram muito tempo, porque eram uns chinelos que já tinham pertencido à mãe, e ficavam-lhe tão grandes, que a menina os perdeu quando teve de atravessar a rua a correr para fugir de um trem. Um dos chinelos desapareceu no meio da neve, e o outro foi apanhado por um garoto que o levou, pensando fazer dele um berço para a irmã mais nova brincar.
Por isso, a rapariguinha seguia com os pés descalços e já roxos de frio; levava no avental uma quantidade de fósforos, e estendia um maço deles a toda a gente que passava, apregoando: — Quem compra fósforos bons e baratos? — Mas o dia tinha-lhe corrido mal.

ANDERSEN, Hans Christian, A menina dos fósforos (adaptado)