Número total de visualizações de páginas

20 de junho de 2012

Junto ao fogo



Decidiu abandonar as mulheres e, por longo tempo, de facto, viveu só. Passeava, olhava as árvores e frequentava o café sem voltar o rosto para qualquer mulher bela.
Ilustração de Patricio Betteo

Mas um dia, uma jovem colocou-se a seu lado e disse-lhe que o amava. Durante muitos dias o homem recusou-a, até que a mulher deixou de vir ao café, desaparecendo sabe-se lá para onde.

Só agora, aquele tal, foi sacudido por tão grande amor que percorreu, a pé, toda a cidade, até que parou a conversar com uma daquelas mulheres que vive junto às fogueiras, na periferia. E nem reparou que era a mesma rapariga que o amava.


Tonino Guerra, in Histórias para uma noite de calmaria

18 de junho de 2012

Dança

Ilustração de Mariana Kalacheva


Eram a delicadeza, a graça.

Mas também a fúria

da gataria ardendo nos telhados.



São jovens e dançam - formosos

como as dunas, os trigos, os cavalos.


Eugénio de Andrade, in Pequeno Formato

17 de junho de 2012

Na hora de pôr a mesa


Ilustração de Eugenia Gapchinska
na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.


José Luís Peixoto, in A Criança em Ruínas

Uma biblioteca é um organismo em crescimento

A 5ª lei da biblioteconomia defendida por Ranganathan debruça-se sobre o dinamismo e a política de gestão das coleções, que deve privilegiar a utilidade e a utilização dos recursos que integra.

Ilustração de Ester García
A qualidade das bibliotecas não é hoje avaliada em função do número de documentos que disponibiliza mas sim do acesso que lhes proporciona. É o leitor que faz toda a diferença, pelo que a atual explosão bibliográfica exige uma gestão concertada e opções fundamentadas na gestão da coleção.



Poupe o tempo do leitor

Fotografia de Antonio Más Morales

Uma das regras de ouro de uma biblioteca funcional e amiga do leitor é a arrumação e organização dos documentos de modo a  diminuir o seu tempo de procura no livre acesso às estantes.


Esta é a 4ª lei do indiano Ranganathan, que se interessou pela biblioteconomia. 

16 de junho de 2012

Todo o leitor tem o seu livro


Fotografia de Antonio Más Morales
Qual o seu perfil de leitor? Poesia, prosa, ensaio filosófico? Leitura técnica ou recreativa? Romance histórico ou ficção pura? Em suporte de papel ou digital? Jornal, revista, livro ou e-book? Livros de grande fôlego ou contos de pequena extensão? De linguagem acessível ou em que prime a maestria estilísitico-conceptual?


Cada leitor, pelas suas características pessoais e até circunstanciais, pela fase da vida em que se encontra, prefere um determinado tipo de leitura a outro. Cabe a cada um descobri-lo. Os bibliotecários oferecem uma ajuda preciosa neste campo, conhecendo os utilizadores das suas bibliotecas e procurando responder aos seus interesses, curiosidades e necessidades intelectuais.

"Todo o leitor tem o seu livro" é a 3ª lei de Ranganathan.

Todo o livro tem o seu leitor

Ilustração de Jill Murphy

Os gostos e as tendências literárias são diferentes de leitor para leitor, sendo certo que a cada livro espera-o um perfil de leitor dedicado, quer seja o compulsivo, que tudo lê, quer seja aquele que por ele se interessa particularmente, pelo tema, pela abordagem, pela ilustração, pela oportunidade...

Enfim, o que convém mesmo é divulgar os livros, pois nunca se sabe quando neles tropeça o leitor interessado. 

"Todo o livro tem o seu leitor" é a 2ª lei da biblioteconomia introduzida pelo pensador indiano Ranganathan.

14 de junho de 2012

Os livros são para serem usados


Ilustração de Slawek Gruca
Os livros são objetos de prazer, de aprendizagem, de ócio e de negócio (na lógica dicotómica de lazer e de trabalho que a vida contempla). Nesse sentido, são encarados como um meio para atingir dimensões plenas da vida – em síntese, cultura, conhecimento e ócio.
Ilustração de Simon Cooper






Ilustração de Gurbuz Dogan
O fim último do livro é, efetivamente, ser lido, encontrar o seu leitor. À la limite, o seu objetivo último é o de promover e desenvolver competências, gerar conhecimento (científico, literário, filosófico, religioso, artístico, político, social, etc.), mas também divertir, formar, acompanhar percursos, contrariar a solidão…

"Os livros são para serem usados " é a 1ª de cinco leis instituídas para a Biblioteconomia pelo pensador indiano Shiyali Ranganathan.


As leis do livro

Ilustração de Mae Besom


1. Os livros são para serem usados


2. Todo o livro tem o seu leitor


3. Todo o leitor tem o seu livro


4. Poupe o tempo do leitor


5. Uma biblioteca é um organismo em crescimento



Estas são as Leis de Ranganathan, cinco leis fundamentais sobre o livro, instituídas por este professor de matemática indiano que se interessou pela biblioteconomia.

13 de junho de 2012

A mãe e a irmã


Ilustração de Margarita Sikorskaia

A mãe não trouxe a irmã pela mão

viajou toda a noite sobre os seus próprios passos

toda a noite, esta noite, muitas noites

A mãe vinha sozinha sem o cesto e o peixe fumado

a garrafa de óleo de palma e o vinho fresco das espigas vermelhas

A mãe viajou toda a noite esta noite muitas noites todas as noites

com os seus pés nus subiu a montanha pelo leste

e só trazia a lua em fase pequena por companhia

e as vozes altas dos mabecos.

A mãe viajou sem as pulseiras e os óleos de proteção

no pano mal amarrado

nas mãos abertas de dor

estava escrito:

meu filho, meu filho único

não toma banho no rio

meu filho único foi sem bois

para as pastagens do céu

que são vastas

mas onde não cresce o capim.

A mãe sentou-se

fez um fogo novo com os paus antigos

preparou uma nova boneca de casamento.


Nem era trabalho dela

mas a mãe não descurou o fogo

enrolou também um fumo comprido para o cachimbo.

As tias do lado do leão choraram duas vezes

e os homens do lado do boi

afiaram as lanças.


Ilustração de Graham Franciose
A mãe preparou as palavras devagarinho

mas o que saiu da sua boca

não tinha sentido.

A mãe olhou as entranhas com tristeza                   

espremeu os seios murchos

ficou calada

no meio do dia.


Ana Paula Tavares, in Dizes-me coisas amargas como os frutos




12 de junho de 2012

O presidente



Um pintor que não tinha jeito para as cores, mas pegava bem no pincel, foi escolhido para maestro da banda.
Ilustração de Alberto Godoy


A escolha foi feita pelo presidente da cidade, que era praticamente surdo, mas apreciava os gestos minuciosos do pintor. Foi a sua primeira e única decisão.

O presidente tinha sido eleito porque era muito indeciso e pelo menos assim não incomodaria ninguém. A população, no entanto, quando ouviu o primeiro concerto da banda, revoltou-se.

Voltem a dar uma tela ao maestro!, alguém gritou.

O presidente, satisfeito, depois da sua primeira decisão ao fim de quatro anos, e julgando que a população estava a gritar Bis, decidiu candidatar-se a um segundo mandato.

A população, apesar da música, elegeu-o de novo.

                                   Gonçalo M.Tavares, in O Senhor Brecht

11 de junho de 2012

Diamantes

Ilustração de Myrea Pettit

Em vez de uvas os cachos do reino deixavam cair sobre a terra diamantes.

- Diamantes, diamantes, diamantes! Há anos que é só isto - queixava-se o produtor.

Gonçalo M. Tavares, in O senhor Brecht

10 de junho de 2012

Hermann Hesse e a sabedoria da leitura


Ilustração de Jeannette Woitzik
O facto de nos obrigarmos a ler uma obra-prima só porque é celebérrima e nos envergonhamos de ainda não a conhecermos seria um grave erro. Cada um de nós deve começar a ler, conhecer e amar aquilo que lhe suscita espontaneamente essa vontade.



As vias são inumeráveis.


Ilustração de Dinis Mota
Cada um deve começar onde um poema, um canto, um conto, uma observação lhe tenham agradado e, partindo daí, ele deve ir à procura de coisas semelhantes.


...aquilo que conta não é a quantidade.


Hermann Hesse (2010:12-13), in Uma biblioteca da Literatura Universal, Cavalo de Ferro

9 de junho de 2012


estou deitado sobre a minha ausência,

como poderia estar deitado se existisse.

 amanhã as ondas imitar-me-ão na praia.



José Luís Peixoto, in A Criança em Ruínas

Ilustração de Svjetlan Junakovic

8 de junho de 2012

Coisas que caem dos olhos




PLIM… PLIM… Lágrimas. Imaginem vê‑las cair dos olhos, e que dentro está a vossa mãe com rosto de menina, acariciando os cabelos, ajeitando‑os atrás de uma orelha. Imaginem que veem dentro delas os rostos e os lugares da vossa vida… as montanhas, com os céus encostados, autoestradas e passagens desniveladas, e árvores que nadam na água salgada de pequenas lágrimas. E rebentam no chão, salpicando tudo à volta. Para não mais voltar. Tudo transbordou dos diques dos olhos, e escapou. Para sempre. Como a história que está para começar.

Gabriele Picco, in As coisas que te caem dos olhos, Prólogo

6 de junho de 2012

Como hão-de ser as palavras?

Ilustração de António João Santos e João Rodrigues




Como as estrelas.


As estrelas são muito distintas e muito claras.



Pe. António Vieira, in Sermão da Sexagésima, cap. V

5 de junho de 2012

Atravessara o verão para te ver

Ilustração de Mariana Kalacheva












dormir, e trazia doutros lugares

um sol de trigo na pupila;

às vezes a luz demora-se

em mãos fatigadas; não sei em qual

de nós explodiu uma súbita

juventude, ou cantava:

era mais fresco o ar.

Quem canta no verão espera ver o mar.


Eugénio de Andrade, in O Peso da Sombra

4 de junho de 2012

Eu ia com a noite pelas ruas


Ilustração de Ingrid Tusell

descuidadas que levam ao teu corpo.

Não sei que vozes se cruzaram

com a manhã de junho dos meus olhos,

mas sempre vozes ou a sombra delas

cortaram os passos ao desejo.

Perdi-me em nevoeiros que de súbito

sobre a cidade caíram, ou em mim.



Eugénio de Andrade, in O Peso da Sombra

3 de junho de 2012

Apenas um rumor

Ilustração de Vincent Gibeaux


E no teu rosto aberto sobre o mar

cada palavra era apenas o rumor

de um bando de gaivotas a passar.




Eugénio de Andrade, in Os Amantes do dinheiro