Número total de visualizações de páginas

15 de abril de 2013

Domingo em casa


Ilustrações de Sun Haeng Heo



Amanhã podia ser domingo, e

não haver sol; podia ouvir os sinos e

dizer que era apenas uma ilusão; podia

descer a rua e não encontrar o homem

que vende os jornais; podia chegar

ao largo e não ver as mulheres

em grupo a caminho da igreja, onde

vai começar a missa.



Amanhã podia ser domingo,

e as ruas estarem vazias como se

não houvesse nada para fazer; podia não

ser domingo e todas as lojas

fecharem, podia não

ser domingo e alguém perguntar

o que é que se faz quando não

é domingo.



Amanhã podia ser um dia qualquer,

e não saber em que dia estou; podia

olhar para o relógio e descobrir que

os ponteiros estão parados, podia

ouvir alguém falar, e não saber de onde


vem a voz que sai da sua boca, como

se estivesse sozinho.



Ou então, podia abrir a porta e

ver que o domingo quer entrar; e

puxá-lo para dentro da casa, para


que lá fora fique sem domingo; e

sair para a rua num dia qualquer,

perguntando a quem passa

se viu passar o domingo.

Nuno Júdice, in As coisas mais simples

14 de abril de 2013

Às vezes

Às vezes sentimos que o tempo chegou ao fim...

Ilustração de Makoto Muramatsu

...A solução é pegar
no fim e metê-lo à boca, como se fosse uma pastilha
elástica, derreter o sabor que o envolve, por amargo
que seja, e no fim pegar nesse resto que ficou e, tal
como se faz à pastilha elástica, deitá-lo fora. Para
que queremos nós o nosso próprio fim? Já bastou
tê-lo saboreado, derretido na boca, sentido o seu
amargo sabor. Então, libertos do nosso fim, veremos 
que as portas se voltarão a abrir, que a gente continua
a andar à nossa volta, que a sombra já não nos mete medo,
e que se nos voltarmos teremos pela frente o rosto
desejado, o amor, a vida de que o fim nos queria ter privado.


Nuno Júdice, in Fórmulas de uma luz inexplicável 

13 de abril de 2013

Um conceito inexprimível

Ilustração de Yoon Jae Lee
...se as palavras são duras
como as pedras, e sólidas como a terra áspera
do verão, porque não ficamos em silêncio?

Nuno Júdice, "Um conceito inexprimível", 

in Fórmulas de uma luz inexplicável

12 de abril de 2013

A força da dignidade humana

Ilustração de Maria Jose Olavarria Madariaga

...o homem muito forte que pode carregar toneladas não é mais que o velhinho que só pode ajudar.

"Abbé Pierre", in António Marujo, Deus vem a público, Entrevistas sobre a transcendência, vol. I, p. 295

9 de abril de 2013

Ler é bom!


Ilustrações de
Nathalie Jomard

...ter os pés soerguidos é a primeira condição para desfrutar da leitura.


Italo Calvino, in Se numa noite de Inverno um viajante

7 de abril de 2013

O poema


Ilustrações de Kristina Swarner


O poema me levará no tempo
Quando eu já não for a habitação do tempo
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê

O poema alguém o dirá
Às searas

Sua passagem se confundirá
Com o rumor do mar com o passar do vento

O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento

No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas

(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)




















Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas

E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Livro Sexto

6 de abril de 2013

Frutos a voar

Ilustração de Afonso Cruz



O meu irmão corrigiu-me enquanto eu apontava  
para a árvore: não são frutos a voar,
são pássaros.



Afonso Cruz, "13 de Julho" in O livro do Ano

3 de abril de 2013

O milagre da amizade

Ilustrações de 
Jimmy Liao












A amizade não se procura, não se imagina, não se deseja; exercita-se...

A amizade não se deixa afastar da realidade, tal como o belo. E o milagre consiste, simplesmente, no facto de que ela existe.


Simone Weil, in A gravidade e a graça

2 de abril de 2013

Deserto


Às vezes, trago um deserto para casa. 

É quando me sinto sozinha.

Afonso Cruz, "14 de Julho" in O livro do Ano



Ilustrações de Laimonas Smergelis 


O meu irmão diz que é muito fácil fazer    
um oásis num deserto.



Basta juntar água.


Afonso Cruz, "15 de Julho" in O livro do Ano





31 de março de 2013

Reconheci tua presença

Ilustração de Laimonas Smergelis


Pela flor pelo vento pelo fogo
Pela estrela da noite tão límpida e serena
Pelo nácar do tempo pelo cipreste agudo
Pelo amor sem ironia - por tudo
Que atentamente esperamos
Reconheci tua presença incerta
Tua presença fantástica e liberta


Sophia de Mello Breyner Andresen, "Felicidade", in Livro Sexto 

30 de março de 2013

Caminho para a Páscoa


Ilustração de Laimonas Smergelis

Sozinha caminhei no labirinto


Aproximei meu rosto do silêncio e da treva 

Para buscar a luz dum dia limpo

Sophia de Mello Breyner Andresen, "Labirinto" in Livro Sexto

29 de março de 2013

Eis-me

Ilustração de Laimonas Smergelis


Eis-me
Tendo-me despido de todos os meus mantos
Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses
Para ficar sozinha ante o silêncio
Ante o silêncio e o esplendor da tua face

Mas tu és de todos os ausentes o ausente
Nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca
O meu coração desce as escadas do tempo em que não moras
E o teu encontro
São planícies e planícies de silêncio

Escura é a noite
Escura e transparente
Mas o teu rosto está para além do tempo opaco
E eu não habito os jardins do teu silêncio
Porque tu és de todos os ausentes o ausente


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Livro Sexto 

28 de março de 2013

Amar-se a si mesmo

Ilustração de Laimonas Smergelis

Não é porque Deus nos ama que nós devemos amá-Lo. É porque Deus nos ama que nos devemos amar. Como é possível amar-se a si mesmo sem este motivo?


O amor a si mesmo é impossível ao homem a não ser através deste subterfúgio.


Simone Weil, in A gravidade e a graça

Implicação humana

Ilustração de Laimonas Smergelis 

Aquele que nos criou sem nós não nos salvará sem nós.


Santo Agostinho

27 de março de 2013

A existência de Deus

Ilustração de Laimonas Smergelis 

Se amarmos Deus pensando que não existe, ele manifestará a sua existência.


Simone Weil, in A gravidade e a graça

26 de março de 2013

O milagre da vida

Ilustração de Moony Khoa Le


Sou contra a dessacralização das coisas e das pessoas. Pelo contrário, acredito que o milagre da vida continua a ser sagrado. O milagre é a explicação inocente do mistério real que habita o homem, do poder que nele se dissimula. Não se pode morrer inculto, profano. Se não procuramos saber por que viemos a este mundo, qual o sentido superior da nossa existência na Terra, o que nos resta é esta sociedade desencantada, ignorante e materialista.


Rui Chafes, "O perfume das buganvílias 17" , in Entre o céu e a terra, Documenta, 2012





24 de março de 2013

Alimentar-se de luz

Só a privação faz sentir a necessidade. E, em caso de privação, o homem não pode impedir-se de se voltar para não importa o quê de comestível. 
Só há um remédio para isto: uma clorofila que permita alimentar-se de luz.

Ilustração de Mike Worral
Não julgar. Todos os erros são semelhantes. Existe apenas um erro: não possuir a capacidade de se alimentar da luz. Porque, estando esta capacidade anulada, todos os erros são possíveis.

                                                                                                          Simone Weil, in A gravidade e a graça

Ovos de coelho

Ilustração de Oxana Zaika

Não, disse o meu irmão. Quem põe ovos de chocolate são os coelhos da Páscoa, não são as galinhas de chocolate.



Evidentemente.




Afonso Cruz, "7 de Abril", in O livro do ano 

23 de março de 2013

Acreditar que é aquilo


Ilustração de Sanuel Ribeyron

Uma mulher muito bonita que olha a sua imagem ao espelho pode muito bem acreditar que é aquilo. Uma mulher feia sabe que não é aquilo.

Simone Weil, in A gravidade e a graça

22 de março de 2013

Carregar primaveras

Ilustração de Isabel Hojas
Como é que as andorinhas - tão pequenas - podem carregar Primaveras tão grandes?

São como as formigas, disse-me a minha mãe.

Afonso Cruz, "30 de Março", in O livro do ano