Número total de visualizações de páginas

17 de dezembro de 2011

Natal do agora e do eterno

Angel, de Shiori Matsumoto
O Presépio somos nós
É dentro de nós que Jesus nasce
Dentro destes gestos que em igual medida
a esperança e a sombra revestem
Dentro das nossas palavras e do seu tráfego sonâmbulo
Dentro do riso e da hesitação
Dentro do dom e da demora
Dentro do redemoinho e da prece
Dentro daquilo que não soubemos ou ainda não tentamos

O Presépio somos nós
É dentro de nós que Jesus nasce
Dentro de cada idade e estação
Dentro de cada encontro e de cada perda
Dentro do que cresce e do que se derruba
Dentro da pedra e do voo
Dentro do que em nós atravessa a água ou atravessa o fogo
Dentro da viagem e do caminho que sem saída parece

O Presépio somos nós
É dentro de nós que Jesus nasce
Dentro da alegria e da nudez do tempo
Dentro do calor da casa e do relento imprevisto
Dentro do declive e da planura
Dentro da lâmpada e do grito
Dentro da sede e da fonte
Dentro do agora e dentro do eterno

José Tolentino Mendonça
                                                                    

13 de dezembro de 2011


Audiolivro, capa


"...o problema das moscas é ao nível da erudição - disse o senhor Henri.

...as moscas não têm linguagem porque não têm biblioteca, e se tivessem biblioteca teriam erudição.

...a erudição é uma espécie de linguagem igual à nossa, só que não a percebemos.

...eu sou muito erudito, mas quando entro nesta biblioteca engarrafada deixo a erudição à porta e transformo-me num animal dos copos."

Gonçalo M. Tavares, in O Senhor Henri

12 de dezembro de 2011

O Mistério está todo na infância



E, por fim, Deus regressa
carregado de intimidade e de imprevisto
já olhado de cima pelos séculos
Ilustração de Victoria Kirdy
... humilde medida de um oral silêncio
que pensámos destinado a perder

Eis que Deus sobe a escada íngreme
mil vezes por nós repetida
e se detém à espera sem nenhuma impaciência
com a brandura de um cordeiro doente

Qual de nós dois é a sombra do outro?
Mesmo se piedade alguma conservar os mapas
desceremos quase a seguir
desmedidos e vazios
como o tronco de uma árvore

O mistério está todo na infância:
é preciso que o homem siga
o que há de mais luminoso
à maneira da criança futura

 Poema para Bento XVI de José Tolentino Mendonça, nomeado Consultor de Cultura no Vaticano

11 de dezembro de 2011

Tributo ao leitor

Corriendo entre libros -ilustração de Nuria Feijoo
...o verbo é ser o que
é, sem ter sido o que será, na definição
conjugada das pessoas que agem, sem
que o saibam, e das que sabem, sem agir.

Nuno Júdice, in A matéria do poema  

9 de dezembro de 2011

Pesca literária


A minha posição de leitora é a de adesão a As Pequenas Memórias, tal como o narrador se extasiou com um peixe de água doce que não chegou a pescar. Dedicou-lhe, porém, o silêncio, a espera, a contemplação que o tornaram único no mundo, como o principezinho para a raposa em Saint-Exupéry: “Não creio que exista no mundo um silêncio mais profundo que o silêncio da água. Senti-o naquela hora e nunca mais o esqueci. (…) De uma maneira ou de outra, porém, com o meu anzol enganchado nas guelras, [o peixe] tinha a minha marca, era meu” (p. 86).

Mulher ou peixe
 Ilustração de Jaroslav Betehtin
Também o livro As Pequenas Memórias passou a fazer parte da minha vida de leitora. É meu. Ao contrário de “aquele barbo” do narrador, pesquei-o!

Uma questão de literatura

Aprecie-se ou não José Saramago, o autor/escritor/homem, ou alguma temática ou estilo das suas obras, certo é que estamos perante páginas de literatura em As Pequenas Memórias.
La noche pasa… la lectura queda
(ilustração de Violetno)

A propriedade lexical, que consiste em nomear cada objeto ou realidade com um vocábulo preciso, compagina-se com a novidade e liberdade semânticas que o levam a associar com criatividade uma realidade já existente a outra que lhe ocorre, adaptando, por exemplo, expressões idiomáticas em “Também inutilmente se chorará o azeite derramado” (numa associação fonética de “leite” com “azeite”, remetendo para o contexto descrito dos “velhos olivais” (p.15) ou em “a minha memória de infante” (p.33), num processo de paronímia com “memória de elefante”, criando assim, pelo trocadilho, uma antítese, pois a sua memória de criança não lhe permitia alcançar ainda a prodigiosa recordação do tempo em que teriam começado as desavenças familiares.

A maestria estilística manifesta-se tão simplesmente na tripla adjetivação que revela como num balão (“aquele era nada mais nada menos que o meu primeiro balão em todos os seis ou sete anos que levava de vida”) pode caber o universo onírico, fantástico de uma criança, ainda que gorado quando se esvazia (“Aquela coisa suja, enrugada e informe era realmente o mundo” (p.77)) ou ainda no tom coloquial que mantém com o leitor, aproximando-o das suas vivências ou retificando as suas memórias, precisando factos ou a sua sucessão: “Como acaba de se ver, não andava equivocado quando escrevi que havíamos vivido duas vezes na Rua Carrilho Videira, mas já foi o engano gravíssimo quando (…) acrescentei que estava na idade de onze anos quando do episódio com a Domitília. Nada disso. Na verdade, eu não teria mais que seis, e ela andaria pelos oito” (p.119).

Esta familiaridade com o leitor cria, de facto, por momentos, a sensação de que o narrador (ou mesmo o autor?) se nos dirige, como se nos respeitasse a ponto de retificar a informação biográfica que vai tecendo entre as páginas. Mas não será a verosimilhança tão somente mais um traço da magnitude literária da narrativa? Pouco importa que o autor de Todos os Nomes tenha tido estas ou aquelas (inúmeras) aventuras amorosas. O certo é que nos deixa presos à escrita quais bacorinhos na cama dos avós. 

Mª Carla Crespo

7 de dezembro de 2011

Desvanecimentos partilhados

Como diz o psicanalista e professor de literatura francesa Pierre Bayard, "a leitura é lugar de desvanecimento".

Ilustração de Noma Bliss e Jim Bliss
Os desvanecimentos partilhados tornam-se ainda mais consistentes. Obrigada, colegas. 

18 de novembro de 2011

Com um lápis na mão

Foi com um lápis na mão que li recentemente As Pequenas Memórias, de José Saramago. Esse pequeno hábito permitiu-me registar o prazer da leitura, que o mesmo é dizer o prazer do encontro com a escrita apurada, com o detalhe, com a análise intuitiva e instintiva que me habituei a fazer. Também as anotações de caráter pessoal têm o seu lugar a lápis, nas margens do livro. 

Écriture, de Cécile Bercé Busson

Aqui fica o registo de um desses momentos, neste caso  de identificação com o narrador autodiegético (protagonista da ação) na sua aversão à raça canina.

A diferença está em eu não identificar a causa com nenhum destrato do animal nem nunca ter tido a experiência (oxalá sempre seja poupada a tal) de saber que algum cão se lembrará de me “saltar ao gasnete”.

O que, sim, acontece é a minha adrenalina, na presença ou na mera proximidade de tal ser da natureza, ser apercebida pelo suposto atacante, que deve ficar com medo de que eu o morda e normalmente se afasta…Nesse caso, o cão deve supor, como o narrador, que eu seria capaz de tal e, cruzando-se com os demais da raça, deve ripostar a sua contenção dizendo-lhes: “Sabia, não me perguntem como, mas sabia” (p. 25) que ela me iria atacar…
Ilustração de Agnès Boulloche

Reflexões literárias

Quando leio, dificilmente me descolo de um olhar técnico, crítico, analítico.

Posso fazer humor com o que leio, divertir-me, saborear a estética, identificar-me com o conteúdo (narrativo, biográfico, poético...). O que não consigo é desprender-me da estética literária. Um texto mauzinho, sofrível, com desatenções por parte do sujeito de enunciação faz-me bocejar, desinvestir, abandoná-lo, mesmo que o tema possa requerer a maior das complacências por parte de quem o produziu ou de alguns leitores menos exigentes.  Um texto com ingredientes literários, pelo contrário, suga-me, prende-me, dá-me vontade de o ler, comentar, analisar detalhadamente. Talvez por isso, leio sempre com um lápis na mão...

Maria Carla Crespo

17 de novembro de 2011

A fome de Firmin

Feio, esquálido, subnutrido, vi a luz do dia, ou melhor, da noite, numa biblioteca. Como a minha mãe estava cansada de um parto doloroso entre os links da blogosfera (fatigante tarefa!), soergui a cabeça e logo comecei a vasculhar com que me alimentar, com que nutrir o meu corpo de recém-nascido e a minha alma sedenta de vida, de ficção, de conhecimento e aventura. E foi assim que publiquei algumas saídas para verdadeiro deleite da mente e do espírito, daqueles que nos fazem perder o apetite ou esquecer e adiar uma fome voraz. A minha fome passou a ser outra: a fome de livros.

A minha fome - e desculpem um olhar tão especificamente egocêntrico, fazendo girar o olhar de todos sobre a minha natureza- é uma fome de livros, disse-o já. Livros digitais, mas também livros com cores e sabores, com texturas variadas. Livros eruditos e sábios, que só os mais argutos e experientes ousarão folhear, mas também livros acessíveis a todas as idades e personalidades. Livros recentes e livros que fizeram história e construíram muitas estórias no universo de milhares de cidadãos...


Livros com tacto, cheiro, prazer. Livros com suor e trabalho. Livros com resistência, que depois se tornam suporte inelutável de vida, de saberes e da construção do ser.

A minha fome é voraz e preciso de outros leitores para partilharem as suas leituras, os seus autores, as suas bibliotecas preferidas...Aqui fica o desafio. Agora vou-me deitar. Tenho um livro à minha espera.
 
PS: Esta poderia ser a apresentação do rato Firmin, protagonista da obra homónima de Sam Savage.


Devoradores de livros

 



Há pessoas que se comportam nas bibliotecas como se fossem o monstro das bolachas e comem às escondidas. Eu prefiro os devoradores de livros. Aqui fica um, muito simpático: Firmin, de Sam Savage.



Nem só de livros vive uma BE, mas não há bolachinhas...

13 de novembro de 2011

Uma cereja traz outra cereja

"Uma cereja traz outra cereja, um cavalo trouxe um tio, um tio irá trazer….” (p.28).

As conversas são como cerejas é o adágio que subjaz a esta afirmação do narrador, em tom coloquial com o leitor, tom que percorre As Pequenas Memórias, como quem conta histórias vividas ou recordadas (“…às vezes pergunto-me se certas recordações são realmente minhas, se não serão mais do que lembranças alheias de episódios de que eu tivesse sido actor inconsciente…” pp. 63-64). E assim o leitor é conduzido à pobreza extrema do narrador, que dormia no chão, na companhia de baratas e partilhava um prato de sopa com a mãe, que por sua vez penhorava os cobertores no verão e os levantava quando o frio apertava; às proezas das suas venturas e desventuras amorosas e das amizades e crueldade de colegas de escola; à infância sofrida pela doença e morte do irmão Francisco; à precocidade na leitura e ao seu fascínio pela escrita quando os seus “dedos puderam, finalmente, tocar essa pequena maravilha das técnicas de escrita mais actualizadas” (p.64), numa ardósia.

 Autodisciplinando-se por vezes: “Voltemos ao fio do relato” (p. 102), o narrador conduz-nos por lugares e condições menos visitados pelos leitores de Saramago. Num estilo que o distancia da densidade psicológica das personagens de Memorial do Convento, não lhe falta contudo uma pitada de ironia, como quando relata que em casa dos vizinhos Barata “não havia livros, um só havia” de cujas histórias não acreditava fazerem “grande caso, se é que algum fizeram” e que a vizinha Conceição, “…dona desta jóia literária absoluta…” guardava A Toutinegra do Moinho “…como um tesouro numa gaveta da cómoda, embrulhado em papel de seda, com cheiro a naftalina” (p.99).

Talvez menos frequente hoje este cenário, quem dera que esta crítica social se já não aplicasse atualmente…

Mª Carla Crespo

10 de novembro de 2011

Horizonte de possibilidades


A leitura é um horizonte de possibilidades...

Quem lê acede a uma janela que se abre, para espreitar o mundo que o rodeia...

10 de novembro de 2011

Partilhar leituras

Depois do prazer de possuir livros, não há outro que seja mais doce do que falar sobre eles.

                                          Charles Nodier, apud Jacques Bonnet, Bibliotecas cheias de fantasmas, Quetzal