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11 de março de 2013

Autopsicografia



Pintura de Júlio Pomar

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

                                               Fernando Pessoa, 1932

10 de março de 2013

O alimento das árvores

Ilustração de Nicoletta Ceccoli
As árvores alimentam-se de luz, diz a minha mãe.

Devem comê-la toda, sofregamente,
pois ao fim do dia já acabaram com ela.
Fica tudo às escuras.

Afonso Cruz, "15 de Abril", in O livro do ano

8 de março de 2013

Sonho. Não sei quem sou neste momento


Sonho. Não sei quem sou neste momento.
Durmo sentindo-me. Na hora calma
Meu pensamento esquece o pensamento,
Minha alma não tem alma.

Se existo, é um erro eu o saber. Se acordo
Parece que erro. Sinto que não sei.
Nada quero nem tenho nem recordo.
Não tenho ser nem lei.

Desenho de Júlio Pomar


Lapso da consciência entre ilusões,
Fantasmas me limitam e me contêm.
Dorme insciente de alheios corações,
Coração de ninguém.

                                      Fernando Pessoa

Entre o sono e o sonho

Ilustração de Lucio Lopez Cansuet-Kansuet

Entre o sono e o sonho, 
Entre mim e o que em mim
É o quem eu me suponho
Corre um rio sem fim.

Passou por outras margens,
Diversas mais além,
Naquelas várias viagens
Que todo o rio tem.

Chegou onde hoje habito
A casa que hoje sou.
Passa, se eu me medito;
Se desperto, passou.

E quem me sinto e morre
No que me liga a mim
Dorme onde o rio corre —
Esse rio sem fim.

Fernando Pessoa

Sabes quem sou?

Ilustração de Fernando Falcone


Sabes quem sou? Eu não sei.
Outrora, onde o nada foi,
Fui o vassalo e o rei.
É dupla a dor que me dói.  
Duas dores eu passei.

Fui tudo que pode haver.
Ninguém me quis esmolar;
E entre o pensar e o ser
Senti a vida passar
Como um rio sem correr.

                                 Fernando Pessoa

6 de março de 2013

Arte de dentro para fora

Ilustração de Duy Huyn

Há artistas que trabalham de dentro para fora, há artistas que trabalham de fora para dentro. Os primeiros trazem um imenso mundo dentro de si e vivem na necessidade imparável e na urgência de o trazer para fora; os outros limitam-se a recolher os elementos do mundo e a reorganizá-los à sua maneira. Só podemos oferecer o que não nos cabe na mão.


Rui Chafes, "O perfume das buganvílias 27" , in Entre o céu e a terra, Documenta, 2012

5 de março de 2013

Mar sonoro


Ilustração de Quentin Gréban



Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim,

A tua beleza aumenta quando estamos sós

E tão fundo intimamente a tua voz

Segue o mais secreto bailar do meu sonho,

Que momentos há em que eu suponho

Seres um milagre criado só para mim.



Sophia de Mello Breyner Andresen

3 de março de 2013

Dignificação do real

Ilustração de Kazu Nitta

O homem dignifica aquilo a que chamamos vida quando tem consciência de participar numa dimensão superior que o transcende.

Rui Chafes, "O perfume das buganvílias 17" , in Entre o céu e a terra, Documenta, 2012

Horizonte


Ilustração de Raffaele Conte


Se a linha azul do mar tanto nos seduz é também porque essa imensidão nos lembra o nosso verdadeiro horizonte.

José Tolentino Mendonça, in O hipopótamo de Deus e outros textos,
ed. Assírio & Alvim

2 de março de 2013

O mar. O mar novamente à minha porta.

Ilustração de Mariana Kalacheva

O mar. O mar novamente à minha porta.
Vi-o pela primeira vez nos olhos
de minha mãe, onda após onda,
perfeito e calmo, depois,

contra falésias, já sem bridas.
Com ele nos braços, quanta,
quanta noite dormira,
ou ficara acordado ouvindo

seu coração de vidro bater no escuro,
até a estrela do pastor
atravessar a noite talhada a pique
sobre o meu peito.


Este mar, que de tão longe me chama,
que levou na ressaca, além dos meus navios?

Eugénio de Andrade, in Branco no branco


Ilustração de Jeffrey Larson


As ondas quebravam uma a uma
Eu estava só com a areia e com a espuma
Do mar que cantava só para mim.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Dia do Mar

1 de março de 2013

Fundo do mar

Ilustração de Ani Castillo

No fundo do mar há brancos pavores
Onde as plantas são animais
E os animais são flores.

Mundo silencioso que não atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruídos vibram os espaços. 
Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.

Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Mar

28 de fevereiro de 2013

este foi o ano em que nasceste

Ilustração de Yihang Pan

este foi o ano em que nasceste
e prolonga-se este ano os seus
meses muito grandes por ti
este foi o ano que te fez nascer
e chegaste no seu leito como
um barco carregado de rosas
um barco sem leme sem remos
que chega na força serena do rio
e na força de um dia demasiado
forte na vida na minha vida
na vida da tua mãe que te
trouxe como um barco perfumado
de pétalas a descer um rio
uma vida demasiado forte e
a nascer e a chegar no dia
exacto deste ano em que nasceste
para nós para dias e anos
de auroras e noites distantes
dias longos a nascerem como
o teu sorriso de criança a
ensinar-nos o que esquecemos ao
crescer a ensinar-nos a sorrir
de novo na vida na tua
vida que começou e se estende
neste ano sem noite sem foz
em que chegaste como um barco
de rosas na primeira luz da
madrugada

José Luís Peixoto, in A criança em ruínas

26 de fevereiro de 2013

um dia, quando a ternura for a única regra da manhã

Ilustração de George Tooker

um dia, quando a ternura for a única regra da manhã, 
acordarei entre os teus braços. a tua pele será talvez demasiado bela. 
e a luz compreenderá a impossível compreensão do amor. 
um dia, quando a chuva secar na memória, quando o inverno for 
tão distante, quando o frio responder devagar com a voz arrastada 
de um velho, estarei contigo e cantarão pássaros no parapeito da
nossa janela. sim, cantarão pássaros, haverá flores, mas nada disso
será culpa minha, porque eu acordarei nos teus braços e não direi 
nem uma palavra, nem o princípio de uma palavra, para não estragar 
a perfeição da felicidade. 

José Luís Peixoto, in A Criança em ruínas


 

A concha

A minha casa é concha. Como os bichos.
Segreguei-a de mim com paciência:

Fachada de marés, a sonhos e a lixos,
O horto e os muros só areia e ausência. 

Minha casa sou eu e os meus caprichos. 
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.

E telhados de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso! 
Lareira aberta pelo vento, as salas frias.

Ilustração de Hajin Bae

A minha casa... Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória. 

Vitorino Nemésio

25 de fevereiro de 2013

Busca da essência no mundo grego

Ilustração de Alexander Bazarin
[Sophia de Melo Breyner Andresen]  realça a aliança do homem com o mundo natural, que o paradigma da arte grega celebrou. A "verdade antiga da natureza" é também a verdade dos deuses.


A civilização grega é também um modelo axiológico para Sophia. Nela procura um conjunto de valores perdidos: a inteireza, a harmonia, a justiça. "Exilámos os deuses e fomos / Exilados da nossa inteireza", escreve em O Nome das Coisas.

Clara Rocha, in Dicionário de Literatura Portuguesa, org. e dir. de Álvaro Manuel Machado 

Soneto de Eurydice

Ilustração de Alice Guicciardi



Eurydice perdida que no cheiro
E nas vozes do mar procura Orpheu:
Ausência que povoa terra e céu
E cobre de silêncio o mundo inteiro.

Assim bebi manhãs de nevoeiro
E deixei de estar viva e de ser eu
Em procura de um rosto que era o meu
O meu rosto secreto e verdadeiro.

Porém nem nas marés, nem na miragem
Eu te encontrei. Erguia-se somente
O rosto liso e puro da paisagem.

E devagar tornei-me transparente
Como morte nascida à tua imagem
E no mundo perdida esterilmente.

Sophia de Melo Breyner Andresen, in No Tempo dividido


24 de fevereiro de 2013

Não posso adiar o amor

Ilustração de Lauraballa

Não posso adiar o amor para outro século 
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não, não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o rneu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração

António Ramos Rosa

23 de fevereiro de 2013

Poema dum funcionário cansado


A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
Ilustração de Csil Cb

estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só

Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Porque não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Porque me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?

Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música

Ilustração de Kai Pannen








São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida 

isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só.

António Ramos Rosa, O Grito Claro, 1958

22 de fevereiro de 2013

O jardim e a casa

Ilustração de Mariana Kalacheva



Não se perdeu nenhuma coisa em mim.
Continuam as noites e os poentes
Que escorreram na casa e no jardim,
Continuam as vozes diferentes
Que intactas no meu ser estão suspensas.
Trago o terror e trago a claridade,
E através de todas as presenças
Caminho para a única unidade.



Sophia de Mello Breyner Andresen, in Obra Poética I