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13 de junho de 2013

Sinceridade e fingimento

Ilustração de Danilo Martinis
A poesia de Fernando Pessoa é essencialmente irónica, no velho sentido socrático da palavra "ironia", a arte de pôr tudo em questão. Nele se descose e se problematiza muito do que fora tido até certa altura como fundamental em poesia. A principiar pela própria sinceridade poética. A sinceridade era antes de Pessoa o argumento irrespondível de um lirismo já falhado sem se dar por isso. O que Pessoa desvenda, e a meu ver não tanto por análise abstracta como pela comunicação poética da sua psicologia dilacerada, é isto: fingir e ser sincero são os dois pólos necessários da arte.

Óscar Lopes, in Fernando Pessoa, Ler e Depois 

                                                                         

13 de março de 2013

Isto

Ilustração de Sara Olmos
Dizem que finjo ou minto
Tudo o que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir! Sinta quem lê!

Fernando Pessoa

11 de março de 2013

Autopsicografia



Pintura de Júlio Pomar

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

                                               Fernando Pessoa, 1932