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21 de setembro de 2015

Voarei em círculos sem repouso

Ilustração de Samaneh Rahbarnia

Como as tuas próprias aves marinhas,
Voarei em círculos sem repouso.
Para mim a Terra não tem cantos
Para construir um ninho duradouro.

Imperatriz Isabel da Áustria, Sissi


Allison Pataki, in Sissi - Imperatriz por amor, 20/20 Editora

19 de setembro de 2015

O meu amor não cabe num poema

Ilustrações da Mariana Kalacheva

O meu amor não cabe num poema - há coisas assim,
que não se rendem à geometria deste mundo;
são como corpos desencontrados da sua arquitectura
ou quartos que os gestos não preenchem.

O meu amor é maior que as palavras; e daí inútil
a agitação dos dedos na intimidade do texto -
a página não ilustra o zelo do farol que agasalha as baías
nem a candura da mão que protege a chama que estremece.

 



O meu amor não se deixa dizer - é um formigueiro
que acode aos lábios como a urgência de um beijo
ou a matéria efervescente dos segredos; a combustão
laboriosa que evoca, à flor da pele, vestígios
de uma explosão exemplar: a cratera que um corpo,
ao levantar-se, deixa para sempre na vizinhança de outro corpo.

O meu amor anda por dentro do silêncio a formular loucuras
com a nudez do teu nome - é um fantasma que estrebucha
no dédalo das veias e sangra quando o encerram em metáforas.
Um verso que o vestisse definharia sob a roupa
como o esqueleto de uma palavra morta. Nenhum poema
podia ser o chão da sua casa.

               Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p. 94

10 de agosto de 2015

Os meus livros não são livros



Ilustração de Noemí Villamuza



Os meus livros não são livros, mas folhas separadas e caídas por acaso nas estradas da minha vida.

 Chateaubriant

7 de agosto de 2015

creio que o amor tem asas de ouro

Ilustrações de Marie Cardouat


creio nos anjos que andam pelo mundo,
creio na deusa com olhos de diamantes,
creio em amores lunares com piano ao fundo,
creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes;

creio num engenho que falta mais fecundo
de harmonizar as partes dissonantes,
creio que tudo é eterno num segundo,
creio num céu futuro que houve dantes,

creio nos deuses de um astral mais puro,
na flor humilde que se encosta ao muro,
creio na carne que enfeitiça o além,



creio no incrível, nas coisas assombrosas,
na ocupação do mundo pelas rosas,
creio que o amor tem asas de ouro. amém.


Natália Correia

4 de agosto de 2015

Os amigos


 
Ilustração de Angela Morgan

Voltar ali onde

 A verde rebentação da vaga

 A espuma o nevoeiro o horizonte a praia

 Guardam intacta a impetuosa

 Juventude antiga -

 Mas como sem os amigos

 Sem a partilha o abraço a comunhão

 Respirar o cheiro a alga da maresia

 E colher a estrela do mar em minha mão



Sophia de Mello Breyner Andresen, in Musa

31 de julho de 2015

Não sou nada


Ilustração de  Mario Rosales Arredondo



Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Álvaro de Campos, in "Tabacaria"

30 de julho de 2015

Come chocolates, pequena, come chocolates


Ilustração de Linda Olafsdottir



(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)




 Álvaro de Campos, in "Tabacaria"


29 de julho de 2015

Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave



Ilustração de Robert Neubecker

Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.


                                                                                     Alberto Caeiro