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16 de março de 2015

Serão tristes as oliveiras?

Aquela senhora que conheci no comboio, olhando pela janela, disse-me a certa altura que a oliveira é uma árvore triste. Olhei também e estive quase a concordar. Agora felicito-me, porque não foi preciso. Lembro-me que a senhora ia vestida de preto. Talvez lhe tivesse morrido alguém. Às oliveiras daquele olival que passava lá fora é que eu tenho a certeza de que não faltava nada: nem sol, nem uma leve brisa, nem um fruto grado, prometedor. E perguntei para mim, ao descer do comboio:




- Porque maltratamos as oliveiras?


Ruy Belo, in Todos os nomes, Assírio&Alvim, 2000, p. 263



15 de março de 2015

Grandeza do homem

Ilustração de Ančka Gošnik Godec


Somos a grande ilha do silêncio de deus
Chovam as estações soprem os ventos
jamais hão-de passar das margens
Caia mesmo uma bota cardada
no grande reduto de deus e não conseguirá
desvanecer a primitiva pegada
É esta a grande humildade a pequena
e pobre grandeza do homem

Ruy Belo, in Todos os nomes, Assírio&Alvim, 2000, p. 58

11 de março de 2015

O valor perfectivo das palavras

- (...) As palavras são tudo. Olha: a palavra frio desce. A palavra calor sobe. A palavra ninho tem ovos lá dentro e um pássaro a dormir. 

Ilustração de Satoshi Ota

Há quem não queira que confundamos as palavras com as coisas, que o mapa não é o território, mas as palavras é que são  as coisas. Há mapas, mas não há nenhum território.  A palavra porta abre e fecha; e a palavra janela, se for velha, tem o vidro partido. A palavra água ou se bebe ou afoga-nos. Porque há pessoas com sede e pessoas que se afogam. É assim que se separa a humanidade: uns pegam nas coisas para morrer e outros para viver. E há  a palavra mar que afunda todos os navios.

Afonso Cruz, in O pintor debaixo do lava-loiças, Caminho, 2011, 1ª ed., p. 46 

9 de março de 2015

Que bicho espantoso!

Ilustração de Loretta Krupinski

As ratazanas, que bicho espantoso! Anteciparam a Segunda Guerra. Pareciam ter um mapa das canalizações de Londres; como se tivessem na cabeça os vários itinerários e como se soubessem já o que ia acontecer. Fugiram muito antes dos bombardeamentos.

Gonçalo M. Tavares, in Uma menina perdida no seu século à procura do pai, Porto Editora, 2014, 1ª ed., p.18

8 de março de 2015

O rosto


Impossível não reparar naquele rosto. O tão característico rosto redondo, olhos e bochechas enormes. Uma deficiente - ou um deficiente? Marius teve dificuldade em distinguir. À primeira vista parecia uma menina, sem dúvida - quantos anos, quinze, dezasseis? -, mas depois, olhado / olhada com mais atenção, dir-se-ia um rapaz, mas não. Uma rapariga.
Nas mãos tinha uma pequena cartolina. Marius esqueceu-se da sua pressa e aproximou-se. Ela sorriu e passou-lhe a cartolina para as mãos. Estava dactilografada.




Ilustração de Mymoodo




"FORNECER OS SEUS DADOS PESSOAIS

1- Dizer o primeiro nome
2- Dizer se é rapaz ou rapariga
3- Dizer o nome completo
4- Dizer o nome dos pais e irmãos
5- Dizer a morada
6- Dizer em que escola anda
7- Dizer a idade
8- Dizer o dia e o mês de aniversário
9- Dizer a cor dos olhos e do cabelo"                         

Marius sorriu.
Perguntou.
- Qual é o teu primeiro nome?
- Hanna.

Gonçalo M. Tavares, in Uma menina perdida no seu século à procura do pai, Porto Editora, 2014, 1ª ed., p. 9 

4 de março de 2015

A neta do Senhor Linh

Na aldeia só havia uma rua. Uma única. O chão era de terra batida. Quando a chuva caía, violenta e a prumo, a rua tornava-se um ribeiro em fúria pelo qual as crianças nuas corriam rindo às gargalhadas. 

Ilustração de_Iwasaki Chihiro
Durante o tempo seco, os porcos dormiam na rua espojando-se na poeira, enquanto os cães se perseguiam, ladrando. Na aldeia, toda a gente se conhecia e se cumprimentava quando se via. Havia ao todo doze famílias, e cada uma delas sabia a história das outras, era capaz de nomear os avós, os antepassados, os primos, conhecia os bens que cada um possuía. Em resumo, a aldeia era uma grande e única família, repartida por casas erguidas sobre estacas, e debaixo das quais as galinhas e os patos esgravatavam o chão e cacarejavam.

Ilustração de Flor Opazo
O velho apercebe-se de que, quando pensa na aldeia, pensa em termos de passado. O que lhe provoca um aperto no coração. É realmente um verdadeiro aperto que sente quando pousa a mão livre sobre o peito, no sítio do coração, para pôr termo ao aperto.

Philippe Claudel, in A Neta do Senhor Lihn, ed. Asa, 2006, 1ª ed., p. 14

1 de março de 2015

O perfume

Ilustração de Silvia Álvarez Castellar

De facto, como acontece com a moda, o perfume aproxima os iguais, distinguindo os diferentes.


José Machado Pais, in Lufa-lufa quotidiana, 
Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana
Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª ed., p. 60

28 de fevereiro de 2015

Ver claro

Ilustração de Deborah Dewit


Toda a poesia é luminosa, até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.


Eugénio de Andrade

É assim a música

Ilustração de Liese Chavez

A música é assim: pergunta, 
insiste na demorada interrogação
- sobre o amor?, o mundo?, a vida?
Não sabemos, e nunca
nunca o saberemos.
Como se nada dissesse vai
afinal dizendo tudo.
Assim: fluindo, ardendo até ser
fulguração – por fim
o branco silêncio do deserto.
Antes porém, como sílaba trémula,
volta a romper, ferir,
acariciar a mais longínqua das estrelas.

Eugénio de Andrade
 


27 de fevereiro de 2015

O tempo e as histórias

Ilustração de Deborah Dewit

Hoje, com o apressuramento da vida, as orelhas moucas fogem dos contadores de histórias, não há tempo para as memorizar nem para as recriar nos confins da recordação. 


José Machado Pais, in Lufa-lufa quotidiana, 
Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana
Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª ed., p. 48

26 de fevereiro de 2015

O tempo do caracol

Ilustração de Amber Alexander

Um caracol japonês subia lentamente ao longo de um tronco de cerejeira. Estava-se em Fevereiro ou Março. O caracol encontrou um insecto que lhe disse:

 - Onde vais? Não está na época! Não há cerejas nesta árvore!

 - Haverá quando eu chegar - respondeu o caracol sem parar.


Jean-Claude Carrière, "O insecto e o caracol", 
in Tertúlia de mentirosos - Contos filosóficos do mundo inteiro,
Teorema, 2000, p. 348

25 de fevereiro de 2015

A era do numérico

Entrámos na época do império numérico. Tudo se conta. Do dinheiro aos segundos, dos metros aos quilogramas, das calorias aos cafés bebidos diariamente. 


José Machado Pais, in Lufa-lufa quotidiana, 
Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana
Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª ed., p. 58

Ilustração de Delphine Doreau


23 de fevereiro de 2015

Nem todos os minutos são iguais

Ilustração de Selda Marlin Soganci

A neurose urbana existe porque vivemos algemados a relógios, havendo uma tendência para subjugar a vida ao poder da cronometria. Todavia, a vida flui através de várias dimensões temporais. Desde logo, podem contrastar-se as temporalidades subjectivas e as objectivas. No primeiro caso, nem todos os minutos são iguais. No relógio são iguais mas não na forma como são vividos ou sentidos. No universo das nossas próprias recordações, há longos pedaços das nossas vidas que a memória esquece enquanto que outros breves acontecimentos se tornam eternos.


José Machado Pais, in Lufa-lufa quotidiana, 
Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana
Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª ed., p. 66 

22 de fevereiro de 2015

Todas as coisas têm o seu tempo

Ilustração de Annie Stegg

Há tempo para nascer, e tempo para morrer; 
tempo para plantar, e tempo para arrancar o que se plantou;
tempo para matar, e tempo para dar vida;

tempo para destruir, e tempo de edificar;
Tempo para chorar, e tempo para rir; 

tempo para se afligir, e tempo para dançar;
Tempo para espalhar pedras, e tempo para as juntar;

tempo para dar abraços, e tempo para se afastar deles;
tempo para adquirir e tempo para perder;

tempo para guardar, e tempo para atirar fora;
tempo para rasgar, e tempo de coser;
tempo para  calar  e tempo para falar;
tempo para amar, e tempo para odiar;
tempo para a guerra, e tempo para a paz.

Eclesiastes 3:2-8

17 de fevereiro de 2015

Doutor, eu?


Ilustração de Sergey Ivchenko

- Você é mesmo tanso. Estava a gozar consigo. Na minha arte até posso ser considerado um catedrático da investigação criminal. Mas não sou doutor nenhum. Corte lá essa palermice do doutor e diga ao que vem.


Miguel Miranda, in Dai-lhes, Senhor, o eterno repousoPorto Editora, 2011, 1ª ed., p. 20

Doutores

Ilustração de Annie Stegg
Há uma espécie característica de gente que faz questão em se fazer anunciar por "doutor" isto ou aquilo. Destes autoproclamados "doutores", alguns ainda não acabaram curso nenhum, outros tiraram uma licenciatura crepuscular em algum instituto de vão de escada, apenas para obrigarem os outros a tratarem-nos por doutores. O homem que estava perante mim fazia parte dos seguidores dessa seita do culto da aparência. Só para verificar a sua lealdade à seita, perguntei:

- Então você é o Brandão?

O homem, outrora céreo, ganhou cor no rosto, de raiva incontida, e proferiu, martelando as sílabas:

- Doutor. Doutor Brandão. 

Ilustração de Dilka Bear

(...)
- Doutor será, quando acabar o curso. Sente-se.


Ele obedeceu, siderado. Derrubou os ombros, como se lhe tivesse caído um prédio em cima. 








Miguel Miranda, in Dai-lhes, Senhor, o eterno repousoPorto Editora, 2011, 1ª ed., p. 19




13 de fevereiro de 2015

Porque

Ilustração de Elena Trupak


Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Mar Novo,  Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 341

12 de fevereiro de 2015

Scanners corporais e privacidade

O achatamento da realidade significa que cada vez mas raramente se vê o que se olha. Ver é tornar visível o que se esquiva a uma apropriação visual. A poluição visual tende a provocar uma cegueira, da mesma forma que a poluição sonora tende a provocar a surdez. Por outro lado, olhamos à nossa volta e o que vemos é que acabamos por ser comidos por esse olho devorador que, através de circuitos de videovigilância, nos espia, à socapa. Em qualquer shopping ou esquina da rua: "Sorria, está a ser filmado".(...) 

Ilustração de Diane Duda

O Parlamento  Europeu tem debatido, de forma acalorada, o uso de scanners corporais de raios X nos aeroportos. O projecto não é pacífico, pois as mais ocultas intimidades dos passageiros ficarão expostas a usos indevidos. (...) O uso dos scanners permitiria enfrentar as bichas dos aeroportos mas, em contrapartida, nos arquivos dessas máquinas ficariam cópias de imagens explícitas dos nossos órgãos genitais e detalhes médicos íntimos, como implantes mamários ou bolsas de colostomia. 


José Machado Pais, in Lufa-lufa quotidiana, Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana
Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª ed. p.36

10 de fevereiro de 2015

O pranto branco

il. Sonia MariaLuce Possentini 

Foi pelo pranto que te reconheci

Foi pelo branco da praia que te reconheci


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Poemas Dispersos, Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 860

8 de fevereiro de 2015

Pranto pelo dia de hoje

Ilustração de Sonia MariaLuce Possentini


Nunca choraremos bastante quando vemos 
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem descritas 


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Livro Sexto, Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 431