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17 de agosto de 2012

Pelo sonho é que vamos


Ilustração de Danguole Jokubaitiene

Pelo sonho é que vamos,
comovidos e mudos.

Chegamos? Não chegamos?

Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos,
basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria
ao que desconhecemos
e ao que é do dia-a-dia.

Chegamos? Não chegamos?

─ Partimos. Vamos. Somos.
Sebastião da Gama

16 de agosto de 2012

O sonho / voo do poeta


Ilustração de Danguole Jokubaitiene

O verdadeiro poeta sonha acordado. Não é possuído pelo seu tema, mas domina-o. Caminha pelos bosques do Éden tão confiante como nas suas sendas nativas. Ascende ao empíreo e não se embriaga. Trilha a marga abrasadora sem esmorecer; alça voo, sem se perder, através de reinos do caos “e velha noite"…nunca perdendo por inteiro as rédeas da razão quando mais parece fazê-lo.


Charles Lamb (ensaísta), citado por Adam Philips, in Louco para não dar em louco (2005:59)

15 de agosto de 2012

Voar


…como Ícaro, o herói grego, também nós aspiramos por sair do nosso labirinto. Ícaro experimentou sair com umas asas de cera e penas fabricadas por Dédalo, seu pai. E nós? A história humana, a grande e a pequena história humana, não passa de um estaleiro imenso ao serviço da invenção de asas.


Ilustração de Kate Pugsley

Sim, é possível a cada um de nós erguer-se do peso das coisas, transcender-se, perfurar a cápsula de penumbra e desânimo que se abate sobre a vida, elevar-se, recolocar-se perante a linha límpida do horizonte.

14 de agosto de 2012

Nós


Ilustração de Kalle Becker


Não há-de voltar o verão em que ouvi
cair os ramos naquele bosque de fetos
e eucaliptos; nem o pássaro que por
um instante apagou o sol voltará a

cantar antes de se perder no horizonte.

Mas voltarei a sentir o que o teu
corpo me fez sentir quando um vento
abstracto nos envolveu de luz, e
depois a sombra caiu, de novo,

com o calor seco daquela tarde.
Ilustração de Victoria Kirdy

Mudam-se os tempos, é verdade,
mas não mudamos quando o tempo
corre por entre nós com a sua lenta
música, e num abraço o perdemos

para que o tempo corra sem tempo.

Assim, os nós que o tempo desata
com os seus dedos são os nós que
nos prendem, e com os dedos do verão
os fazemos atar-nos mais ainda,
soltos nós que nesse nó nos solta a voz.

 Nuno Júdice, in Fórmulas de uma luz inexplicável

12 de agosto de 2012

Vício de bibliotecário ou erro humano?


“Catalogamos, fechamos e estigmatizamos situações, fazemos pagar” a outros “as consequências da exclusão que temos cá dentro.”

Ilustração de Dragonfly, artista croata
Pedro Meca (1998)


 Pedro Meca vive no meio das ruas de Paris, conversando e acolhendo os sem-abrigo. Pensa que as mudanças não virão tanto pela conquista do poder, mas pela alteração de mentalidades. A exclusão, por exemplo, está na nossa cabeça, diz. E é preciso esconjurar as etiquetas com que estigmatizamos tanta gente…

António Marujo, in Deus vem a público, Entrevistas sobre a transcendência

Cuidar do livro

11 de agosto de 2012

Viagem

Ilustração de Ancka Gosnik Godec




Provavelmente já terá fechado os armários da biblioteca, as janelas, subido ao sótão, aproximado da arca, tê-la-á aberto para folhear o álbum de fotografias, reler a carta, terá parado numa linha, tenho medo, medo que os próprios lençóis nos denunciem, depois fechado tudo, terá passado pelo jardim, verificado com algum espanto que o rosto das estátuas envelhecera, à entrada do pátio demorar-se-á a olhar para o meio das silvas. E terá partido.



Eugénio de Andrade, in Memória doutro rio

10 de agosto de 2012

Um poema


Ilustração de Katya Dudnik
Não tenhas medo
Ouve
É um poema
Um misto de oração e de feitiço
Sem qualquer compromisso,
Ouve-o atentamente
De coração lavado
Poderás decorá-lo e rezá-lo
Ao deitar,
Ao levantar
Ou nas restantes horas de tristeza 
Na segura certeza
De que mal não te faz
E pode acontecer
Que te dê paz!

                                          Miguel Torga

8 de agosto de 2012

Números solidários

Ilustração de Gabriel Pacheco



Estou com os que somam e multiplicam
a solidariedade
e não com os que a subtraem e dividem

Blasillo


in Juan José Millás e Antonio Fraguas "Forges", Números pares, ímpares e idiotas

7 de agosto de 2012

Poética



Ilustração de Anna Emilia

 Estes quantos traços que se parecem com a sombra
(às mãos devemos também a solidão mais implacável)
talvez nem mereçam essa forma de lentidão: a leitura
escrevi-os num jardim onde patos grasnam ao frio
e folhas se despenham atrás do vento

 
 Sobre a terra sem nenhum rumor
um verso é sempre tão pouco
em redor do que se pode observar
tenho medo pois de repente
a tua respiração ficou demasiado perto
da essência instável, dissonante

E isso é tudo o que nos resta

Tolentino Mendonça

6 de agosto de 2012

Quando eu sonhava



Ilustração de Silvia Lugli


Quando eu sonhava, era assim
Que nos meus sonhos a via;
E era assim que me fugia,
Apenas eu despertava,
Essa imagem fugidia
Que nunca pude alcançar.
Agora, que estou desperto,
Agora a vejo fixar...
Para quê? - Quando era vaga,
Uma ideia, um pensamento,
Um raio de estrela incerto
No imenso firmamento,
Uma quimera, um vão sonho,
Eu sonhava - mas vivia:
Prazer não sabia o que era,
Mas dor, não na conhecia...
                                    Almeida Garrett, in Folhas Caídas

5 de agosto de 2012

Quase



Ilustração de Danguole Jokubaitiene
Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh' alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo...e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se enlaçou mas não voou...

Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...
Ilustração de Danguole Jokubaitiene

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Mário de Sá-Carneiro

4 de agosto de 2012

Quem como eu


Ilustração de Danguole Jokubaitiene


Quem como eu em silêncio tece

Bailados, jardins e harmonias?

Quem como eu se perde e se dispersa

Nas coisas e nos dias?


Sophia de Mello Breyner Andresen

Cheiro do verão

Quem me traz morangos não sabe
Bastin Marjolein
que também me traz
um punhado
desses tão delicados e carnais
frutos silvestres
que os garotos de Roma vendem
pelas ruas, sorrindo, ao fim da tarde.
Só eles me trazem juntos a sombra
dos bosques do verão
e o canto do rouxinol
na frescura da sua pele.


Eugénio de Andrade, in Rente ao dizer

2 de agosto de 2012

Do lado do verão

Ilustração de Liu Ye

Vinha do sul ou de um verso de Homero.
Como dormir, depois de ter ouvido
o mar o mar o mar na sua boca?

Eugénio de Andrade, in O outro nome da terra

1 de agosto de 2012

História de verão

Ilustração de Mariana Kalacheva


Uma abelha, dessas que dizem ser italianas, entrou pela janela, obstinou-se em escolher-me, pousa-me no ombro, descansa de seus trabalhos. Lisonjeado com aquela preferência, comecei a amá-la devagar, retendo a respiração, com receio de que não tardasse a dar pelo seu engano, que cedo viesse a descobrir que não era eu a haste de onde se avistam as dunas. Mas o seu olhar tranquilizava, era calma ondulação do trigo. Agora só uma interrogação perturbava a minha alegria - comigo, como é que faria o mel?



Eugénio de Andrade, in Memória doutro rio

31 de julho de 2012

Se o vento vier

 
Ilustração de Noriko Senshu



De repente, sem saber por onde entrara, eu tinha a lua comigo. Não era a primeira vez, não, não era. A primeira vez havia sido há muitos anos: adormecera na eira sobre o feno, e quando acordei a lua estava a meu lado e fizera da noite um interminável e azul lago de prata. Eu flutuava no luar espesso, pesava menos que uma folha de papel. Todo o esforço que fazia era para não me desprender do solo, como se a acção da gravidade não me dissesse respeito, e flutuar no espaço fosse a minha vocação. Se o vento vier, não tenho mais remédio que abandonar-me e ver até onde me levam os seus espíritos.

Eugénio de Andrade, in Vertentes do olhar

30 de julho de 2012

Luar

Ilustração de Danguole Jokubaitiene



O luar enche a terra de miragens
E as coisas têm hoje uma alma virgem,
O vento acordou entre as folhagens
Uma vida secreta e fugitiva,
Feita de sombra e luz, terror e calma,
Que é o perfeito acorde da minha alma.



Sophia de Mello Breyner Andresen

29 de julho de 2012

Lua

Ilustração de Victor Nizovtsev



Entre a terra e os astros, flor intensa.

Nascida do silêncio, a lua cheia

Dá vertigens ao mar e azula a areia,

E a terra segue-a em êxtases suspensa.


Sophia de Mello Breyner Andresen

Pagar mais impostos é muito bom para quem paga mais impostos (2)

Ilustração de Juri Romanov


- A questão é simples: os impostos servem para melhorar a vida do país. Certo?
- Certo.
- Portanto...
- Portanto: quanto mais impostos um indivíduo pagar, mais o país melhora a sua qualidade de vida.
- Ou seja...
- Ou seja: quanto menos dinheiro cada pessoa tiver por mês para viver - pelo facto de pagar mais impostos - mais dinheiro tem o país, no geral.
No limite: quando alguém compra um pão com manteiga e o come, está, objectivamente, a roubar esse pão ao país.
- Exacto.
- Viva pois o país - exclamou o Primeiro Auxiliar.
O segundo concordou.
- A questão é: estamos ao serviço dos interesses do cidadão singular ou do país como um todo?
- Do país como um todo, Chefe! - gritaram, em uníssono, os Auxiliares.
E repetiram ainda, com os braços levantados:
- Como um todo! Como um todo!
- E o país pertence a todos! - insistiu o Primeiro Auxiliar.

- Exacto. A todos.
- Portanto, se o nosso objectivo patriótico é melhorar a qualidade de vida do país, o que temos a fazer é...
- Piorar a qualidade de vida de cada cidadão!
- Aí está!

                                                                              Gonçalo M. Tavares, in O Senhor Kraus