Um blogue que se alimenta de e com ilustrações e palavras, sobretudo textos literários.
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12 de junho de 2013
11 de junho de 2013
O que damos aos livros?
Os livros constituem, de facto, um dos últimos refúgios do indivíduo e do pensamento...
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| Ilustração de Mónica Ramos |
"O leitor sabe - diz Walt Whitman - que, quando é de noite, estamos ambos a sós." Só nos livros são possíveis ainda a noite e a solidão, em tempos de holofotes por todos os lados. E quanto os homens precisam de solidão, de se escutar a si mesmos na numerosa voz dos livros! E, em tempos como estes, barulhentos e estridentes, de silêncio! Os livros podem, no entanto, oferecer-nos aquilo que pudermos nós dar-lhes, sentido ou emoção. E talvez nem todos de nós tenham alguma coisa para dar aos livros.
Manuel António Pina (2013), in Crónica, Saudade da Literatura, Assírio & Alvim, 1ª ed., p. 202
Rotina
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Ilustração de Marie Desbons |
Ao abrir a janela do quarto para outras
janelas de outros quartos, ao veres a rua que desembocanoutras ruas, e as pessoas que se cruzam, no início da
manhã, sem pensarem com quem se cruzam
em cada início de manhã, talvez te apeteça
voltar para dentro, onde ninguém te espera. Mas
o dia nasceu - um outro dia, e a contagem do tempo
começou a partir do momento em que
abriste a janela, e em que todas as janelas
da rua se abriram, como a tua. Então, resta-te
saber com quem te irás cruzar, esta manhã: se
o rosto que vais fixar, por uns instantes, retribuirá
o teu gesto; ou se alguém, no primeiro café que
tomares, te devolverá a mesma inquietação
que saboreias, enquanto esperas que o líquido
arrefeça.
Nuno Júdice, in Pedro lembrando Inês, D. Quixote, 2001, p. 23
10 de junho de 2013
O sulco
Desde que lhe morreu o marido a Bice viu-se reduzida a falar com uma galinha.Dá-lhe de comer numa travessa sêmeas em papa e fica sentada a fazer-lhe companhia no degrau da porta de casa.
Depois a galinha vai para fora e de vez em quando pára na praça ou onde bem lhe apetece. Mais tarde a Bice vai perguntar aos rapazes se a viram passar. Todas as manhãs entram juntas na igreja onde estava pintada na parede a Nossa Senhora sentada que em mil novecentos e catorze chorara porque estava para rebentar a primeira guerra mundial. Então todas as mulheres de Rimini e Ravenna vieram rezar pelos filhos e pelos maridos que estavam em perigo.
Depois acabou a guerra e nunca mais lhe ligaram. A água gotejava do tecto e catrapás, a neve deitou tudo abaixo.
Assim a igreja caiu no abandono e a pintura pouco a pouco foi-se apagando da parede e transformando em pó. Só ficou o sulco no rego que fizeram as lágrimas de Nossa Senhora quando chorou.
A Bice põe-se de joelhos diante daquela risca e a galinha fica acocorada ao pé dela.
Tonino Guerra, in O livro das igrejas abandonadas
9 de junho de 2013
Nó livre
8 de junho de 2013
Schiu!
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| Ilustração de Mayte Alvarado Simancas |
O padre da paróquia de Montelabreve esteve bem até há quinze dias. De repente meteu-se na cama e morreu com a cabeça encostada aos dois pavões azuis pintados na parede do quarto.
À sobrinha que estava sentada ali ao pé, mesmo um segundo antes de fechar os olhos para sempre, olhou para ela e depois levou o dedo aos lábios e, baixinho como se fosse um sopro, fez: "schiu!"; em suma, dizia-lhe que estivesse calada. Calada a respeito de quê? Estaria já a ouvir outras vozes? Se calhar uma música que lhe vinha lá de cima? Ou queria que ela não dissesse que ele estava a morrer? Ou, se não, um conselho para se calar na vida em geral? Ou era ele que mandava calar-se a si próprio, com o medo que faziam as palavras que se lhe derretiam na boca?
Desse dia em diante a sobrinha compreendeu que dessas coisas não devia falar com ninguém. E de vez em quando volta a olhar para os dois pavões azuis que estão a desvanecer-se da parede.
Tonino Guerra, in O livro das igrejas abandonadas, Assírio & Alvim
7 de junho de 2013
A varanda de Julieta
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| Ilustração de Vesa Sammalisto |
Uma vez, entrei em verona para não entrar
em veneza. Entre o vê e verona e o vê
de veneza optei por verona. Gostei da
coincidência das consoantes na janela
de julieta; e sei que em veneza não ouviria
o vento da vingança, nem provaria o veneno
de uma volúpia que só em verona se
desvanece com a vida. Não há canais em
verona, como em veneza; nem há janelas
em veneza, como em verona; mas julieta
espreita a rua, da janela que é sua, e se
ninguém diz a senha que só ela sabe, agita
o lenço molhado pelas lágrimas que as
nuvens bebem, levando-as de verona até
veneza, onde a chuva as deita nos canais.
Nuno Júdice, in Pedro lembrando Inês, D. Quixote, 2001, p. 22
6 de junho de 2013
Alegoria
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| Ilustração de Susans Art Loft |
Faço um castelo na areia do futuro. Torres
de névoa, ameias de fumo, pontes levadiçasde indecisão. Vejo a areia a escoar-se
na ampulheta dos séculos; e um exército
de ondas rompe a linha do infinito,
derrubando os muros da manhã.
Nuno Júdice, in Pedro lembrando Inês, D. Quixote, 2001, p. 24
4 de junho de 2013
E tudo era possível
2 de junho de 2013
Preparativos de viagem
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| Ilustração de Katsuo |
Ao fazer a mala, tenho de pensar em tudo o que lá
vou meter para não me esquecer de nada. Vou ao
dicionário e tiro as palavras que me servirão
de passaporte: uma linha
de horizonte, a altitude e a latitude,
um lugar de passageiro insistente. Dizem-me
que não preciso de mais nada; mas continuo
a encher o saco. Um pôr-do-sol para que
a noite não caia tão depressa, o toque dos teus
cabelos para que a minha mão os não esqueça,
e aquele pássaro num jardim que nasceu
nas traseiras da casa, e canta sem saber
porquê. E outras coisas que poderiam
dicionário e tiro as palavras que me servirão
de passaporte: uma linha
de horizonte, a altitude e a latitude,
um lugar de passageiro insistente. Dizem-me
que não preciso de mais nada; mas continuo
a encher o saco. Um pôr-do-sol para que
a noite não caia tão depressa, o toque dos teus
cabelos para que a minha mão os não esqueça,
e aquele pássaro num jardim que nasceu
nas traseiras da casa, e canta sem saber
porquê. E outras coisas que poderiam
parecer inúteis, mas de que vou precisar: uma frase
indecisa a meio da noite, a constelação
dos teus olhos quando os abres, e algumas
folhas de papel onde irei escrever o que a tua ausência
me vem ditar. E se me disserem que tenho
excesso de peso, deixarei tudo isto em terra,
e ficarei só com a tua imagem, a estrela
de um sorriso triste, e o eco melancólico
de um adeus.
indecisa a meio da noite, a constelação
dos teus olhos quando os abres, e algumas
folhas de papel onde irei escrever o que a tua ausência
me vem ditar. E se me disserem que tenho
excesso de peso, deixarei tudo isto em terra,
e ficarei só com a tua imagem, a estrela
de um sorriso triste, e o eco melancólico
de um adeus.
Nuno Júdice, in JL Jornal de Letras, Artes e Ideias, nº 1113,
de 19 de maio a 11 de junho de 2013, p.11
1 de junho de 2013
Algumas proposições com crianças
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| Ilustração de Cécile Bercé-Busson |
a criança não sabe que há-de fazer da infância
a criança coincide com a infância
a criança deixa-se invadir pela infância como pelo sono
deixa cair a cabeça e voga na infância
a criança mergulha na infância como no mar
a infância é o elemento da criança como a água
é o elemento próprio do peixe
a criança não sabe que pertence à terra
a sabedoria da criança é não saber que morre
a criança morre na adolescência
Se foste criança diz-me a cor do teu país
Eu te digo que o meu era da cor do bibe
e tinha o tamanho de um pau de giz
Naquele tempo tudo acontecia pela primeira vez
Ainda hoje trago os cheiros no nariz
Senhor que a minha vida seja permitir a infância
embora nunca mais eu saiba como ela se diz
Ruy Belo, in Todos os Poemas (2000), Assírio & Alvim, p.209
A rua é das crianças
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| Ilustração de Kaatje Vermiere |
Ninguém sabe andar na rua como as crianças. Para elas é sempre uma novidade, é uma constante festa transpor umbrais. Sair à rua é para elas muito mais do que sair à rua. Vão com o vento. Não vão a nenhum sítio determinado, não se defendem dos olhares das outras pessoas e nem sequer, em dias escuros, a tempestade se reduz, como para a gente crescida, a um obstáculo que se opõe ao guarda-chuva. Abrem-se à aragem. Não projectam sobre as pedras, sobre as árvores, sobre as outras pessoas que passam, cuidados que não têm. Vão com a mãe à loja, mas apesar disso vão sempre muito mais longe. E nem sequer sabem que são a alegria de quem as vê passar e desaparecer.
Ruy Belo, in Todos os Poemas (2000), Assírio & Alvim, p.264
Manhã de infância
31 de maio de 2013
As músicas do verso
29 de maio de 2013
nada pode ser mais complexo que um poema
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| Ilustração de Marten Tonnis |
nada pode ser mais complexo que um poema,
organismo superlativo absoluto vivo,
apenas com palavras,
apenas com palavras despropositadas,
movimentos milagrosos de míseras vogais e consoantes,
nada mais que isso,
música,
e o silêncio por ela fora
Herberto Helder (2013), in Servidões, Assírio & Alvim, p. 62
28 de maio de 2013
Conta-me um conto
Vídeo produzido a partir da recriação de um conto popular por alunos do Curso Profissional de Turismo da Escola Secundária Fernão Mendes Pinto, em Almada (2012-2013).
A produção textual que originou este vídeo resulta do trabalho colaborativo da disciplina de Português com a Biblioteca Escolar, na promoção da leitura e da escrita criativa.
27 de maio de 2013
A água da paróquia
Em Santarcangelo ao poço da Paróquia já não vai beber ninguém. Era a água benta que deitavam na cabeça das crianças para as baptizar e lavava as mãos de quem as metia dentro da pia.
E entretanto continuavam a andar para baixo e para cima os baldes da gente que morava ali à volta.
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| Ilustração de Nicolas Gouny |
Depois puxava-a para cima um camponês para regar as alcachofras, até que fecharam o poço com uma chapa e na borda puseram uma placa a dizer assim: «Cá de baixo a água da Paróquia olha para o alto».
Tonino Guerra, in O Livro das Igrejas Abandonadas
26 de maio de 2013
As folhas da cerejeira
A André Tarkovsky
Por cima de Casteldeci há uma igreja sem tecto e as paredes têm entre os braços uma cerejeira que cresceu no chão e cujos ramos tocam o céu.
Em Abril floresce e a brancura desliza da árvore até ao fundo do vale, depois nascem os frutos e comem-nos os melros e os pássaros bravos; entretanto as folhas ficam vermelhas e uma de cada vez caem ao chão.
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| Ilustração de Rudi Hurzlmeier |
Se alguém assoma àquelas paredes com o desejo de pedir um milagre e há uma folha que cai nesse momento é sinal que de lá de cima terá uma resposta boa.
Tarkovsky passou lá em Novembro e precisava de fazer um pedido grande, mas as folhas já tinham caído todas e serviam de cama a duas ovelhas que dormiam.
Tonino Guerra, in O Livro das igrejas abandonadas
25 de maio de 2013
Gritos corcundas
Decidi criar gritos dentro de mim. Abro a boca
e engulo todos os sons que consigo.
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| Ilustração de Robin Heighway-Bury |
Depois, não os deixo sair.
Afonso Cruz, "5 de Agosto" in O livro do Ano
Tinha gritos fechados há tanto tempo no meu
peito que, quando os soltei, saíram corcundas.
Afonso Cruz, "6 de Agosto" in O livro do Ano
Fui até às montanhas junto ao mar. Lá em cima,
abri a boca para soltar um grito que tinha
ficado esquecido.
Afonso Cruz, "12 de Agosto" in O livro do Ano
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