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23 de dezembro de 2015

Construir a manjedoura



Ilustração de Lynn Gaines


Ensina-nos, Senhor, como se constrói a manjedoura onde nasces
Ensina-nos que duas mãos que se avizinham são uma manjedoura
um abraço tem, sem palavras, aquilo que tem uma manjedoura
uma mesa fraterna que se abre desenha
a forma da Tua manjedoura
Ensina-nos, Senhor, como se constrói a manjedoura onde nasces
Ensina-nos que a misericórdia é a matéria mais apropriada
assim como a gratuidade, o perdão, os reencontros nem sempre fáceis,
a conversa recomeçada depois de uma interrupção dolorosa
o dom que compromete, o gesto de amor
os tráficos tantas vezes renascidos da dura cinza
mas que a alegria, a Tua alegria em nós,
faz parecer completamente naturais no seu feliz azul aéreo
Ensina-nos, Senhor, como se constrói a manjedoura onde nasces
arte divina de que a partir de Ti somos capazes

Tolentino Mendonça

8 de dezembro de 2015

Não há dia nenhum que não nos visite


Ilustração de Sofia Golovanova


Não há dia nenhum que não nos visite
um Anjo Teu:
na alegria que saboreamos como dom
no azul de certas presenças
que persiste depois em nós por longo tempo
no diálogo unânime, na palavra transparente
mas também no desejo frágil que não raro é o da vida
no seu passo indeciso, interrompido e cinzento
ou na ferida que nos pede mais aceitação do que cura
Não há dia nenhum que não nos visite
um Anjo Teu:
no que desce ou ascende em silêncio
e depende e não depende apenas de nós
na imperfeição e na sede que numas horas pesa
e noutras nos alavanca
na vida minúscula, no encontro talvez ínfimo
em busca daquela evidência
que na pobreza do presépio tocamos
Não há dia nenhum que não nos visite
um Anjo Teu

José Tolentino Mendonça

22 de novembro de 2015

Pergunta-me

Ilustração de Lucy Campbell


Pergunta-me
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda
o minuto de cinza
se despertas
a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue

Pergunta-me
se o vento não traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos

Pergunta-me
se te voltei a encontrar
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enevoadas
e se eras tu
quem eu via
na infinita dispersão do meu ser
se eras tu
que reunias pedaços do meu poema
reconstruindo
a folha rasgada
na minha mão descrente


Ilustração de Serena Curmi

Qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer

                                                              Mia Couto

8 de novembro de 2015

15 de outubro de 2015

O olhar aquilino do Falcoeiro

Ilustração de Alex Pelayo

De vez em quando apontava os binóculos para casa, conseguia ver Lola na sua lide caseira, pendurando roupa a secar numa corda. Deixara de gostar dela há muito, viviam juntos mais por hábito do que por outro motivo qualquer. A aversão dela aos falcões fazia-o ter vontade de a deixar, mas enquanto lhe tratasse da roupa e lhe pusesse comida na mesa ao fim de tarde, não pensaria nisso.


Miguel Miranda, "O olhar aquilino do Falcoeiro", in A fome do licantropo e outras histórias
Porto Editora, 20014, 1ª ed., p. 43

13 de outubro de 2015

Cantiga


 
Ilustração de Yoshinori Mozneko

É pelo teu rosto em que as marés passam,
pelos teus lábios em que voam gaivotas,
pelos teus dedos em que a luz perpassa,
pelos teus olhos que me traçam as rotas,

que este barco encontra o caminho,
que este dia descobre que não é tarde,
que as palavras se bebem como vinho,
e o fogo não queima quando arde.

É no que me dizes quando a noite fala,
no que perdura da manhã que se esquece,
no que é dito em tudo o que se cala,

e não precisa de ser dito quando amanhece. 



Ilustração de Jen Corace
Pode ser o amor tantas vezes sentido,
ou só aquilo que vive no coração,
pode ser o que pensava ter esquecido,
e regressa agora pela tua mão.

Quantas vezes já foi primavera,
e logo aí as flores morreram:
até ao dia em que nada ficou como era,

e todas as folhas mortas reverdeceram.

Nuno Júdice, in A matéria do poema, D. Quixote, 2008, 1ª ed., p. 96

Dedicatória



Ilustração de Kristian Adam
Para ti, de corpo aberto como a taça do
horizonte, onde se derrama o vinho fresco
da madrugada, é o poema que os deuses
esqueceram numa antiga encruzilhada. Leio-te
com a voz do vento cada uma das suas
palavras; e elas soltam-se do verso, como insectos
luminosos, roubando aos teus olhos um
cenário de clareiras e colinas.

No chão, onde a toalha do amor se estende,
nasceram as flores inextinguíveis da manhã. Conto
as suas pétalas num exercício de lenta
matemática, dando cor a cada número; e
os teus dedos tingem-se do seu fulgor,
roubando à terra os verdes que a primavera
declina, e ao céu os tons de azul com que
o verão encheu a tua sombra.

Ilustração de Mrzyk Moriceau

Sacrifico ao rigor da imagem o perfil
que a transparência sonha; e saboreio a água
fresca do ribeiro que corre nos teus lábios,
quando me falas, e todas as aves se juntam
no teu colo de nuvem. Despes, devagar, a túnica
da tarde; e um resto de melancolia envolve
o gesto que amadurece o desejo,
como um fruto, quando os corpos caem.

Ilustração de Necdet Yilmaz
Tu, cujas mãos se libertam do espelho,
desenhando a linha que o sonho atravessa.

Nuno Júdice, in Fórmulas de uma luz inexplicável, D. Quixote, 2012, 2ª ed., p. 26

 

Para ti, de corpo aberto como a taça do
horizonte, onde se derrama o vinho fresco
da madrugada, é o poema que os deuses
esqueceram num antiga encruzilhada. Leio-te
com a voz do vento cada uma das suas
palavras; e elas soltam-se do verso, como insectos
luminosos, roubando aos teus olhos um
cenário de clareiras e colinas.
No chão, onde a toalha do amor se estende,
nasceram as flores inextinguíveis da manhã. Conto
as suas pétalas num exercício de lenta
matemática, dando cor a cada número; e
os teus dedos tingem-se do seu fulgor,
roubando à terra os verdes que a primavera
declina, e ao céu os tons de azul com que
o verão encheu a tua sombra.
Sacrifico au rigor da imagem o perfil
que a transparência sonha; e saboreio a água
fresca do ribeiro que corre nos teus lábios,
quando me falas, e todas as aves se juntam
no teu colo de nuvem. Despes, devagar, a túnica
da tarde; e um resto de melancolia envolve
o gesto que amadurece o desejo,
como um fruto, quando os corpos caem.
Tu, cujas mãos se libertam do espelho,
desenhando a linha que o sonho atravessa. - See more at: http://indigohorizonte.blogspot.pt/2013/11/dedicatoria-nuno-judice.html#sthash.7reqRlWT.dpuf

10 de outubro de 2015

Tempo instável

Ilustração de Lucy Campbell

Logo a seguir ao almoço começa a chover. É
uma sequência que não tem nada de lógico, e também
podia ter dito que, logo antes do almoço começou a chover. A
lógica disto é que foi depois de almoço que fui à janela
e ouvi o ruído da chuva; e quando abri a janela
a chuva caía com toda a força, isto é, com tanta força
que, na casa em frente, os lençóis pendurados a secar
escorriam água. Na realidade, a chuva que cai no outono
também traz a melancolia que atravessa as almas e as
enche de pensamentos obscuros. Ao ver esses lençóis
encharcados, pensei na cama onde estiveram, e nos corpos
que sobre eles se abraçaram, longe da chuva e da monotonia
dos cinzentos outonais. Com tudo isto, nem reparei
que a chuva deixou de cair, um pedaço de sol
despontou de entre as nuvens e os prédios, e os lençóis
ganharam vida, como se ainda sentissem o calor
desses corpos que o amor juntou.

Nuno Júdice, in Fórmulas de uma luz inexplicável, D. Quixote, 2012, 2ª ed., p. 80

3 de outubro de 2015

Um hipnotizador no fio da navalha

Valter sorriu. Apreciar esquilos era uma atividade relaxante. Estava cansado da vida de hipnotizador. Demasiado poder sobre a vida dos outros era um tédio. Habituara-se a dominar as pessoas que o rodeavam através do hipnotismo, o que lhe dava ao início algum gozo, depois tornara-se uma compulsão. Aos poucos, transformara-se numa tortura, a que não conseguia fugir. 

Ilustração de Sara Tyson

Para comer, hipnotizava o empregado do restaurante. Para obter bens, desde roupa até ao mais sofisticado relógio, hipnotizava o funcionário da loja respectiva. Para estacionar num parque cheio, hipnotizava um condutor, que logo retirava  o carro, vagando um lugar. Vivia fascinado com o seu poder, mas ao mesmo tempo a vida parecia-lhe pouco interessante, baça, até dolorosa.


 Miguel Miranda, "Um hinotizador no fio da navalha" in A fome do licantropo e outras histórias
Porto Editora, 2014, 1ª ed., p.54

29 de setembro de 2015

Sissi

Ilustração de Masha Kurbatova

Os soluços fizeram-na estremecer, o corpo apertava-se contra o espartilho, fazendo-a crispar-se de dor e de falta de ar. Agarrando-se ao peito, aceitou a dor. Era uma pequena penitência pelo ato egoísta e inexplicável de se apaixonar pelo noivo da irmã. E, pior ainda, por se sentir feliz com o facto indiscutível de que ele parecia amá-la também. Amá-la a ela, Sissi, embora Helena lhe estivesse prometida, E assim, no meio da escuridão, chorou.


Allison Pataki, in Sissi - Imperatriz por amor, 20/20 Editora,p. 141

22 de setembro de 2015

Amor e protocolo

- Isto é o Beija-mão? - sussurrou Sissi para Francisco enquanto as nobres entravam, com as cabeças enfeitadas com plumas e fruta, e com expressões de avaliação e escrutínio no rosto. - Ou é o Desfile dos Corações Partidos?

Ilustração de Masha Kurbatova
 
Francisco riu-se da piada, mas Sissi reparou que a sogra fez uma careta. Não estava escrito em parte nenhuma do guia do protocolo que era permitido aos recém-casados sussurrar. E não era, certamente, permitido soltar risinhos no dia do casamento.


Allison Pataki, in Sissi - Imperatriz por amor, 20/20 Editora, p. 184

21 de setembro de 2015

Voarei em círculos sem repouso

Ilustração de Samaneh Rahbarnia

Como as tuas próprias aves marinhas,
Voarei em círculos sem repouso.
Para mim a Terra não tem cantos
Para construir um ninho duradouro.

Imperatriz Isabel da Áustria, Sissi


Allison Pataki, in Sissi - Imperatriz por amor, 20/20 Editora

19 de setembro de 2015

O meu amor não cabe num poema

Ilustrações da Mariana Kalacheva

O meu amor não cabe num poema - há coisas assim,
que não se rendem à geometria deste mundo;
são como corpos desencontrados da sua arquitectura
ou quartos que os gestos não preenchem.

O meu amor é maior que as palavras; e daí inútil
a agitação dos dedos na intimidade do texto -
a página não ilustra o zelo do farol que agasalha as baías
nem a candura da mão que protege a chama que estremece.

 



O meu amor não se deixa dizer - é um formigueiro
que acode aos lábios como a urgência de um beijo
ou a matéria efervescente dos segredos; a combustão
laboriosa que evoca, à flor da pele, vestígios
de uma explosão exemplar: a cratera que um corpo,
ao levantar-se, deixa para sempre na vizinhança de outro corpo.

O meu amor anda por dentro do silêncio a formular loucuras
com a nudez do teu nome - é um fantasma que estrebucha
no dédalo das veias e sangra quando o encerram em metáforas.
Um verso que o vestisse definharia sob a roupa
como o esqueleto de uma palavra morta. Nenhum poema
podia ser o chão da sua casa.

               Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p. 94

10 de agosto de 2015

Os meus livros não são livros



Ilustração de Noemí Villamuza



Os meus livros não são livros, mas folhas separadas e caídas por acaso nas estradas da minha vida.

 Chateaubriant